Durante o IV Fórum Social das Américas, realizado no Paraguai entre os dias 11 e 15 de agosto, ocorreu a oficina “Crise global e impactos na América Latina e África”, organizada pelo Instituto Brasileiro de Análises Econômicas e Sociais (Ibase), no âmbito da iniciativa “Liberalização Financeira e Instituições Financeiras Multilaterais”, em parceria com Diálogo dos Povos África-América Latina.
O debate contou com a participação de Mercia Andrews, da organização sul-africana Trust for Community Outreach and Education (TCOE); Brian Ashley, editor da Revista AMANDLA!, também da África do Sul; Emilio Taddei, do grupo Geal, da Argentina, e Fernanda Carvalho, do Ibase, entre outros.
Brian Ashley frisou que a crise financeira global não afetou da mesma forma os distintos continentes, já que há diferenças nacionais e regionais gritantes no que diz respeito aos seus impactos. Na ocasião, a África, por exemplo, já passava por profunda crise humana e social, resultado das políticas de ajuste estrutural aplicadas pelos organismos financeiros internacionais durante os últimos 20 anos.
“A crise do capitalismo bate na África com muito mais força e gera impactos muito mais devastadores, com profunda destruição dos meios e condições de vida das pessoas comuns, acelerada desindustrialização e perda de fontes de emprego, além da precarização da vida no campo”, constata Brian.
Tanto para ele como para Mercia, a atual crise, pela sua profundidade e complexidade, é uma articulação de diversas crises: ambiental, energética, financeira, do Estado-nação, e crise civilizatória devido à sua abrangência e suas consequências.
América Latina
No caso de América Latina, Emilio Taddei falou sobre o que chama de “processo de recolonização dos bens comuns da natureza”, que afeta a todos os países da região, embora de formas distintas. Para ele, vivemos a apropriação privada por parte das grandes corporações dos abundantes recursos disponíveis na região, especialmente da biodiversidade, dos minérios, dos combustíveis fósseis e, principalmente, da água.
“Nesse sentido, crise significa na América Latina mais pobreza, deslocamento violento de populações inteiras para abrir espaço à expansão dos monocultivos, violação sistemática de direitos humanos, em particular das populações rurais e dos povos indígenas”, enumera Emílio.
Com o intento de complementar o cenário, contribuir para o desenvolvimento de alternativas e chamar a atenção para a dimensão financeira da crise, a coordenadora do Ibase Fernanda Carvalho falou sobre a importância estratégica de aprofundarmos a reflexão sobre a globalização financeira, por exemplo, para o entendimento da atual crise.
“Os mercados financeiros têm sido o centro econômico do processo de globalização e sua dinâmica é estratégica na determinação do tipo de desenvolvimento e das condições de vida existentes. O controle sobre o sistema financeiro, o estabelecimento de um tipo de governança global mais democrática, não é só uma questão econômica, mas é absolutamente necessária para a existência de um espaço de autonomia para nossos países, de liberdade na escolha de políticas públicas. Hoje é visível a perda de importância dos governos que estão numa posição de alta vulnerabilidade frente a fatores de crise gerados externamente. Além de terem se tornado reféns dos mercados financeiros, que por meio de manobras como ameças de fuga de capitais e crises cambiais, entre outras, limitam a capacidade do Estado de implementar políticas tais como medidas redistributivas, impostos progressivos, redução de juros e redução de privilégios”, explica Fernanda.
Para analisar todos esses processos, identificar o déficit democrático na governança das instituições financeiras multilaterais (IFM) e discutir alternativas, o Ibase, com o apoio da Fundação Ford, em parceira com especialistas e militantes de 13 países, coordena desde 2006 a iniciativa Liberalização Financeira e Governança Global. O objetivo é contribuir para o desenvolvimento de capacidade analítica entre militantes e lideranças de movimentos e organizações da sociedade civil, fortalecendo sua capacidade crítica e ação política contra a globalização financeira neoliberal. A iniciativa se torna particularmente relevante neste momento de crise que coloca em questão o próprio mito fundamental do neoliberalismo: a capacidade de autorregulação dos mercados. É portanto um momento privilegiado para a promoção de mudanças e deve ser explorado pelos movimentos e organizações sociais.
Publicado em 24/08/2010.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO http://www.ibase.br/modules.php?name=Conteudo&pid=2920