Por iniciativa de Roberto Requião, se realizou de 7 a 11 deste mês (dezembro de 2008), em Curitiba, o seminário Crise: Rumos e Verdades, que reuniu quase 40 especialistas, sendo 20 brasileiros e os demais argentinos, equatorianos, venezuelanos, ingleses, italianos, russos, mexicanos e alemães. Quero destacar alguns pontos quase consensuais entre os participantes.
A crise mundial foi considerada uma crise histórica, ou seja, daquelas que, uma vez superadas, dão origem a novas configurações culturais, econômicas e políticas. Todos concordaram que se tratava da maior queima de valores da experiência capitalista.
Uma bolha se forma sob certas condições e cresce até se romper. A bolha do subprime pareceu alimentar, no seu interior, uma construção quase impossível, aonde, sob uma base de US$ 60 trilhões da soma dos PIBs de todos os países do mundo, se ergueu uma estrutura financeira com US$ 130 bilhões de ativos financeiros primários e 540 trilhões de derivativos. Se supusermos a economia real a base sob a qual se construiu um “castelo de cartas”, de múltiplos andares, grande complexidade, circulação rápida por caminhos “normais” e por estranhos percursos negociados com o nome genérico de “produtos”. Protegido pela bolha, as cartas do edifício eram coladas pela sólida confiança do chamado sistema financeiro mundial. A dissolução da bolha é acompanhada pela desmontagem do edifício, onde a “super cola” da confiança é substituída pela desconfiança recíproca e pela preferência pela liquidez. As cartas que vão caindo são ativos financeiros que se carbonizam.
Tudo leva a crer que continuarão a cair valores e não há previsão de quando se encerra este processo autofágico. A bolha, ao explodir, atinge todas as economias do espaço-mundo. No Brasil, inspirou ampliação das remessas das filiais para as matrizes aflitas; realização de aplicações de estrangeiros em valores brasileiros, gerando pressão cambial; desabamento do preço das commodities brasileiras; crise de crédito para bancos e grandes empresas que compunham funding com empréstimos de bancos do exterior.
Nossa moeda vive um momento de intensa volatilidade e torna impossível o cálculo econômico. A solvência de empresas brasileiras está abalada por grandes perdas. Sadia, Aracruz Celulose e Grupo Votorantim, por alguns balanços já divulgados, registram perdas dos lucros do balanço operacional dissipadas por perdas não-operacionais derivadas de jogos financeiros. Este aprece ser também o caso da CSN. Na crise da agricultura do Centro-Oeste, há uma forte componente com perdas especulativas no jogo de derivativos ligado ao mercado de futuros. Em resumo, a súbita inversão da taxa de câmbio impôs prejuízo às empresas que apostavam na valorização do real. Pela versão interna de crise de crédito, houve uma brutal elevação de juros; o capital de giro para empresas subiu de 2,02 a.m. para 3,20 a.m.; o empréstimo pessoal atingiu 6,15% a.m.; o cheque especial pratica 9,24% a.m. Continuamos, pela última decisão do Copom, campeões mundiais da taxa de juros real. Paulo Skaf, presidente da FIESP, em 17/11, declarou: “Estes juros que estão sendo cobrados são um catalisador para a crise”. Com lentes diferentes, Fábio Barbosa, presidente da FEBRABAN, afirma, em 26/11, que “o mercado está, pouco a pouco, retomando sua normalidade”.
O Brasil, hoje, dispõe de alguns recursos estratégicos para lidar com a crise. O principal deles são os US$ 200 bilhões de nossas reservas cambiais. Paira, entretanto, sobre este escudo, uma caixa-preta. Prevalece uma forte obscuridade em relação às articulações entre as empresas no Brasil e o cenário financeiro mundial – e é especialmente opaca nossa relação com SPEs, paraísos fiscais e derivativos intermediados por bancos estrangeiros. Dado o tamanho do passivo externo líquido superior a US$ 500 bilhões, não estamos a salvo de um ataque especulativo ao real. Deveríamos centralizar todas as operações cambiais no Banco do Brasil, dando um prazo para que todas as entidades (empresas ou pessoas físicas) registrassem seus haveres e deveres em moedas estrangeiras e participação em operações com derivativos. O Banco Central administraria um orçamento de câmbio realista. Esta seria a nossa operação de desrespeito ao Consenso de Washington. Na perspectiva brasileira, a crise da globalização instala um clima de economia de guerra e o nosso escudo protetor de US$ 200 bilhões é essencial para o futuro da nação brasileira.
De longa data, o devedor pessoa física é o preferido pelos bancos; tanto no pagamento de carnês de compras a prestação como nos cartões é bom pagador. Assume o débito pelo valor da prestação, aceita a tabela price e não considera o juro implícito na prestação (como vimos, paga no crédito especial 9,24 a.m.). Os bancos operam crédito a pessoa física com o risco reduzido, principalmente pela modalidade de crédito consignado ou desconto em folha. A família popular com baixa renda é ótima pagadora, pois percebe no estigma do SPC um veto à acumulação patrimonial. Na verdade, o bem de consumo durável ocupa um duplo espaço de patrimônio e objeto doméstico; qualquer família pobre sabe que seu eletrodoméstico é sua garantia num momento de dificuldade financeira. Este devedor pobre, muitos sem renda fixa, participou de uma expansão acelerada de endividamento. Sua propensão a se endividar foi estimulada pelo aumento de renda e pela sensação de segurança e progresso derivada da Bolsa Família e da queda de preço dos alimentos em 2005-6.
Esta situação inspira preocupação em José Castro, vice-presidente da AEB: “Se houver prolongamento da recessão internacional, o impacto no emprego poderá elevar a inadimplência, determinando um ciclo negativo na economia brasileira. (…) Nos últimos anos, o crédito no mercado interno cresceu a taxas elevadíssimas. Se houver demissões, além da retração interna, teremos problemas sérios. Crédito consignado tem prazo longo e, se houver explosão de inadimplência, poderemos ter um subprime tupiniquim”. Creio que Castro olha com temor o financiamento de veículos em 90 prestações sem entrada.
O Seminário Crise: Rumos e Verdades registrou, com reocupação, a existência de uma bolha tupiniquim, pequena em relação à crise da globalização, porém com repercussões extremamente perversas no corpo social brasileiro. A prevenção passa por reassumir os controles sobre os mecanismos da política econômica. Como bem advertiu César Benjamin: “É melhor estar preparado para piores cenários do que ser surpreendido por eles”.
Por Carlos Lessa.
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O combustível da crise
Esta é uma crise extraordinária que demanda medidas extraordinárias. Para superá-la é necessário superar o medo, as hesitações e, acima de tudo, os dogmas ortodoxos que a geraram.
A História assim o ensina. Há 79 anos, a quebra da bolsa de Nova York anunciava o começo de um longo ciclo de retrocesso das economias norte-americana e mundial. No primeiro momento crucial, o temor de Hoover em adotar medidas audazes para reativar a economia amplificou dramaticamente os impactos do crash financeiro. Entre 1929 e 1933 a produção industrial despencou 30%, 11.000 bancos faliram, as importações caíram 70% e o desemprego atingiu 25% da população ativa.
Com Roosevelt, que temia apenas o medo, tudo mudou. Seu programa de massivos investimentos em infra-estrutura, suporte à agricultura e aos desempregados, regulação e controle das instituições financeiras, estímulo à sindicalização e seguridade social, “o New Deal”, fez a economia reagir. A ordem mundial erigida no pós-guerra possibilitou crescimento sem precedentes da economia mundial por quase três décadas. Foi um período de transformações do sistema capitalista, que tem no Estado do bem-estar e no acordo de Bretton Woods suas grandes expressões simbólicas.
A crise mundial atual, deflagrada pelo estouro da bolha imobiliária norte-americana, é a culminação de um ciclo que tem suas raízes na ruptura do padrão construído naquele período. As políticas de liberalização e desregulamentação econômica e financeira, generalizadas em escala planetária, induziram extraordinária expansão e desregulamentação do sistema financeiro. O capital financeiro desterritorializou-se e passou a operar descolado das economias reais, com níveis de alavancagem sem precedentes. Com a falta de transparência das operações financeiras, criou-se uma gigantesca caixa-preta.
Por isso a crise atual tem dimensão que recorda 1929. De fato, esta é uma crise do capitalismo global, originada no coração do sistema, que não tem comparação com as crises periféricas da década de 90. O crash financeiro é só seu primeiro estágio. Não podemos subestimar sua extensão e impactos. Como em 29, ela contagiará a economia real. A recessão nas economias avançadas é inevitável. O que não se pode prever é sua duração e se ela irá transformar-se em uma depressão.
O impacto da crise no Brasil foi atenuado, mas é cumulativo. Algumas de suas manifestações já são evidentes: a redução das linhas de financiamento das exportações, o esvaziamento do mercado de capitais, a escassez de crédito, a subida da taxa de câmbio e a queda do preço de commodities relevantes na pauta de exportações do país.
No entanto, o Brasil construiu linhas de defesa importantes. Política econômica consistente possibilitou acumular reservas internacionais elevadas, que somam mais de US$230 bilhões. Gerou-se um colchão de reservas em reais, via depósitos compulsórios, da ordem de R$259 bilhões. Conseguimos zerar o componente da dívida pública indexado ao dólar, manter a inflação sob controle e reduzir o endividamento externo público. Paralelamente, diversificou-se o comércio externo, reduzindo a dependência das exportações dos mercados norte-americano e europeu. Preservamos os mecanismos de fiscalização e controle do sistema financeiro, que é mais regulado e menos alavancado que seus congêneres norte-americano e europeu. A mais sólida defesa foi, porém, a reativação da economia puxada pelo mercado interno de consumo de massas.
É fundamental limitar a extensão dos impactos financeiros da crise e prevenir desde já seus desdobramentos na esfera real. Nessa perspectiva, é preciso reconstituir o sistema de crédito e a liquidez da economia; utilizar de maneira anticíclica os instrumentos de política monetária e fiscal; incentivar o investimento e o emprego; estabilizar a taxa de câmbio; assegurar a realização dos investimentos previstos no PAC; desenvolver amplo programa de habitação popular; manter os exitosos programas sociais e melhorar a qualidade do gasto público, reduzindo despesas correntes. Clamar genérica e dogmaticamente contra o gasto público não resolve.
Mais importante, porém, é restaurar a confiança e não perder a perspectiva do futuro. A crise traz dificuldades, mas também abre possibilidades de avançar na criação de condições para a retomada, em um outro patamar, do processo de desenvolvimento. E o Brasil tem condições, como no passado, de transformar tais dificuldades em vetor de transformação econômica e social. Mas, para isso, é necessário imaginação e audácia.
Por Aloizio Mercadante, que é senador (PT-SP).
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“A crise provocada pelo neoliberalismo”
A crise mundial é fruto de décadas de políticas neoliberais que levaram a internacionalização do capital financeiro, causaram o enfraquecimento do Estado. Evidentemente ela vai atingir os países sul-americanos e o momento agora é de pensar em medidas corretivas para garantir empregos e continuar investindo em políticas sociais.
O Brasil, que antes da eleição de Lula à presidência da República tinha uma política econômica frágil, sujeita a qualquer instabilidade econômica, hoje tem um quadro estruturado e mais sólido. Mas não estamos imunes à crise. Comemoramos um bom resultado do PIB no terceiro trimestre, no entanto nossa política econômica não está consolidada. É evidente que os resultados mostram que estamos fazendo a lição de casa, o brasileiro está mais confiante, os números mostram que mais empregos foram gerados. Entretanto, é bom mencionar que grande parte das nossas receitas vêm da exportação de commodities e, portanto, estão sujeitas às variações cambiais. O efeito multiplicador disso na economia vai ser muito grande.
Antes de falar das medidas corretivas, gostaria de lembrar que a crise não surgiu ontem. Ela começou a nascer com as políticas neoliberais defendidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial. A chamada globalização não globalizou o capital produtivo. Na verdade internacionalizou o capital financeiro, tornando o mundo refém das variações e transações de capitais. Analisemos rapidamente o que aconteceu por exemplo na América do Sul, nas décadas de 70 e 80, até o final da década de 90. Quem não seguia à risca a política neoliberal era considerado país atrasado, não recebia investimentos. E essa política neoliberal já havia produzido um remédio amargo nos Estados Unidos e Inglaterra. Por exemplo, a Argentina acabou cedendo a exigência da dolarização da sua economia e o resultado todo mundo conhece.
No Brasil, graças à ação vigorosa dos movimentos sociais e à eleição do presidente Lula, se deu um basta a essa malfadada aventura política, de dolarização da nossa moeda. Agora o mundo está experimentando o remédio amargo. Por enquanto não existe antídoto, mas com bom senso podemos enfrentar a crise soberanamente. Nossas reservas internacionais permitem que tenhamos mais fôlego e as atuais políticas, responsáveis, nos dão caminhos, coisas que anteriormente não tínhamos. Dependíamos da tutela do Fundo Monetário Internacional.
É evidente que cada país sul-americano vai adotar a sua própria política econômica para combater os efeitos da crise. No Brasil, ao meu modo de ver, deveríamos investir pesadamente em infra-estrutura. Dentro disso estão as habitações populares. Isso é fundamental, porque a infra-estrutura vai criar a dinâmica necessária para o nosso desenvolvimento. Precisamos também baixar os juros, para incentivar os investimentos produtivos e o consumo interno. São medidas corretivas, mas não a solução. Esta virá de acordo com o comportamento do mercado e as próximas medidas que serão adotadas ao longo do próximo período.
Por Enio Verri, que é doutor em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo, é secretário do Planejamento e de Coordenação-Geral do Paraná e professor do Departamento de Economia da Universidade de Maringá (UEM).
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