Se o Governo quiser sair do patamar de crescimento do PIB em torno de zero, que reduza drasticamente, enquanto durar a política anti-recessiva, o superávit primário, até que seja extinto esse conceito em nossas contas públicas. O caminho mais rápido para isso seria o de restaurar a capacidade de financiamento dos Estados e dos municípios pela extinção de sua dívida junto ao poder central. O artigo é de J. Carlos de Assis.
J. Carlos de Assis (*)
Um economista do IPEA que se comporta como porta-voz do mercado misturou má contabilidade pública com críticas subjetivas à política fiscal para apontar um mascaramento do orçamento governamental que comprometeria a credibilidade do Brasil no exterior. Como esse tipo de crítica ao Governo por epígonos neoliberais não passaria despercebida, houve excepcional cobertura midiática – Globo, Jornal Nacional, Estadão -, menos pelo valor intrínseco das críticas mas pela oportunidade que os opositores do Governo viram em manipular mais essa marionete incrustrada no ventre do próprio Estado.
O Ministro da Fazenda e o Secretário do Tesouro deram explicações detalhadas sobre as contas públicas de 2012 e os expedientes legítimos para fechar a conta do superávit primário. Não vou me deter nisso, portanto. Mas vou me deter numa coisa bem mais importante, e simples: em lugar de perseguir metas de superávit primário do orçamento consolidado, resquício de condicionalidade imposta pelo FMI nas operações de empréstimo ao Brasil desde os anos 80, o Governo deveria ater-se exclusivamente a monitorar o déficit nominal, o único que, do ponto de vista macroeconômico, tem relação com inflação.
Superávit primário – balanço entre despesas e receitas públicas, fora juros – foi uma invenção nas tratativas com o Fundo para que se garantisse o pagamento da contrapartida em dinheiro interno da dívida externa. É uma esquisitice semântica, pois onde se fala “fora juros” deveria dizer-se explicitamente “para pagamento dos juros” da dívida pública.
Quando o Governo Fernando Henrique quebrou (os ideólogos do mercado se esqueceram disso) realmente não havia alternativa para o empréstimo de 30 bilhões de dólares a não ser aceitando as condicionalidades do Fundo. Agora isso acabou. Somos credores.
Deveríamos, pois, voltar ao leito normal da boa macroeconomia que estabelece relações entre grandezas significativas para efeito de controle da inflação. Em primeiro lugar, orçamento consolidado (juntando União, Estados, Municípios, Previdência) é uma extravagância. Não somos um Estado unitário, somos uma federação. Cada ente federativo tem seu orçamento e, fora a União, que emite moeda através do Banco Central, Estados e Municípios têm que viver com suas receitas já que não podem mais obter recursos junto ao setor privado através de endividamento (lembram-se que os bancos públicos estaduais, que garantiam a dívida dos Estados, foram privatizados ou absorvidos pela União no Governo FHC?)
O orçamento relevante para o controle da inflação é o orçamento nominal da União (inflação se calcula com preços nominais) já que, na hipótese de endividar-se excessivamente ou forçar o Banco Central a ampliar a base monetária, o Governo pressionaria a demanda, em especial numa economia aquecida. Contudo, nosso caso é justamente o oposto. Estamos em recessão. Numa situação assim (mísero crescimento do PIB de 1% em 2012), o orçamento nominal pode e deve ter déficit para responder ao que tecnicamente se chama de política anticíclica.
Claro, o déficit nominal aumenta a dívida. Hoje, porém, temos a dívida pública líquida entre as mais baixas do mundo justamente por terem sido feitos, durante anos, elevados superávit primários. Não precisávamos ter feito tanto, sobretudo a partir do segundo Governo Lula quando a dívida com o FMI foi paga. Mas estávamos crescendo, precisávamos de menos déficit. Agora, se a dívida foi paga, é hora de nos livrarmos de suas condicionalidades. Contudo, o Governo optou por trocar a supervisão do Fundo por um ente abstrato impertinente, vocalizado por parte da grande mídia, e que tem assento dentro de suas próprias hostes – antes, Palocci, Meirelles e companhia; agora, um “técnico” do IPEA!
Que não haja dúvida: se o Governo quiser sair do patamar ridículo de crescimento do PIB em torno de zero, que reduza drasticamente, enquanto durar a política anti-recessiva, o superávit primário, até que seja extinto esse conceito em nossas contas públicas. O caminho mais rápido para isso seria o de restaurar a capacidade de financiamento dos Estados e dos municípios pela extinção de sua dívida junto ao poder central. Essa dívida, consolidada nos anos 90, já foi paga várias vezes. É como aconteceu com a dívida externa brasileira nos anos 80: ela só pode ser administrada quando recaiu sobre ela um rebate de até 40% no Governo Itamar mediante sua renegociação em termos “não convencionais”.
A forma mais inteligente de fazer isso seria condicionar a redução drástica ou a eliminação da dívida estadual a um programa de investimento em setores prioritários, sem discriminar o custeio onde isso fosse essencial (saúde e educação). Isso tudo teria forte oposição dos vigilantes do mercado, mas já é tempo de o Governo deixar de capitular a suas pressões e chantagens. Com 360 bilhões de dólares em caixa (reservas) e dívida pública líquida de 35% do PIB, a única coisa que falta ao Brasil para a rápida retomada do crescimento é capacidade de executar. De financiar, ele tem com sobra (R$ 200 bilhões de restos a pagar em 2012), podendo inclusive ampliar essa capacidade financeira com endividamento nominal sob total responsabilidade fiscal – assim como a responsável dona de casa que compra uma lavadeira a crédito!
(*) Economista, professor de Economia internacional da UEPB, autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus”, pela Civilização Brasileira.
Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21482
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Mais uma vez, sua excelência, o superávit primário
Os órgãos da grande imprensa não perdem a oportunidade de mostrar o seu inconformismo com qualquer escapada da receita conservadora, tão exigida pelo setor financeiro. Bastou o anúncio do ministro Mantega sobre o desempenho do superávit primário 2012 para que as trombetas começassem a soar.
Paulo Kliass
Bastou o anúncio do Ministro Mantega a respeito do desempenho do superávit primário para 2012, para que fosse disparado o já conhecido festival de ataques por parte do financismo e dos representantes da ortodoxia. Os órgãos da grande imprensa não perdem jamais a oportunidade de mostrar o seu inconformismo com qualquer escapada da receita conservadora, tão exigida pela grande banca. Na verdade, o responsável pela política econômica apenas veio a público e fez o reconhecimento oficial daquilo que todos os que acompanhamos a economia no dia-a-dia já estávamos cansados de saber.
Afinal, já vamos chegando a meados do mês de novembro e realmente as informações disponíveis apontam que o governo não vai conseguir cumprir a meta estabelecida lá atrás, ainda em 2011, de reservar 3,1% do PIB para o superávit primário. Em valores monetários, isso corresponderia a um esforço fiscal próximo a R$ 140 bilhões. Mas o que nos interessa refletir é a respeito das razões que teriam levado o governo a se comprometer com tal meta e quais as conseqüências para o País do não cumprimento de tal objetivo.
Plano Real e o tripé da política econômica
Os fundamentos da política econômica atual foram lançados em 1994, quando o Plano Real foi anunciado e a política de estabilização da inflação começou a apresentar resultados positivos. A partir daquele momento, veio a público e passou a ser incorporado no jargão do “economês” o famoso “tripé da política econômica”, uma trinca de fatores que foi alçada à condição de sacro-santidade imexível. Assim, passamos a conviver de forma institucional com as seguintes regras: i) definição de metas para a inflação; ii) liberdade cambial e política de câmbio flutuante; iii) definição de metas de superávit primário.
A definição de metas para a inflação foi acompanhada de um discurso e de uma prática de maior autonomia – na verdade, uma quase independência – para a atuação do Banco Central, em especial na definição da taxa oficial de juros, a SELIC. O governo teria uma meta de inflação anual a ser perseguida, com uma margem de erro para cima e para baixo. A maioria das pessoas pode até não saber, mas o BC já tem a meta definida para 2014 (!!): o centro é de 4,5%, com 2 pontos percentuais, para cima e para baixo. O acompanhamento dessa performance era realizado pelo Comitê de Política Monetária (COPOM), na verdade uma reunião periódica da diretoria do Banco Central com esse fim exclusivo: definir a taxa de juros. A base teórica para exercer o controle do crescimento dos preços era a necessidade de conter a demanda, para evitar a inflação. E o principal instrumento para tanto era elevar a taxa SELIC – arrocho monetário no “economês” – para retirar recursos do consumo e direcioná-los para a poupança.
A adoção do regime de liberdade cambial se encaixava bem no discurso neoliberal a favor das soluções de mercado para resolver as crises e oferecer sempre a alternativa considerada mais “eficiente” para a sociedade. Em contraposição à política de câmbio administrada pelo governo, a liberdade cambial retirava toda e qualquer possibilidade de que esse setor essencial da economia fosse utilizado como instrumento de política pública. A liberdade de ir e vir para o capital especulativo internacional se somou à implementação de uma monetária de taxas de juros estratosféricas por mais de uma década. Nossas terras permaneceram por um longo período como as mais atrativas do planeta em termos de rentabilidade financeira e a pressão permanente derivada do ingresso de recursos externos provocou a valorização artificial de nossa moeda, o real. As conseqüências perversas foram a farra dos importados e a perda de competitividade das exportações de manufaturados brasileiros no exterior.
Para fechar o tripé, entrou então em cena, bem fortalecido, o conceito inovador do superávit primário. Um verdadeiro golpe de mestre engendrado pelos representantes do financismo na esfera internacional.
Essa inovação foi concebida no seio dos organismos multilaterais e implementada pelos cinco continentes afora, com a pressão e o aval de FMI, Banco Mundial i tutti quanti. É sabido que um dos postulados básicos do pensamento liberal refere-se à redução do tamanho do Estado à sua dimensão mínima. Além disso, soma-se a preocupação quase obsessiva com o desempenho das contas públicas, exigindo mais do que um sistema em equilíbrio: propõe-se o superávit das receitas sobre as despesas. Em tese, nada tão anormal assim – afinal, uma boa gestão fiscal não faz mal a ninguém e se o Estado consegue esse saldo positivo, pode até utilizar esses recursos excedentes para mais investimentos e coisa e tal.
Superávit primário: o pulo do gato
Mas o pulo do gato reside justamente no adjetivo que esconde a essência da medida: “primário”. Essa forma especial de contabilizar o superávit das contas públicas faz uma divisão malandra nas despesas realizadas pelo Estado. Isso significa que as despesas financeiras, com juros e com pagamento de serviços da dívida pública, não devem ser contabilizadas como despesas ordinárias. Por mais esquisito que possa parecer, é exatamente isso que se passou a fazer na contabilidade pública a partir de então. Assim, o setor público é chamado a fazer um grande esforço fiscal de corte de despesas orçamentárias (saúde, educação, saneamento, pessoal, previdência social e outras), com o objetivo de gerar o tal superávit primário. E todo o saldo desse resultado é dirigido automaticamente para o pagamento das despesas financeiras! Ou seja, os cortes acontecem nas despesas não-financeiras para assegurar que as despesas que beneficiam apenas o setor menos produtivo da sociedade sejam efetuadas sem nenhum risco.
Esse modelo absurdo sobreviveu durante muito tempo, apesar das constantes críticas à sua injustiça social implícita e ao benefício exclusivo para o setor rentista e parasita das economias capitalistas. No caso brasileiro, apenas com o rescaldo da crise a partir de 2008 é que alguns pilares do pensamento hegemônico conservador foram sendo relativizados.
Um deles refere-se à flexibilização da rigidez dos cálculos do superávit primário. A partir de então, os investimentos das empresas estatais, por exemplo, deixaram de ser contabilizadas como “despesa simples” e retiradas da equação. E com toda a razão, pois gastos com investimento têm efeitos duradouros a longo prazo e não podem ser tratados como qualquer despesa corrente, a exemplo das compras de material de consumo.
Mas, na essência, a idéia de sacrificar os gastos não-financeiros para não comprometer as despesas com juros permaneceu intocada por esse tempo todo. Basta lembrar que todos os anos o Orçamento Geral da União reserva parte expressiva das receitas para essa finalidade. Em 2012, por exemplo, estão previstos 40% do total orçamentário para pagamento de juros, serviços e rolagem de dívida pública. Uma loucura!
A novidade mais recente que fez elevar a temperatura e os humores nos meios do financismo é o reconhecimento explícito de que nem mesmo a meta oficial vai poder ser cumprida esse ano. Enquanto a maioria do País respira aliviada com a notícia, os representantes do sistema financeiro abrem a sua bateria de ataque contra a “falta de controle da gestão fiscal”, a “gastança irresponsável” e outras pérolas que permeiam as páginas e as telas dos grandes meios de comunicação. Mas vale observar que tal situação não decorre de nenhuma mudança de postura do governo ou alguma intenção de priorizar as despesas reais em relação às financeiras. Não, nada disso! Trata-se apenas da constatação resignada de que esse ano não vai ser possível.
A redução do superávit primário é solução e não problema
O fato é que a conjuntura econômica está levando a que a meta de 3,1% do PIB não seja mais factível. Há um conjunto de fatores que contribui para tanto. Em primeiro lugar, a redução da taxa oficial de juros ao longo dos últimos meses tem provocado uma redução do volume de juros a ser gasto com a dívida pública. Em segundo lugar, a previsão de crescimento da economia feita lá atrás (4,5% ao ano) tampouco vai se concretizar – com isso as receitas tributárias também vão diminuir, o que é normal e compreensível. Em terceiro lugar, as políticas anticíclicas adotadas pelo governo têm incluído de forma sistemática a isenção de impostos e a concessão de outros benefícios fiscais e tributários. Finalmente, o Estado tem sido chamado a tomar a iniciativa em um conjunto amplo de novos investimentos, o que significa também um aumento de gastos públicos essenciais.
Ora, face a essa nova forma de organização de fatores, não haveria mesmo como a conta fechar com aquele superávit primário exagerado. Melhor dizendo, não haveria razão para que 3,1% do PIB fossem mais uma vez dirigidos para pagamento de serviços financeiros da dívida pública.
Com as receitas caindo e as despesas não financeiras aumentando, não há meio de manter o superávit tal como imaginado. Na verdade, essa chiadeira toda do financismo reflete o desconforto de um setor que sempre viveu às custas de uma drenagem assegurada dos recursos orçamentários para o caixa de suas empresas. Mais do que não cumprir a meta para 2012, o governo deveria tomar a iniciativa de ampliar o debate na sociedade e reintroduzir a isonomia no tratamento do gasto orçamentário.
Com isso, a despesa de natureza meramente financeira deixaria de ter esse atendimento especial, um verdadeiro tratamento VIP. Afinal, por que os cortes sempre são feitos nas áreas sociais e não nos gastos com juros?
Qual a razão para que itens como salário mínimo, pensões,
aposentadorias, saúde, educação e reforma agrária sejam sempre objeto de redução, ao passo que as verbas do mesmo orçamento destinadas ao rentismo parasitário sejam mantidas sem questionamento?
A busca de um modelo de desenvolvimento social e econômico, com a necessária preocupação de sustentabilidade, deve passar por esse debate. Redefinir o esforço que o conjunto da sociedade realiza para assegurar recursos a uma parcela reduzida de sua elite é uma urgência. Assim talvez o superávit primário deixaria de ser reverenciado como Vossa Excelência e passaria à condição de todos nós, simples e honrados cidadãos da República.
Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.
Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5852
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Polêmica a respeito do crescimento: investimento ou consumo?
As alternativas de correção de rumo para 2013 devem incorporar a ampliação da parcela de investimentos no PIB. Isso significa que o Estado deve retomar seu papel de vanguarda e de exemplo para que as decisões de ampliar a capacidade instalada sejam efetivas em nosso País.
Paulo Kliass
As páginas dos cadernos de economia dos grandes jornais e as publicações especializadas começam a centrar o debate a respeito das diferentes interpretações quanto aos números do crescimento do PIB brasileiro em 2012. Depois de apresentar taxas relativamente baixas no ano passado, as desculpas oficiais apresentadas referiam-se aos efeitos da crise econômica internacional e suas conseqüências sobre a economia dos países desenvolvidos. Em razão das dificuldades enfrentadas por Estados Unidos e Europa, a economia brasileira estaria sendo menos solicitada. Ao longo de 2011, nosso Produto cresceu apenas 2,7% em comparação com 2010. As esquivas da área econômica atribuíam tal fato às incertezas dos principais investidores mundo afora e suas decisões insuficientes de iniciar novos empreendimentos em nosso País.
Enquanto isso, a equipe econômica e a própria Presidenta se contentavam em apresentar dados a respeito do significativo crescimento do consumo.
Na busca desesperada por obter, e apresentar ao grande público, informações positivas quanto ao crescimento da nossa economia, o estímulo ao consumismo foi a tônica das decisões de política econômica. As metas de gerar crescimento, porém, previam a manutenção do modelo macroenômico essencial, com controle de inflação por meio de metas, a liberdade cambial e a geração de superávit primário. Mas com uma mudança significativa: a orientação para redução da taxa oficial de juros, a SELIC.
Resposta para uma economia que patina: estímulo ao consumo
À medida que os indicadores insistiam em apresentar baixa perspectiva de crescimento do PIB, as novidades anunciadas pelas autoridades foram sendo transformadas em uma espécie de “mesmice”: estímulo ao consumo, e mais consumo e ainda mais consumo. Para viabilizar tal alternativa, o governo tomou decisões pelo lado de estimular a capacidade de demanda e também pelo lado do aumento da oferta de bens e serviços de uma forma generalizada. As informações disponíveis revelam que a queda da taxa de juros do BACEN não foi acompanhada por uma redução da mesma magnitude na outra ponta. Bancos e instituições financeiras continuavam cobrando taxas elevadas dos tomadores de empréstimo, sejam empresas ou consumidores. Com isso, a demanda encontra algumas limitações para aumentar o consumo: a chamada “capacidade de endividamento” das famílias. Tal fenômeno se explica pelo excessivo impacto ainda causado pelas dívidas assumidas, apesar do efetivo crescimento dos rendimentos da população de baixa renda, tal como verificado ao longo da última década.
Pelo lado da oferta, o governo não cansou de apresentar medidas de redução de tributos de diversos tipos. Em primeiro lugar, estímulos para aumentar a produção de bens baseados na isenção de tributos federais, em especial o Imposto de Produtos Industrializados (IPI). Veículos profissionais e automóveis de uso particular, produtos da linha branca (geladeiras, fogões e máquinas de lavar), atividades vinculadas à construção civil, entre outros, foram o carro chefe da tentativa de evitar a queda da atividade econômica nacional.
Isenção tributária: apenas estímulo às empresas e ao consumismo
Além disso, o governo cedeu a pressões antigas e pesadas do empresariado, retirando a contribuição devida sobre salários – uma das bases de sustentação das receitas do Regime Geral da Previdência Social (RGPS). A chamada “desoneração da folha de pagamentos” teve início como uma experiência localizada em alguns poucos setores, mas rapidamente se alastrou para mais de 40 setores de atividade. Esse seria também um mecanismo para aliviar os custos das empresas e estimular o aumento das operações da economia. Além de colocar em risco o equilíbrio do modelo previdenciário no longo prazo, a medida não tem implicado em redução de preços na ponta para os consumidores, Na verdade, em termos agregados, vai apenas propiciar a elevação da taxa de retorno das empresas, aumentando sua lucratividade privada às custas do rateio social. O impacto de menor receita orçamentária será coberto com recursos do Tesouro Nacional.
Ocorre que esse tipo de opção baseada apenas no consumo encontra obstáculo na própria estrutura social e econômica de nosso País. Os famílias e os indivíduos não trocam de carro a cada 6 meses – ainda bem! Tampouco compram novos produtos de linha branca com tal assiduidade. Assim, o reflexo positivo do estímulo ao consumo por meio da redução tributária encontra rapidamente seu ponto de saturação.
Investimento: uma necessidade deixada ao esquecimento
E aqui entram em campo analistas com uma avaliação um tanto mais realista a respeito da incapacidade do modelo lastreado apenas no consumismo de curto prazo em dar sustentação de médio e de longo prazos ao crescimento e ao desenvolvimento econômicos. Ao analisar os diferentes elementos componentes do crescimento do PIB, percebe-se que a performance do investimento está muito aquém do necessário para a economia e a sociedade brasileiras.
Apoiar o modelo de crescimento do PIB apenas no estímulo ao consumo revela-se como opção equivocada no curto prazo e inviável no longo prazo.
Essa dinâmica perversa torna-se ainda mais problemática em um contexto em que o modelo se assenta prioritariamente sobre o setor primário exportador. O principal motor de nossa economia ainda são as exportações do agronegócio, da mineração e do petróleo. Isso significa que realizamos um grande esforço nacional para exportar produtos de baixo valor agregado (pouca incorporação de capital, de mão-de-obra qualificada, de conhecimento e de tecnologia). E, ao mesmo tempo, desperdiçamos um volume significativo de recursos orçamentários, financeiros e monetários na importação de produtos manufaturados, de alto valor agregado. Ou seja, fortalecemos economicamente países dos quais importamos produtos industrializados, como a China. O exemplo carregado de simbolismo mais evidente é representado pela empresa Vale, que exporta minério de ferro para a China e que importa trilhos manufaturados para construção de suas ferrovias. Um verdadeiro absurdo como política industrial para o Brasil.
Assim, de acordo com essa visão crítica do atual processo de crescimento do PIB, o que deveria ser realizado é um grande esforço nacional para aumentar a participação dos investimentos no total do Produto. Isso significa reduzir, no curto prazo, esse ímpeto gerado pelo consumismo desenfreado e passar a canalizar recursos e esforços nacionais para a elevação dos investimentos. Tal opção implica alocar maiores recursos para setores como educação, ciência, tecnologia e inovação. Foi essa a estratégia, aliás, adotada pelos países asiáticos que mais apresentam dados positivos de crescimento econômico atualmente.
O novo foco para o crescimento do PIB: recuperar o investimento
A dificuldade, do ponto de vista político imediato, é que a sensação de capacidade de consumo pode ser afetada. Isso porque tudo se passa como se a sociedade realizasse uma opção de adiar o consumo presente para um momento futuro, quando as condições de maturação dos investimentos estivessem dadas. E isso implica uma revisão do modelo baseado no consumismo irresponsável, do ponto de vista de um modelo sustentável.
A confirmação do crescimento pífio do PIB para 2012 apenas vem trazer mais elementos de confirmação de tal avaliação. Daqui a alguns meses os dados do IBGE só farão confirmar o que todos já sabemos: a economia brasileira vai ter crescido pouco mais de 1% ao longo de 2012. Ou seja, revelou-se que apenas o estímulo ao consumo por si só não bastou.
A contradição, por outro lado, é que as expectativas de retomada do investimento não se realizaram. Como o governo assentou toda a estratégia na ilusão de que o capital privado seria o capitaneador dessa nova etapa de acumulação, houve muito pouca preocupação com a importância do investimento público. A crença idealizada na suposta capacidade do setor privado resolver essa equação isoladamente apresenta agora sua fatura. E a realidade acabou demonstrando uma certa passividade do capital privado em ampliar seus horizontes de investimento. Nem mesmo nos generosos modelos de ampliação de concessão de infra-estrutura (privatização de rodovias, ferrovias, aeroporto, portos e outros) o capital aceitou entrar nos empreendimentos com o chamado “espírito animal” que lhe seria característico.
As alternativas de correção de rumo para 2013 devem incorporar a ampliação da parcela de investimentos no PIB. Isso significa que o Estado deve retomar seu papel de vanguarda e de exemplo para que as decisões de ampliar a capacidade instalada sejam efetivas em nosso País. E para tanto, espera-se do governo federal uma postura mais pró-ativa na iniciativa de novos investimentos e não apenas no oferecimento de benesses e bondades ao capital privado, sem nenhuma exigência de contrapartida. A ampliação do investimento oferece, além disso, a vantagem de permitir a internalização da capacidade produtiva e de geração de serviços, reduzido nossa dependência crônica com relação aos demais países do mundo. Esse é o caminho para ampliar nosso grau de soberania, tornando o Brasil menos dependente das inovações científicas e tecnológicas do resto do mundo. Esse é sentido maior de um projeto estratégico para nosso País.
Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.
Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5914