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Crise precisa ser enfrentada com sabedoria

Movimentos devem reforçar trabalho de base diante do avanço do conservadorismo

O Brasil compõe o cenário mundial de globalização onde as relações são interdependentes e se dão diante do Império [Estados Unidos], o qual tem uma estratégia clara de poder e não quer ser afrontado por ninguém. E, diante de uma crise em evidência, precisa fazer o enfrentamento necessário para manter um modelo de sociedade que se dê pelo avanço da igualdade social e não pela exploração humana. A análise é do teólogo e escritor Leonardo Boff, que esteve no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região nesta segunda-feira (13), para falar aos movimentos sindical, sociais e religioso sobre a conjuntura.

A atividade reuniu na plateia trabalhadores, militantes, dirigentes sindicais e referências da igreja como o padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua, e Dom Angélico Sândalo Bernardino. Pela CUT São Paulo, a secretária de Imprensa e Comunicação, Adriana Magalhães, fez a abertura da mesa, ao lado do analista político Paulo Vanucchi.

Boff ressaltou que, no cenário internacional, há um desrespeito sistemático dos Estados Unidos aos direitos humanos e à soberania dos povos. “O próprio [Barack] Obama tem repetido que tem interesses globais no nosso País e se eles se dão ao direito de julgar se estes interesses forem ameaçados”.

Para o teólogo, o Brasil está dentro de uma estratégia imperialista, mesmo sendo um dos poucos países com potencial geopolítico para organizar um projeto autônomo de Nação. “Eles não toleram que haja uma potência do tamanho do Brasil aqui no Atlântico Sul. Ela tem que ser vigiada e por isso os emissários da CIA acompanham o que acontece aqui”, afirma, ao relembrar documentos que comprovam a participação norte-americana no golpe militar de 1964.

Diante da crise estrutural do capitalismo, Boff garante que a oposição ligada ao PSDB está aliada ao que denomina império estadunidense. “A frase do Fernando Henrique Cardozo é de uma perversidade incrível. É a frase dos jagunços quando diz que ‘temos’ que sangrar o PT, a Dilma e o Lula até morrer. Eles querem manter uma situação permanente de crise para não encontrar uma saída e desgastar e tornar inviável a reeleição de Lula. Isso tudo numa articulação feita com os grandes jornais para isso”, garante.

Para Boff, eles estão interessados em introduzir o neoliberalismo, que implica supremacia da economia especulativa, diminuição do poder do Estado e arrocho salarial que afetará os trabalhadores.

Na ocasião, aproveitou para saudar as ações realizadas pelo Papa Francisco nos últimos dias, junto aos movimentos sociais latino-americanos, na Bolívia. O teólogo avalia que o pontífice assume um novo paradigma ao dar centralidade à terra e à vida e ao criticar o sistema que produz “a morte”.

No caso da conjuntura brasileira, Boff acredita o PT enfrenta um cenário difícil porque fez diferentes alianças para poder governar. Para ele, diante do conservadorismo que avança, os movimentos sociais são os que devem pressionar para mudanças estruturais que se dão no País, mas que envolve interesses internacionais

“Temos que fazer uma grande revisão e voltar às nossas bases. Resgatar a memória do trabalho de base. Num governo de coalizão não se conseguiu fazer nenhuma reforma e, por isso, a solução se dará por meio de uma Constituinte”, avalia.

Boff entende que o caminho é reforma política estrutural onde não se prevaleça a economia que favorece a burguesia e mantém a riqueza concentrada nas mãos de poucos e a democracia de clientelismo, que permite situações como a de deputados que são financiados por empresas, as quais não representam, segundo ele, os interesses da sociedade.

Ele também fez referência aos movimentos sociais em luta nacional nesta segunda (13) contra a redução da maioridade penal, votação em curso no País, que tem entre os representantes políticos de maior expressividade do conservadorismo o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). “Reduzir a maioridade significa jogar os jovens nas prisões, fazer com que entrem na escola da bandidagem. É preciso, ao contrário, resgatar a dimensão da luz por cima da dimensão das sombras. Ao jovens e ao Brasil precisamos dar lugar à esperança e à perseverança”, finalizou.

Foto: Claudio Santos-Instituto Lula

Escrito por: Vanessa Ramor, CUT-SP • Publicado em: 14/07/2015 – 10:51 • Última modificação: 14/07/2015 – 10:56

Notícia colhida no sítio http://cut.org.br/noticias/leonardo-boff-movimentos-devem-reforcar-trabalho-de-base-diante-do-avanco-do-con-f821/

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Por Leonardo Boff

Inflexão perigosa para o futuro do projeto-Brasil

Somente um Deus nos poderá salvar?

A adoção pela administração Dilma Roussef de um ajuste fiscal e econômico de claro viés neoliberal que o alinha aos interesses das grandes corporações multinacionais, aos rentistas nacionais, aos fundos de pensão, aos bancos privados e a outros entes financeiros, instaura uma inflexão perigosa para o futuro político de nosso país.

A alternativa que se impunha, tendo apoiadores de ambos os lados era: ou continuamos com a vontade de reinventar o Brasil, com um projeto sobre bases novas, sustentado por  nossa cultura, nossas riquezas naturais (extremamente importantes após a constatação dos limites dos bens naturais não renováveis e do desiquilíbrio do sistema-Terra), projeto este defendido brilhantemente pelo cientista político Luiz Gonzaga de Souza Lima, num livro que até agora não mereceu uma devida apreciação e atenção A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada (RiMa, São Carlos, SP 2011) ou nos submetemos à lógica imperial que nos quer como sócios incorporados e subalternos, numa espécie de recolonização, obrigando-nos a ser apenas fornecedores dos produtos in natura (commodities, grãos, minérios, água virtual etc) que eles não possuem e precisam urgentemente.

O primeiro realizaria o sonho maior dos que pensaram um Brasil verdadeiramente independente, desde Joaquim Nabuco até Darcy Ribeiro e Luiz Gonzaga de Souza Lima  e da maioria dos movimento sociais de cunho libertário. Estes sempre projetaram uma nação autônoma e soberana e aberta ao mundo inteiro. O segundo se rende resignadamente ao mais forte, aceitando a lógica hegeliana do senhor e do servo, mas que confere imensas vantagens às classes tradicionalmente beneficiadas e que deram as costas às grandes maiorias, entregues à sua própria pobreza e miséria: indígenas quase exterminados, negros escravizados e  colonizados por quatro séculos.

Até agora predominou esta segunda alternativa. Com a vitória democrática dos que vinham debaixo, do PT e aliados, se poderia esperar a retomada do sonho de um outro Brasil com as transformações que estariam implícitas: a reforma política, tributária, agrária, urbana e ambientalista. Mas nada disso aconteceu.

Houve é verdade, e importa reconhecê-lo, uma política de distribuição de renda, o aumento dos salários, as políticas sociais que diretamente beneficiaram a 36 milhões que estavam à margem. Mas um projeto de desenvolvimento feito na base do consumo e não da produção, tinha que alcançar seus limites e, por fim, se esgotar. Foi o que, infelizmente, ocorreu. Perdeu-se uma chance histórica única, ou por falta de visão estratégica de longo prazo, ou pela urgência de dar os mínimos aos milhões de excluídos. Em todo o caso, a história que não é linear, nem costuma se repetir, não deu o salto necessário para o novo e o inaudito viável.

Agora estamos atolados numa mega-crise que alguns acreditam ser a maior de nossa história (Cid Benjamin), perplexos e com soluções que dificilmente garantem um futuro bom para a maioria dos brasileiros. Nuvens escuras encobrem nosso horizonte. Será que seremos, novamente, obrigados a repetir o que não deu certo no passado e que agora se mostra não dar certo nem mesmo nos países que gestaram o atual sistema de produção, de distribuição, de consumo e de relação depredadora da natureza? O paradigma da modernidade se esgotou em sua capacidade de apresentar alternativas.

Há um temor bastante generalizado que consiste no fato de que sejamos forçados a seguir o estranho conselho dado pelo tão louvado Lord Keynes para sair da grande depressão dos anos trinta do século passado:

Durante pelo menos cem anos devemos simular diante de nós mesmos e diante de cada um que o belo é sujo e o sujo é belo porque o sujo é útil e o belo não o é. A avareza, a usura, a desconfiança devem ser nossos “deuses” porque são eles que nos poderão guiar para fora do túnel da necessidade econômica rumo à claridade do dia…Depois virá o retorno a alguns dos princípios mais seguros e certos da religião e da virtude tradicional: que a avareza é um vício, que a exação da usura é um crime e que o amor ao dinheiro é detestável”(Economic Possibilities of our Grand-Children).

Algo parecido pensam os responsáveis da crise de 2008, pois continuam propalando que greed is good que “a avareza é boa”. Para quem? Não para os milhões famintos, desempregados e marginalizados ou até excluidos do atual sistema produtivista, consumista, individualista e cínico mas vantajoso para um punhado de milhardários que controlam grande parte dos fluxos financeiros do mundo.

Creio que cabe a frase de Martin Heidegger publicada post-mortem com referência ao destino de nossa civilização que esqueceu o Ser (o fundamento último que sustenta todas as coisas) e se perdeu nos entes (o sentido imediato e consumível): “Somente um Deus nos poderá salvar” (nur ein Gott kann uns noch retten).

O Deus da tradição  judeo-cristã é um Deus salvador e libertador dos oprimidos, um “soberno amante da vida”(Sab 11,24). Cremos e esperamos que não permitirá que desta vez a vida sucumba.

Artigo colhido no sítio http://cartamaior.com.br/?/Coluna/Inflexao-perigosa-para-o-futuro-do-projeto-Brasil/33673

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É pau, é pedra, é o fim de um caminho: um projeto Brasil

Ou nos propomos a refundar o Brasil sobre uma nova visão de mundo ou seremos condenados a ser um apêndice do projeto que entrou em crise nos países centrais.

Este é o título de um artigo do editor Cesar Benjamin na revista Piaui de abril de 2015. Talvez seja uma das mais instigantes interpretações da mega-crise brasileira, fora do arco teórico do repetitivo e enganoso discurso a partir do PIB.

Afirmam-se aí, no meu entender, dois pontos básicos: o esgotamento da forma de fazer política do PT (lulismo) e a urgência de se pensar um projeto de Brasil, a partir de novos fins e de novos valores. Esse seria o grande legado da atual crise que Benjamin reputa como “a mais grave de nossa história”. Isso me remete ao que ouvi de J. Stiglitz, Nobel em economia, numa conferência em 2009 nos espaços da ONU, na qual estava presente: ”o legado da crise econômico-financeira de 2008 será um grande debate de idéias sobre que mundo nós queremos”. Pelo mundo afora e no Brasil esse parece ser realmente o grande debate. Outros chegam a formulá-lo de forma dramática: ou mudamos ou morremos. A percepção generalizada é que assim como as coisas estão, não podem continuar, pois, lá na frente um abismo nos espreita.

Face à crise atual ganham força as palavras severas de Celso Furtado num livro que vale a pena ser revistado: ”Brasil: a construção interrompida”(1993): “Falta-nos a experiência de provas cruciais,  como as que conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou a estar ameaçada. E nos falta também um verdadeiro conhecimento de nossas possibilidades e, principalmente, de nossas debilidades. Mas não ignoramos que o tempo histórico se acelera e que a contagem desse tempo se faz contra nós. Trata-se de saber se teremos um futuro como nação que conta na construção do devenir humano. Ou se prevalecerão as forças que se empenham em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35). E conclui pesaroso: “tudo aponta para a inviabilização do país como projeto nacional”(p. 35).

Estimo que a grande e decisiva “prova crucial” chegou. Tenho colocado com frequência esta alternativa: ou nos propomos  refundar o Brasil sobre uma nova visão de mundo e de futuro ou seremos condenados a ser um apêndice do projeto-mundo que entrou em crise nos países centrais, alastrando-se por todo o sistema e que não consegue encontrar uma saída viável. Temos vontade de dar esse passo que nos renove nos fundamentos? Benjamin pondera: “Nosso sistema político gira em falso. Governa a si mesmo, em vez de governar o Brasil. Presos nessa armadilha, tornamo-nos uma sociedade de vontade fraca, que não consegue canalizar sua energia para o que verdadeiramente importa. Sociedades assim perdem a capacidade de se desenvolver, ainda mais em um contexto internacional, como o atual, em que as disputas se acirram”. E conclui:”Precisamos encontrar gente nova, organizada de maneira nova, que, em vez de tentar se adaptar ao que a sociedade é, ou parece ser, aceite correr os riscos de anunciar o que ela pode vir a ser, para impulsioná-la”. Essa gente nova é que estamos buscando e que Celso Furtado tanto almejava.

O meu modesto sentimento do mundo me diz que importa realizar as seguintes transformações se quisermos sair bem da crise e termos um projeto autônomo de nação:

-assumir o paradigma contemporâneo que já possui um século de formulação: o eixo estruturador não será mais a economia sustentável e o PIB, mas a vida. A vida da Terra viva, a diversidade da vida e a vida humana. O capital material esgotado, dará lugar ao capital humano-cultural inesgotável, permtindo-nos ser mais com menos e integrar todos na mesma Casa Comum. Tudo o mais deve colocar-se a serviço dessa biocivilização, chamada também de “Terra da Boa Esperança”(Sachs, Dowbor). A continuar, o paradigma atual nos levará fatalmente ao pior dos mundos.

-Fazer uma verdadeira reforma política pois a que foi feita não merece esse nome e é fruto de reles fisiologismo.

-Fazer uma reforma tributária para diminuir as desigualdades do país, um dos mais desiguais do mundo, vale dizer, em termos ético-políticos, mais injustos.

-Fazer uma reforma agrária e urbana já que a ausência da primeira levou a que prevalecesse o agronegócio exportador em detrimento da produção de alimentos e fizesse que 83% da população migrasse para as cidades, geralmente, para as periferias, com má qualidade de vida, de saúde, educação, transporte e de infra-estrutura.

Retomo o título de Benjamin: “é pau, é pedra, é um fim de caminho” não só o fim do atual projeto-Brasil mas o fim do projeto-mundo vigente.

Dentro de pouco, a economia se orientará pelo ecológico e pelos bens e serviços naturais. Nisso podemos ser a grande potência pelos imensos recursos que temos. O mundo precisará mais de nós do que nós do mundo.

Quem toma a sério a reflexão de uma ecologia integral praticamente ausente nas discussões econômicas, o aquecimento global e os limites físicos da Terra, estas minhas palavras não soam apocalípticas, mas realísticas. Temos que mudar se quisermos continuar sobre este planeta Terra, pois, por causa de nossa irresponsabilidade e inconsciência, ele já não nos suporta mais.

Veja meu livro Cuidar da Terra-proteger a vida: como evitar o fim do mundo, Record 2010.

Artigo colhido no sítio http://cartamaior.com.br/?/Coluna/e-pau-e-pedra-e-o-fim-de-um-caminho-um-projeto-Brasil/33642

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