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II Fórum repactua carta-compromisso contra discriminações nos bancos

Crédito: Nando Neves – Seeb Rio

Nando Neves - Seeb RioII Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro

O II Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, realizado nos dias 13 e 14, no Rio de Janeiro, repactuaram a carta-compromisso de enfrentar e combater todas as formas de discriminações e o empenho com a promoção permanente da igualdade, independente do sexo, da raça/cor, da orientação sexual e identidade de gênero, do fator geracional e se pessoa com deficiência. O evento foi promovido pela Contraf-CUT em parceria com o Sindicato dos Bancários do Rio e a Fetraf RJ-ES.

O documento aprovado traz não só a posição dos mais de 60 participantes sobre os temas discutidos, mas também propostas de atuação e realização de atividades sindicais em todo país. Um dos compromissos assumidos foi o de realizar o Fórum a cada dois anos, de forma itinerante.

Protagonismo

Segundo Andrea Vasconcelos, secretária de Políticas Sociais da Contraf-CUT, as palestras enriqueceram o debate e proporcionaram maior reflexão dos dirigentes sindicais, que se sentiram desafiados a implementar e ampliar as ações de combate ao racismo.

“O II Fórum foi um momento oportuno e ímpar para acumular conteúdos sobre a temática racial da 15ª Conferência Nacional dos Bancários, realizada em julho deste ano, quando foi aprovada a inclusão na minuta de reivindicações da categoria a contratação de no mínimo 20% de negros e negras pelos bancos”.

Para Andrea, a presença dessa demanda na minuta revela o protagonismo da categoria. “Apresentamos nossa proposta à Fenaban antes mesmo do governo federal anunciar que enviará projeto de lei, em regime de urgência, para garantir a reserva de 20% das vagas nos concursos públicos para o provimento de cargos efetivos em empregos no âmbito da administração pública federal, das autarquias, das fundações públicas, das empresas públicas e das sociedades de economia mista controladas pela União”, afirma.

Questionamentos

Alguns questionamentos importantes foram colocados durante o II Fórum, como o porquê das desigualdades e as distâncias entre negros/as e brancos/as não terem diminuído no último período, o que deve levar a esquerda brasileira a repensar e direcionar ações específicas (ações afirmativas) para a população negra.

Outro questionamento importante se relaciona com a ocupação dos espaços de poder e decisão política, onde se constata baixíssima presença e quase ausência total da “cara preta” que vai do executivo ao legislativo.

Os dados sobre a letalidade dos jovens negros também chamou a atenção dos participantes e todos apontaram a necessidade de romper com esse sistema ideológico que mantém as discriminações. “É urgente romper com essa ideologia, que penetra a cultura, a política, as formas de organização, as práticas e as normas sociais que sustentam as desigualdades através do racismo. A população negra vive a tragédia em dose dupla, ou seja, estão em desvantagens em relação à educação e estão fora do mercado de trabalho”, salienta a diretora da Contraf-CUT.

Racismo no centro do debate

Andréa ressalta que o II Fórum inovou ao trazer para o centro do debate o racismo institucional. “Ele é tão mascarado que os sindicalistas dificilmente o discutem. Talvez porque algumas e alguns de nós não tenham, ainda, se apropriado do tema e não estejam convencidos de que classe e raça são dois temas que estão imbricados”.

Para ela, o caminho para mudar esta situação é incluir a discussão do racismo – e da igualdade de oportunidades, como um todo – na política de formação das entidades sindicais. “Essa postura exige disciplina militante. Não adianta ter vontade se não estudar. O dirigente tem que buscar permanentemente a atualização dos conhecimentos”, acredita.

Na avaliação de Andrea, a discussão sobre racismo precisa ganhar mais peso na pauta do movimento sindical. “Nós, dirigentes, precisamos ter coragem para pautar nossos temas o assunto. As mesas temáticas têm sido importantes para as chamadas cláusulas sociais. Muitas das pautas destas mesas vão sendo amadurecidas e acabam se consagrando na mesa da Fenaban e entrando na Convenção Coletiva. Foi o caso da ampliação da licença-maternidade e da extensão do plano de saúde a parceiros homoafetivos, por exemplo”, recorda a sindicalista.

O sucesso das iniciativas, entretanto, é tímido diante dos desafios que ainda se colocam para a discussão desses temas. “Não adianta só fazermos congressos e conferências se não levarmos a pauta do racismo institucional, da homofobia, do machismo para os espaços de decisão. As secretarias de Políticas Sociais ou outras pastas que tratem dos temas sociais têm o desafio de fazer o debate com a categoria e levá-lo amadurecido, como proposta, para a Conferência Nacional. Esses temas são tão importantes quanto quaisquer outros”, acrescenta.

Ameaça iminente

Almir Aguiar, presidente do Sindicato dos Bancários do Rio, apresentou um desafio imediato para os militantes do movimento negro: as tentativas empresariais de derrubar o feriado de 20 de novembro, dia da Consciência Negra e aniversário de morte de Zumbi dos Palmares.

“A Associação Comercial do Paraná obteve uma liminar junto ao Tribunal de Justiça do Estado cancelando o feriado, alegando prejuízos ao comércio. Esse tipo de iniciativa tem que ser fortemente combatido, já que pode abrir um precedente. As entidades do movimento negro, os sindicatos, os movimentos sociais tem que se unir e lutar para que o feriado seja nacional, com aprovação do projeto que já tramita no Congresso”, defendeu Almir.

O presidente do Sindicato fez referência ao PLS 302/204, de autoria do senador Paulo Paim (PT-RS), que completa a lei já em vigor, oficializando a data como feriado oficial em todo o país.

Atualmente, a aprovação do feriado tem sido feita por Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas. “Se fosse para comemorar os feitos de um homem branco, não seria contestado. Derrubar o feriado que lembra a luta do povo negro é uma clara demonstração de racismo e nós precisamos combatê-la”, enfatiza Almir.

Andrea enxerga o mesmo caminho. “A conjuntura política e o avanço das forças conservadoras no mundo – e no Brasil – exige das direções dos sindicatos uma postura proativa para melhorar a interlocução com os movimentos sociais. A partir desta troca poderemos construir alianças que nos fortaleçam para que possamos avançar nas temáticas específicas”, avalia a diretora da Contraf-CUT.

Carta-compromisso

II Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro

A categoria bancária tem o compromisso de enfrentar e combater todas as formas de discriminações. E, que nosso empenho é com a promoção permanente da igualdade, independente do sexo, da raça/cor, da orientação sexual e identidade de gênero, do fator geracional e se pessoa com deficiência. Pois, está comprovado que as práticas discriminatórias favorecem apenas aqueles que detêm a hegemonia do capital, concentram riquezas, segregam e precarizam as relações e as condições de trabalho na sociedade.

Considerando o acúmulo e o patamar que alcançamos com a temática de combate ao racismo na categoria, entendemos que este processo não tem mais volta, ou seja, que os bancos, denunciados pelo movimento sindical e pressionados pelos movimentos sociais, terão que abrir suas portas para uma parcela importante da população, eles querendo ou não.

Acreditamos que para que a classe trabalhadora possa viver uma democracia plena é necessário que todos e todas possam exercer sua cidadania e que entre nós não haja trabalhadores de segunda ou terceira classe. Para que os sindicatos sejam verdadeiramente representantes dos anseios da classe trabalhadora, devemos intensificar as ações em curso neste país, através das ações afirmativas. Portanto, orientamos e assumimos publicamente o compromisso com:

– Promover formação sindical sobre a temática racial;

– Realizar atos e manifestações com material específico sobre os temas em debate nas suas respectivas datas comemorativas (exemplo da campanha “VAMOS ABOLIR A DISCRIMINAÇÃO E PROMOVER A INCLUSÃO, POR MAIS CONTRATACÃO DE NEGROS E NEGRAS NOS BANCOS” para o mês de maio);

– Realizar Dia Nacional de Luta, com manifestações, atos e ocupações conjuntas com o movimento negro (Educafro e Unegro) no mês de março de 2014;

– Criar coletivos temáticos nas entidades e assim fortalecer a Comissão de Gênero, Raça e Orientação Sexual (CGROS) através das representações;

– Ampliar parcerias e estabelecer alianças com o movimento negro e movimentos sociais;

– Fazer a verificação da inserção da população negra nos locais de trabalho, tanto na admissão como na carreira, através de pesquisa ou outras formas de verificação;

– Dar visibilidade aos/as dirigentes negros e negras nos materiais sindicais, a fim de criar uma identificação com os bancários na base;

– Pautar na mesa temática de Igualdade de Oportunidades as ações afirmativas que visam à contratação de 20% de negros e negras no setor;

– Propor audiências públicas junto aos parlamentares sobre a temática e as situações que perpassam a questão da discriminação racial;

– Construir e estreitar articulação com a agenda das centrais;

– Promover qualificação profissional nos termos das certificações focada na população negra;

– Desenvolver campanhas pela efetivação das Convenções 100 e 111 da OIT;

– Cobrar a efetivação, avaliação e monitoramento dos protocolos de intenções com a SEPPIR, SPM, MEC x Fenaban;

– Garantir a transversalidade de gênero, raça, orientação sexual e pessoa com deficiência na elaboração da minuta e na mesa de negociação e no conjunto de ações e políticas do sindicalismo bancário;

– Dar visibilidade, fazer repercutir a realização da II Censo na categoria e politizar o processo;

– Defendemos a dotação orçamentária para implementação do Estatuto da Igualdade Racial para dar sequência ao processo virtuoso de promoção de igualdade de oportunidades iniciado nos últimos anos;

– Lutar para eliminar a discriminação estrutural;

– Combater, enfrentar e eliminar o racismo institucional que produz e reproduz a falta de acesso, o ingresso ao trabalho precarizado e a perpetuação das desigualdades sociais;

– Defender o princípio das ações afirmativas, superando a desinformação e sua redução a políticas de cotas;

– Cobrar do Estado uma postura pró-ativa na promoção da igualdade racial e da igualdade de oportunidades e tratamento;

– Enfrentar as elevadas taxas de letalidade da juventude negra;

– Realização do fórum pela visibilidade negra no SFN a cada dois anos e de forma itinerante;

– Encaminhar documento à presidência da República solicitando decreto de feriado nacional, no aniversário de Zumbi de Palmares – 20 de novembro (Dia da Consciência Negra).

RIO DE JANEIRO, 14 DE NOVEMBRO DE 2013.

Fonte: Contraf-CUT com Seeb Rio e Fetraf RJ-ES

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II Fórum Nacional discute combate ao racismo no sistema financeiro

O combate ao racismo nos bancos foi um dos temas da roda de conversa no segundo dia do II Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, encerrado nesta quinta-feira (14), no Hotel São Francisco, no centro do Rio de Janeiro. O evento foi promovido pela Contraf-CUT em parceria com o Sindicato dos Bancários do Rio e a Fetraf RJ-ES.

A discussão começou com a apresentação do Dieese sobre a presença de afrodescendentes no mercado de trabalho bancário.

A técnica da subseção do Dieese na Contraf-CUT, Barbara Vallejos Vasquez, mostrou a pesquisa que combinou informações de quatro fontes: o Censo de 2010 do IBGE, o Mapa da Diversidade, realizado pela Febraban em 2009, a Pesquisa do Emprego Bancário (PEB) de 2012 da Contraf-CUT e Dieese com dados do TEM, e a PNAD/IBGE de 2012.

Os dados mostram claramente não só que o número de pretos e pardos nos bancos é menor, mas que a média salarial é inferior. Outro elemento relevante apontado na pesquisa é que nos bancos privados houve mais demissões que contratações de afrodescendentes em 2012.

Racismo não é destaque

O diretor de formação da Unegro-Rio, Antônio Carlos dos Santos, que também é assessor do departamento de formação do Sindicato dos Metalúrgicos do Rio de Janeiro, focou o tratamento dado pelos sindicalistas à questão racial.

“Mesmo na categoria dos metalúrgicos, em que a maioria é de trabalhadores negros, a questão do racismo não tem destaque. É preciso que as pessoas se reconheçam e percebam a necessidade de fazer este debate”, apontou o ativista negro. Para Antônio Carlos, essa situação se dá não só pela naturalização do racismo na sociedade brasileira, mas também pela concentração da atuação política dos dirigentes sindicais em outras questões.

“Os sindicalistas desenvolveram uma cultura de que sua atuação tem que ter resultados. O que percebemos é que, de maneira geral, todo o esforço se reverte na questão econômica. As cláusulas sociais ficam em segundo plano”, criticou.

Antônio Carlos destacou, ainda, que as políticas de reparação – como as cotas nas universidades – apesar de muito criticadas por um segmento da sociedade, são não apenas necessárias, mas justas. “Reparação é colocar num nível aceitável a enorme defasagem de oportunidades que negros e negras sempre tiveram”, defendeu.

A professora e ativista Glória Ramos, conselheira sindical do Inspir (Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial), destacou a importância dos militantes sindicais que nunca deixaram o tema ser varrido para debaixo do tapete. Ela apontou que os números do racismo apontados na pesquisa do Dieese não são novidade para quem sofre a discriminação. “Os dados são importantes para quem diz que não há racismo. Para nós, os dados são a nossa vida, as situações que vivemos no dia a dia”, enfatizou.

A gente não quer só comida 

Para Glória, o extermínio da população negra no Brasil começou no dia 14 de maio de 1888, um dia após a abolição da escravidão. “Lá atrás, deixaram a gente sem comer. Agora que tem Bolsa-Família, que a gente está comendo, dão tiro”, denunciou.

A melhoria do poder aquisitivo de negros e negras também trouxe o aumento das demandas. “Foi feito o maior programa de distribuição de renda do mundo. Agora que comemos, queremos ir para a escola. Eu quero riquezas, que foram construídas pelos meus ancestrais. E eu quero dividir e redistribuir poder. Essa é a reparação”, defendeu Glória.

Ela se reconheceu como exceção, mas não se conforma. “Não é todo mundo que pode fazer mestrado e doutorado no Brasil. Muito menos, negros e negras. Mas é na educação mesmo que negros e pardos vão entender que têm valor, que têm direito de ter espaço e que não podem ser assassinados. Se não for operada uma transformação sócio-educativa, nada vai mudar”, avaliou Glória.

Atuação na sociedade 

Tanto Antônio Carlos quanto Glória apontaram a dificuldade dos negros se reconhecerem como um dos obstáculos ao enfrentamento do racismo. “O vigilante do banco é negro, mas é o negro feitor, é mestiço. Ele é um irmão que faz o que o patrão manda. É essa mestiçagem mal feita que gera um pardo que não sabe qual o seu lugar”, analisou Glória.

Para ele, a solução passa pela formação. “É preciso termos ativistas da causa que multipliquem conhecimentos e formem novos ativistas. Precisamos também de redes de comunicação para trocar informações”, propôs Antônio Carlos.

Cotas nos bancos

Glória, que defendeu cotas para a contratação de trabalhadores e trabalhadoras afrodescendentes em todos os setores, apresentou uma proposta. “Banco é concessão pública. Quando o Itaú, o Bradesco, o Santander, forem renovar suas concessões, o Estado tem que intervir e exigir que eles definam uma cota para contratação de negros. E quem vai fazer o Estado intervir é o movimento negro, são os sindicatos”, sugeriu.

A professora também defendeu que o debate do racismo seja feito o ano todo, aproveitando várias datas importantes sobre o tema, mas não somente nessas ocasiões. “Além da campanha salarial, tem que fazer a campanha antirracismo. E tem que fazer com todo mundo, não pode ter só negro. Tem que ter também o branco de alma negra, aquele que tem um olho que vê, que não deixa passar o racismo”, concluiu.

Fonte: Contraf-CUT com Renata Silber (Fetraf RJ-ES)

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Emprego e remuneração comprovam racismo nos bancos, diz Dieese

“É incontestável a existência de racismo no sistema financeiro.” A afirmação foi feita por Bárbara Vasquez, técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), durante palestra no II Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, encerrado nesta quinta-feira (14), no Hotel São Francisco, no centro do Rio de Janeiro. O evento foi promovido pela Contraf-CUT em parceria com o Sindicato dos Bancários do Rio e a Fetraf RJ-ES.

Bárbara comparou os números do Censo Demográfico do IBGE de 2010 com os do Mapa da Diversidade da Febraban em 2008. No censo, as pessoas de cor negra (pardas e pretas) eram 50,7% da população brasileira, as de cor branca 47,7%; amarela, 1,1%; e indígena, 0,4%.

Nos bancos, segundo a pesquisa da própria Febraban, essa situação se inverte: os bancários de cor branca são 77,4%; somente 19% são de cor negra (2,3% preta e 16,7% parda); 3,3%, amarela; e 0,3%, indígena. “Há, portanto, uma subrepresentação dos negros nos bancos, confirmando o racismo”, observou.

RAIS confirma racismo

A técnica do Dieese apresentou também dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), extraídos do Registro Anual de Informações Sociais (RAIS), de 2012, que confirmam o racismo: 79,9% dos bancários são de cor branca; apenas 17,1%, negra (14,9%, parda, e 2,2% preta); 2,8%, amarela; e 0,2%, indígena.

Segundo a RAIS, a discriminação é maior nos bancos privados, mas também é grande nos públicos. Nos primeiros, 80,7% dos bancários são de cor branca; 16,5% de cor negra (14%, parda e 2,5%, preta); e 2,1% de cor amarela. Nos públicos, 74,8% são de cor branca; 21,9%, negra (19,4%, parda e 2,5% preta); e 3% amarela.

Mas o que mais assusta é que os bancos estão “embranquecendo” ainda mais o corpo de funcionários, tanto no setor público quanto no privado. Bárbara comprovou isto também através da RAIS de 2012: o número de negros admitidos em bancos públicos foi de 4.552, enquanto o de brancos foi mais que o dobro, 10.923. Nos privados a diferença é ainda mais assustadora. Foram admitidos naquele ano, 4.364 negros, e um número quase 5 vezes maior de brancos: 19.923.

Mesmo com dados tão alarmantes, na mesa temática sobre Igualdade de Oportunidades, os bancos dizem que estão fazendo um esforço para mudar essa situação. O número de negros demitidos também é maior nos privados: 5.169 bancários contra 1.331 nos públicos.

Negros ganham menos

Bárbara enfatizou que o Mapa da Diversidade mostra o tratamento diferenciado também na remuneração. Mesmo trabalhando na mesma função, os negros recebem, em média, 84% do salário dos brancos. O número de negros é menor quanto mais alto é o cargo na hierarquia bancária.

No posto de auxiliares de escritório 30% são negros e 69% não negros; no de gerente, 14% são negros e 86% não negros; já no de auditores 88% são não negros e 11% negros; nos cargos de diretores, 95% são não negros e apenas 4%, negros.

Entre bancários e terceirizados, são 1.023.120 trabalhadores no sistema financeiro. Deste total, 301.654 são negros, sendo 146.909 homens e 154.745 mulheres. Os não negros totalizam 721.766 pessoas. Destes, 356.408 são homens e 365.058, mulheres. Ao todo, são 503.317 homens e 519.803 mulheres.

O rendimento médio mensal das mulheres negras é de R$ 1.752,26; e dos negros, R$ 2.845,15. Entre os não negros, o salário médio é de R$ 4.254,19 e entre as não negras, R$ 2.630,60.

Comparando-se apenas os gêneros, os homens recebem uma remuneração média de R$ 3.840,19 e as mulheres R$ 2.360, 69. “Desde 1999, os bancários colocaram o tema da existência da discriminação racial na mesa de negociações, exigindo mudanças, e cláusulas para mudar esta realidade foram incluídas na Convenção Coletiva. Para resolver o problema é necessário insistir e pressionar cada vez mais”, afirmou.

Fonte: Contraf-CUT com Olyntho Contente (Seeb Rio)

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Apenas 26% dos negros conseguem promoções nos bancos, diz Educafro

Crédito: Nando Neves – Seeb Rio
Nando Neves - Seeb RioFrei David Raimundo defendeu inclusão de negros no mercado de trabalho 

A discriminação racial nos bancos consegue ser ainda mais contundente do que em outros setores do mercado de trabalho. Essa é a conclusão dos dados apresentados por Frei David Raimundo dos Santos, da ONG Educafro, nesta quinta-feira (14), durante o II Fórum Nacional pela Visibilidade Negra no Sistema Financeiro, realizado no Hotel São Francisco, no Rio de Janeiro.

Segundo ele, apenas 26% dos bancários negros conseguem ser promovidos nos bancos. Para ingressar no mercado de trabalho, os negros e negras também estão em desvantagens: se cada 100 brancos que trabalham nas instituições financeiras, apenas 8 são negros.

O evento, iniciado ontem, foi promovido pela Contraf-CUT em parceria com o Sindicato dos Bancários do Rio e a Fetraf RJ-ES.

Mobilização

Frei David apresentou ainda as ações e mobilizações da Educafro junto aos diversos setores, como supermercados, comércio, indústria e bancos. No setor financeiro, a entidade ocupou, em 2003, uma unidade do Itaú para exigir a inclusão de mais negros no quadro de funcionários.

“Policiais fortemente armados cercaram os manifestantes durante mais de 3 horas. Mas nossa pressão levou a direção do Itaú a abrir um canal de negociação. Nosso passo seguinte foi pedir ao Ministério Público ações contra a empresa”, lembrou.

Ele criticou a decisão judicial das ações em defesa da igualdade de oportunidades e de ações afirmativas. “Os juízes trabalhistas que rejeitaram todas as nossas ações devem sentir vergonha de suas decisões. Alegaram que a estatística não prova a discriminação”, criticou.

Febraban

A Educrafo entrou com uma representação contra a Febraban (Federação Brasileira dos Bancos) na Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.

“Nossa mobilização apresentou resultados no Itaú. Os funcionários negros no banco representavam em 2003 cerca de 5% do quadro funcional. Em 2005, o índice saltou para 24% e em 2006 chegou a 27%”, disse.

Nas promoções, os índices também apresentaram avanços: em 2003 8% dos funcionários promovidos eram negros, em 2004 o índice subiu para 8% chegando a 10% em 2005 e 14% em 2006.

“Os poderes econômicos e políticos só funcionam com pressão e a Febraban só vai avançar se houver mobilização dos bancários”, afirmou.

Frei David disse também que já há um plano de inclusão de negros, mas é preciso cobrar resultados. “Já notificamos a Febraban para que os bancos prestem contas dos números de negros contratados pelas empresas do setor. Queremos saber se os banqueiros estão cumprindo as metas de inclusão”, ressaltou.

Ele acrescentou ainda que o embate da questão racial não se dá apenas com as empresas, mas também em relação aos governos municipais, estaduais e federal.

Cotas nos serviços públicos

Para Frei David, as cotas no serviço público estão entre os mais importantes instrumentos de transformação na sociedade proposta pela comunidade negra. A proposta chegou a ficar 3 anos e 90 dias engavetada no Ministério do Planejamento do governo Dilma.

“A Dilma enviou a proposta para o Congresso Nacional, quando poderia ter feito através de decreto-lei. Corremos o risco do projeto ser adulterado por emendas parlamentares ou mesmo de não ser aprovado”, denunciou.

A proposta tem 45 dias para ser votada pela Câmara e vai em seguida para o Senado, tendo mais 45 dias para análise. A expectativa é de que a decisão sobre o projeto seja concluída no início de fevereiro de 2014.

“O êxito desta Lei vai depender da pressão e da articulação política dos trabalhadores junto aos parlamentares”, destacou.

Fonte: Contraf-CUT com Seeb Rio

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Trabalhadores negros ainda recebem salários menores, aponta Dieese

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) divulgou na terça-feira (13) o estudo “Os negros no trabalho”, em que traça o panorama do acesso ao trabalho em relação à cor dos grupos de trabalhadores. O boletim é referente ao período compreendido entre 2011 e 2012.

As informações, apuradas pelo Sistema de Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), foram colhidas no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Salvador e São Paulo.

> Clique aqui para acessar o estudo completo do Dieese.

Desemprego e desigualdade

A taxa de desemprego na população economicamente ativa composta por negros (pretos e pardos) diminuiu de 13,8% em 2010 para 11,9% em 2012. Mas, segundo o Dieese, o motivo é a geração de postos de trabalho para toda a população, uma vez que a proporção de negros economicamente ativos conservou-se em níveis praticamente constantes no período.

“O que aconteceu foi a diminuição do desemprego tanto para a população negra quanto para a população não negra. Se observar, a taxa de desigualdade continua entre os grupos, mas temos a impressão de que diminuiu”, afirma Adriana Marcolino, socióloga e técnica do Dieese.

A taxa de desemprego de não negros (brancos e amarelos) caiu de 10,2% em 2010 para 9,2% em 2012.

Regiões Metropolitanas

A população negra empregada nas regiões metropolitanas estudadas somava 48,2% do total. Porém, sua remuneração era de, no máximo, 63,9% do valor recebido pelos não negros.

Entre as regiões, a menos desigual é a de Fortaleza, onde negros recebem até 75,66% do salário de não negros. Na região metropolitana de Salvador está a maior disparidade: negros recebem, em média, 59,86% do que os não negros. No Brasil, negros recebem, em média, 63,89% do salário dos não negros e se concentram no setor de serviços (com 56,1% dos trabalhadores no País).

Quanto ao setor de trabalho, negros estão concentrados em atividades de grande esforço físico, em que exercem movimentos repetitivos e têm pouca margem para decisões e criatividade. Alguns exemplos de profissões citadas no estudo são: alfaiates, camiseiros, costureiros, pedreiros, serventes, pintores, caiadores, vendedores, frentistas, repositores de mercadorias, faxineiros, lixeiros e empregados domésticos.

Escolaridade

Ainda segundo o boletim, os negros têm menor escolaridade. No período de 2011 a 2012, 27,3% dos afro-brasileiros empregados não tinham concluído o ensino fundamental e 11,8% contavam com o diploma de ensino superior. Entre os não negros, esses percentuais eram de 17,8% e de 23,4%, respectivamente.

Em teoria, à medida que aumentam os níveis de escolaridade, a desigualdade no mercado de trabalho deveria ser reduzida. No entanto, mesmo nos casos em que os não negros poderiam estar em desvantagem, eles são favorecidos com a possibilidade de retorno aos estudos, o que seria mais difícil para os negros.

Para a secretária de Combate ao Racismo da CUT, Maria Júlia Nogueira, o estudo demonstra que as políticas afirmativas para a população negra têm papel importante na sociedade brasileira. Segundo a dirigente, são estudos como o do Dieese que ajudam a embasar a sociedade e direcionar as próximas ações de luta.

“Esse estudo contribui para o direcionamento das estratégias e ações da CUT sobre o tema. É um documento importante para o aprofundamento deste debate por todo o país e um subsídio fundamental para fortalecimento de nossa luta e diálogo com o poder público”, afirma.

Fonte: Henri Chevalier – CUT Nacional

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Discriminação no mercado de trabalho tem origens históricas no Brasil

Crédito: Seeb Rio
Seeb RioProfessor Ramatís Jacinto liga racismo à estruturação do capitalismo

O professor Ramatis Jacinto, mestre e doutorando em História Econômica pela USP e presidente do Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, disse nesta quinta-feira (14), no II Fórum Nacional pela Visibilidade Negra, realizado no Rio de Janeiro, que o “branqueamento do mercado de trabalho” no Brasil possui causas históricas. O evento foi promovido pela Contraf-CUT em parceria com o Sindicato dos Bancários do Rio e a Fetraf RJ-ES.

Em sua palestra, ele explicou que a escravidão fazia parte da lógica mercantilista do período das grandes navegações e do colonialismo. “A escravidão tem uma relação estreita com a formação do capitalismo”, destaca.

O historiador lembrou que “toda riqueza acumulada no país pela burguesia é resultado de dois crimes hediondos: o assalto das terras indígenas e o sequestro dos negros africanos como força de trabalho”.

“A maioria da burguesia de hoje tem sua riqueza originária desta forma de acúmulo de capital feita por seus pais e avós”, afirma.

Para o acadêmico, o fim da escravidão é fruto da luta dos negros e dos interesses do império britânico, que precisava criar mercados consumidores no mundo para vender seus produtos excedentes.

Estruturação capitalista

“Os ex-escravos começaram a ser excluídos do mercado e lançados ao mercado informal e na marginalidade. O governo brasileiro incentivou a imigração de europeus para absorvê-los como mão-de-obra. Os imigrantes também não possuíam qualificação, mas eram contratados pelo único fato de serem brancos. O discurso de que os negros não tinham qualificação ou não queriam trabalhar pois preferiam o ócio foi absorvido não só pelo mercado, mas também pelo meio acadêmico brasileiro”, disse.

Ele citou como exemplo o economista Celso Furtado, considerado uma referência nas faculdades de economia. “Há no Brasil uma ideologia racista no meio acadêmico que passa pelo sociólogo Gilberto Freire e chega ao economista Celso Furtado”, critica.

Ramatís deu como exemplo de racismo institucional a legislação, desde a Lei do Sexagenário. “Esta Lei só concedia a liberdade ao escravo quando ele já se encontrava inutilizado para o trabalho e o proprietário queria se livrar do custo de ter de mantê-lo sob sua responsabilidade”.

O especialista ressaltou também que as leis de imigração favoreciam os brancos que vinham para o Brasil. “Europeus católicos que chegavam ao nosso país recebiam terras, 160 réis em dinheiro, bois, cavalos, além de isenção de impostos por 8 anos e acesso às universidades, enquanto os negros eram excluídos. Isso explica a desigualdade em nossos dias”, afirma.

O palestrante mostrou dados que revelam a discriminação nos dias de hoje. Em São Paulo, para cada R$ 100 que um trabalhador branco recebe, os negros ganham R$ 59,8 e as mulheres negras, R$47,4.

“Entre as lacunas da questão racial, que temos de enfrentar, estão a violência policial, a necessidade de democratização da mídia, o acesso à saúde e à educação e a discriminação no mercado de trabalho”, destaca.

Fonte: Contraf-CUT com Seeb Rio

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A forma mais brutal de racismo está no mercado de trabalho, diz professor

Crédito: Nando Neves – Seeb Rio
Nando Neves - Seeb RioProfessor Sílvio Luiz de Almeida, durante II Fórum Nacional

O mercado de trabalho revela a forma mais brutal de racismo e discriminação no Brasil. A afirmação foi feita pelo advogado e professor universitário, Sílvio Luiz de Almeida, presidente do Instituto Luiz Gama e consultor técnico da Federação Quilombola do Estado de São Paulo, nesta quinta-feira (14), segundo e último dia do II Fórum Nacional pela Visibilidade Negra do Sistema Financeiro, durante a mesa Aspectos conceituais e políticos das ações afirmativas no Brasil: avanços e lacunas.

O evento, iniciado ontem, foi realizado no Hotel São Francisco, no centro do Rio de Janeiro, numa promoção da Contraf-CUT, Sindicato dos Bancários do Rio e Fetraf RJ-ES.

“O discurso da meritrocracia cria dificuldades para os cotistas e disfarça o preconceito contra negros, mulheres e homossexuais”, disse. Para o acadêmico, é preciso discutir a qualidade do ensino das universidades que os cotistas têm acesso.

“Nossos alunos estão, em sua grande maioria, em universidades privadas. É preciso garantir a política de cotas nas universidades estaduais”, destacou.

Sílvio lembrou que as exigências do mercado de trabalho são cada vez maiores. “O trabalhador desqualificado não é mais absorvido por um mercado cada vez mais exigente voltado para as novas tecnologias e alta qualificação. É preciso pensar o que os negros farão com os diplomas se o mercado de trabalho é discriminatório. O que mais vemos são operadores de telemarketing com diploma de direito ou engenharia”, acrescentou. Outro problema apontado por ele é a falta de uma base escolar de qualidade.

“Há analfabetos funcionais nas faculdades e a lógica das universidades privadas é passar o aluno”, criticou.

Prática ideológica

Conforme Sílvio, o racismo é uma prática ideológica e institucional. Ele frisou que já existe base legal para cobrarmos cotas em todas as áreas da sociedade, mas sempre que tratamos da questão racial cria-se um problema que sempre antecede o debate para impedir as ações afirmativas. “É preciso haver políticas para incluir os negros nos espaços de poder, como o judiciário, o legislativo e as universidades”.

Ele destacou ainda que a violência contra negros é um tema de extrema urgência. “De cada 10 jovens que são assassinados pela polícia no Brasil pelo menos 6 ou 7 são negros. O extermínio tornou-se algo natural”, ressaltou.

Para o professor, combater o racismo não é para afirmar uma raça, mas sim “para derrubar quem criou e sustenta o conceito hegemônico de raça”.

Fonte: Contraf-CUT com Seeb Rio

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