O governo Lula ressuscitou uma prática comum na administração anterior: a de usar os grandes fundos de pensão das estatais para minimizar os efeitos de crises políticas no mercado de ações. Pelo menos essa é a avaliação dos operadores de seis corretoras ouvidos pelo Correio. Segundo eles, desde o estouro da crise política, há um mês, dia após dia, as fundações vêm aumentando as ordens de compra na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) para evitar quedas bruscas no Ibovespa, índice que mede a lucratividade dos papéis mais negociados no pregão paulista. Esse movimento é chamado de Operação Chapa-branca. Por meio dela cria-se a impressão de que o mercado está reagindo de forma tranqüila às turbulências que sacodem o país e evita-se um clima de pânico entre os investidores.
“São fortes as insinuações de que o governo recorreu à Operação Chapa-branca para acalmar os ânimos na bolsa”, diz o consultor econômico Pedro Paulo Bartolomei da Silva, especializado no mercado de ações. Tal estratégia envolveria, sobretudo, os três maiores fundos de pensão do país: Previ (dos empregados do Banco do Brasil), Petros (funcionários da Petrobras) e Funcef (empregados da Caixa Econômica Federal). Para não deixar nenhum sinal evidente, as compras de ações estariam sendo feitas em pequenos lotes e de forma muito pulverizada.
Conforme os números divulgados pela Bovespa até a sexta-feira passada, dia 17, pode-se confirmar a maior presença dos fundos de pensão, qualificados pela bolsa como investidores tradicionais, nas transações. A média diária de negócios das fundações saltou, entre maio e junho, de R$ 324,7 milhões para R$ 452,8 milhões — um incremento de 39%. Nesse mesmo período, os investidores estrangeiros, que vinham segurando o Ibovespa, reforçaram a saída do pregão paulista (veja gráficos). Somente nos dez primeiros dias de junho, deixaram um buraco de R$ 267,1 milhões.
“Não posso garantir que foi a mando do governo. Mas que os fundos de pensão se movimentaram de forma mais intensa na Bovespa nas últimas semanas, não resta a menor dúvida”, conta um dos seis operadores consultados pelo Correio. “Com patrimônio superior a R$ 250 bilhões, qualquer espirro que os fundos derem no mercado, o efeito é sentido imediatamente, para o bem ou para mal. No caso atual, as compras das fundações não apenas têm segurado o mercado, como têm garantido altas em meio à grave crise política”, acrescenta.
Para Fernando Barroso, diretor da Arbor Gestão de Recursos, não se pode cravar a existência das operações chapas-brancas dos fundos de pensão. Ele reconhece que as fundações até aumentaram a presença no mercado desde o início do mês, coincidindo com as denúncias do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de compra de parlamentares da base aliada do governo pelo PT. Mas essa presença mais forte, a seu ver, não teve o intuito de segurar a Bovespa. Foi decorrente das boas oportunidades de negócio que surgiram com as reduções de preços registradas nos meses anteriores. Em fevereiro deste ano, a Bovespa bateu consecutivos recordes de lucratividade, mas depois começou a cair, já contaminada pelo estraçalhamento da base aliada do governo.
Entre os operadores, o comentário é de que as operações chapas-brancas foram orquestradas pelo secretário de Comunicação do governo, Luiz Gushiken, que controla os fundos de estatais com mão-de-ferro. No Palácio do Planalto, assessores próximos de Gushiken negam a participação do chefe na estratégia e garantem que o tititi que ronda o mercado foi plantado pela oposição, visando criar um fato que acabe vinculando o secretário às investigações da CPI dos Correios. Gushiken, por sinal, vem reclamando de várias notas contra ele publicadas nos últimos dias em jornais e revistas.
Negativa veemente
Por meio de sua assessoria de imprensa, a Previ também nega, “com veemência”, qualquer interesse em segurar o mercado de ações em meio ao vendaval provocado pela crise política. Segundo a diretoria de Investimentos da fundação, nenhuma das operações realizadas nas últimas semanas fugiu à normalidade. Já a assessoria da Funcef informa que a carteira própria de ações e os fundos de ações administrados por terceiros só refletiram as oscilações do mercado, isto é, não houve nenhum aporte de recursos para a compra de novos papéis na Bovespa.
Na opinião do consultor Pedro Paulo da Silva não se deve atribuir somente às operações chapas-brancas o comportamento positivo da Bovespa. Apesar da crise política, ele reconhece que os fundamentos econômicos do país estão muito positivos e minimizam a insegurança dos investidores. Tanto que o risco-país está bem próximo dos 400 pontos, um patamar razoável ante o momento que o Brasil vive. Ontem, a Bovespa encerrou o dia com baixa de 0,18%, nos 26.045 pontos e volume financeiro de R$ 2,64 bilhões. O dólar teve ligeira alta de 0,25%, cotado a R$ 2,394 para venda. Já os C-bonds, os títulos mais negociados da dívida externa brasileira, tiveram valorização de 0,12%, negociados a 102,12% de seu valor de face (real).
Fonte: Correio Braziliense – Vicente Nunes
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Por Mhais• 21 de junho de 2005• 12:18• Sem categoria
Fundos de pensão: negócio na Bolsa cresce
O governo Lula ressuscitou uma prática comum na administração anterior: a de usar os grandes fundos de pensão das estatais para minimizar os efeitos de crises políticas no mercado de ações. Pelo menos essa é a avaliação dos operadores de seis corretoras ouvidos pelo Correio. Segundo eles, desde o estouro da crise política, há um mês, dia após dia, as fundações vêm aumentando as ordens de compra na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) para evitar quedas bruscas no Ibovespa, índice que mede a lucratividade dos papéis mais negociados no pregão paulista. Esse movimento é chamado de Operação Chapa-branca. Por meio dela cria-se a impressão de que o mercado está reagindo de forma tranqüila às turbulências que sacodem o país e evita-se um clima de pânico entre os investidores.
“São fortes as insinuações de que o governo recorreu à Operação Chapa-branca para acalmar os ânimos na bolsa”, diz o consultor econômico Pedro Paulo Bartolomei da Silva, especializado no mercado de ações. Tal estratégia envolveria, sobretudo, os três maiores fundos de pensão do país: Previ (dos empregados do Banco do Brasil), Petros (funcionários da Petrobras) e Funcef (empregados da Caixa Econômica Federal). Para não deixar nenhum sinal evidente, as compras de ações estariam sendo feitas em pequenos lotes e de forma muito pulverizada.
Conforme os números divulgados pela Bovespa até a sexta-feira passada, dia 17, pode-se confirmar a maior presença dos fundos de pensão, qualificados pela bolsa como investidores tradicionais, nas transações. A média diária de negócios das fundações saltou, entre maio e junho, de R$ 324,7 milhões para R$ 452,8 milhões — um incremento de 39%. Nesse mesmo período, os investidores estrangeiros, que vinham segurando o Ibovespa, reforçaram a saída do pregão paulista (veja gráficos). Somente nos dez primeiros dias de junho, deixaram um buraco de R$ 267,1 milhões.
“Não posso garantir que foi a mando do governo. Mas que os fundos de pensão se movimentaram de forma mais intensa na Bovespa nas últimas semanas, não resta a menor dúvida”, conta um dos seis operadores consultados pelo Correio. “Com patrimônio superior a R$ 250 bilhões, qualquer espirro que os fundos derem no mercado, o efeito é sentido imediatamente, para o bem ou para mal. No caso atual, as compras das fundações não apenas têm segurado o mercado, como têm garantido altas em meio à grave crise política”, acrescenta.
Para Fernando Barroso, diretor da Arbor Gestão de Recursos, não se pode cravar a existência das operações chapas-brancas dos fundos de pensão. Ele reconhece que as fundações até aumentaram a presença no mercado desde o início do mês, coincidindo com as denúncias do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de compra de parlamentares da base aliada do governo pelo PT. Mas essa presença mais forte, a seu ver, não teve o intuito de segurar a Bovespa. Foi decorrente das boas oportunidades de negócio que surgiram com as reduções de preços registradas nos meses anteriores. Em fevereiro deste ano, a Bovespa bateu consecutivos recordes de lucratividade, mas depois começou a cair, já contaminada pelo estraçalhamento da base aliada do governo.
Entre os operadores, o comentário é de que as operações chapas-brancas foram orquestradas pelo secretário de Comunicação do governo, Luiz Gushiken, que controla os fundos de estatais com mão-de-ferro. No Palácio do Planalto, assessores próximos de Gushiken negam a participação do chefe na estratégia e garantem que o tititi que ronda o mercado foi plantado pela oposição, visando criar um fato que acabe vinculando o secretário às investigações da CPI dos Correios. Gushiken, por sinal, vem reclamando de várias notas contra ele publicadas nos últimos dias em jornais e revistas.
Negativa veemente
Por meio de sua assessoria de imprensa, a Previ também nega, “com veemência”, qualquer interesse em segurar o mercado de ações em meio ao vendaval provocado pela crise política. Segundo a diretoria de Investimentos da fundação, nenhuma das operações realizadas nas últimas semanas fugiu à normalidade. Já a assessoria da Funcef informa que a carteira própria de ações e os fundos de ações administrados por terceiros só refletiram as oscilações do mercado, isto é, não houve nenhum aporte de recursos para a compra de novos papéis na Bovespa.
Na opinião do consultor Pedro Paulo da Silva não se deve atribuir somente às operações chapas-brancas o comportamento positivo da Bovespa. Apesar da crise política, ele reconhece que os fundamentos econômicos do país estão muito positivos e minimizam a insegurança dos investidores. Tanto que o risco-país está bem próximo dos 400 pontos, um patamar razoável ante o momento que o Brasil vive. Ontem, a Bovespa encerrou o dia com baixa de 0,18%, nos 26.045 pontos e volume financeiro de R$ 2,64 bilhões. O dólar teve ligeira alta de 0,25%, cotado a R$ 2,394 para venda. Já os C-bonds, os títulos mais negociados da dívida externa brasileira, tiveram valorização de 0,12%, negociados a 102,12% de seu valor de face (real).
Fonte: Correio Braziliense – Vicente Nunes
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