Por causa do mau atendimento, usuários já admitem trocar planos de saúde pelo SUS
Brasília – Toda vez que precisa de um atendimento de urgência, a funcionária pública Denize Santana tem que percorrer cerca de 20 quilômetros, distância que separa a casa dela, em Sobradinho, cidade do Distrito Federal, do Hospital ProntoNorte, no Plano Piloto de Brasília. Segundo ela, não há nenhum hospital mais próximo conveniado ao seu plano de saúde.
Denize já enfrentou dificuldades quando precisou se submeter a uma cirurgia. “Na época, o plano de saúde estava com um problema com o hospital, que dizia não ter vagas. Só que eu liguei [para o hospital] me identificando como beneficiária de outro plano e aí eles não apontaram qualquer problema”, disse à Agência Brasil que, ao visitar hospitais particulares de São Paulo e Brasília durante a semana, não encontrou dificuldade para encontrar pessoas insatisfeitas com os planos de saúde.
Usuária de um plano de saúde familiar, a estudante Mayara Richter, de Brasília, considera ter sido vítima de uma “injustiça” que atribui à empresa responsável pelo convênio médico. “Eu precisava marcar uma consulta de urgência com o ginecologista e a recepcionista disse que, se fosse pelo plano, o médico só teria horário livre depois de dois meses, mas, se eu pagasse, ela encontraria um horário na semana seguinte”.
Conforme indicam os dados dos órgãos de defesa do consumidor, como o Procon e o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), as queixas mais frequentes dizem respeito à demora no atendimento, a dificuldades para agendar consultas e, sobretudo, às recusas das operadoras na hora de aprovar exames complexos ou procedimentos caros, como internações.
“Os planos de saúde deixam a desejar e isso não é novidade”, disse a vendedora Daniela Gonçalves, alheia ao fato de que, apesar das frequentes queixas de usuários, desde 2005 os planos de saúde crescem a uma média de 5% ao ano. “Consulto dois especialistas com frequência e preciso de muitos exames, só que parte deles o plano não cobre. Além disso, às vezes, eu chego em um laboratório ou clínica e descubro que já não aceitam mais o meu convênio. A pessoa acaba deixando de se tratar porque perde a paciência”, concluiu a vendedora, que também mora de Sobradinho.
Embora considere que na rede privada alguns procedimentos, como exames, são feitos mais rapidamente do que no sistema público, o agente de viagens Flávio Vital considera que o atendimento nos hospitais particulares já não se diferencia muito dos hospitais públicos. “A diferença é que, nos particulares, os médicos são bons”, afirma, independentemente de saber que boa parte dos profissionais que atendem aos convênios em hospitais ou clínicas particulares também trabalha no Sistema Único de Saúde (SUS).
Já o taxista Gilberto Ferreira dos Santos, de São Paulo, optou por cancelar o plano de saúde após anos pagando pelo seguro. Segundo ele, além da insatisfação com o serviço, os preços cobrados também influenciaram na decisão. “Eu, que tenho mulher e três filhos, ou pago o plano ou pago as outras prioridades. E como, em geral, o serviço não é satisfatório, eu preferi tentar juntar o dinheiro para uma eventualidade em vez de todos os meses pagar por algo que eu vou usar de vez em quando”, explicou o taxista, admitindo, porém, a dificuldade de poupar dinheiro e o receio de não ter como pagar pelo tratamento médico em caso de uma doença grave.
Por Alex Rodrigues – Repórter da Agência Brasil. Edição: Vinicius Doria.
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Mensalidade dos planos de saúde subiu mais que a inflação na última década
São Paulo – Um estudo do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) revela que as mensalidades dos planos de saúde subiram 15,3% acima da inflação acumulada nos últimos 11 anos. De acordo com o levantamento, entre 2000 e 2010, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) autorizou reajustes anuais que somaram 136,6%. No mesmo período, a inflação oficial medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 105,3%.
No último dia 11, os planos de saúde foram autorizados pela ANS a reajustar as mensalidades em 6,73%, percentual acima da inflação acumulada entre maio de 2009 e abril de 2010, que ficou em 5,26%.
Segundo o Idec, apenas em duas ocasiões o reajuste ficou abaixo da inflação medida pelo IPCA. A ANS alega que a comparação entre os índices inflacionários e o percentual de reajuste dos planos não é apropriada, já que o setor tem custos com equipamentos, insumos, remédios e salários que não entram na base de cálculo dos principais indicadores. Além disso, os gastos das empresas variam de acordo com o perfil da carteira de clientes.
De acordo com a presidente da União Nacional das Instituições de Autogestão em Saúde (Unidas), Iolanda Ramos, a chamada “inflação médica” é mais alta e é “”complexo” equacionar os interesses dos clientes com as necessidades das operadoras. “Se os usuários reclamam que o aumento é muito, os gestores reclamam que é pouco”.
Já o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Cid Carvalhaes, alega que os custos e os rendimentos reais das empresas não são conhecidos por todos, principalmente pelos profissionais de saúde, que reclamam dos valores que os planos pagam pelos procedimentos. “É muito mais fácil encontrar as caixas-pretas do Airbus da Air France [que caiu no Oceano Atlântico em junho do ano passado] no fundo do mar do que os médicos terem acesso às planilhas de custos das operadoras de planos de saúde particular. A ANS deveria obrigar as operadoras a abrir as planilhas de custos, até mesmo para justificar os aumentos das mensalidades”, diz Carvalhaes.
Por Alex Rodrigues – Repórter da Agência Brasil. Edição: Vinicius Doria.
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