BC cortou mais meio ponto da Selic e fixou a taxa em 13,25% ao ano, nesta quarta-feira (29), na última reunião de 2006. Segundo especialistas, juro real continua sendo o dobro do razoável para “destravar” a economia.
BRASÍLIA – O Brasil terminará mais um ano na liderança mundial do juro real – limpo de perdas inflacionárias -, quando o assunto é aplicação financeira. Em 2006, a taxa média (ou lucro do aplicador) será de 12,2% ao ano, o dobro do que especialistas consideram razoável e tido por eles como maior obstáculo ao “destravamento” da economia pretendido pelo presidente Lula. Nos quatro anos do atual governo, a média de juro real será de 12%.
O juro real médio deste ano foi definido indiretamente, nesta quarta-feira (29), pelo Banco Central (BC), com o corte de meio ponto na taxa básica de juros. A Selic valerá 13,25% até 24 de janeiro, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC volta a se reunir.
Com a nova a Selic atravessando dezembro, a média dela este ano será de 15,3%. O valor revela juro real de 12,2% porque a inflação deve ficar em 3,1% neste ano. É o que indicam as previsões mais recentes do governo e do “mercado”.
Desde a criação do Copom, em 1996, o juro real ficou em um dígito só três vezes. A taxa de 2006 será a quinta menor – ou a sexta maior – do período (confira tabela).
Rentistas, dívida e crescimento
Os altos rendimentos financeiros seduzem quem tem dinheiro, inibindo investimentos na parte real da economia – indústria, comércio, serviços. O encanto ajuda a explicar o baixo crescimento brasileiro desde os anos 90 e a dificuldade atual do governo para “destravar” o País.
“O juro alto impede o investimento na produção. É mais lucrativo deixar o dinheiro no mercado financeiro”, disse o presidente da Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais (Abamec), Edmilson Loureiro de Lyra. “A decisão de investimento produtivo se pauta pela taxa básica de juros. Se é muito elevada, só torna viáveis projetos muito rentáveis”, afirmou a economista Leda Paulani, presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP).
Para o economista especializado em política fiscal Francisco Lopreato, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a constatação de que o juro atrapalha o País deveria pôr o tema no topo da lista de medidas que o governo prepara para incentivar o crescimento. “O primeiro passo é baixar os juros. Isso dá espaço para o governo adotar outras medidas.”
As receitas do trabalho e do capital
A Central Única dos Trabalhadores (CUT) acredita que mais um ano de juro real extorsivo reforça sua proposta de mexer no símbolo da atual política econômica. “É por isso que defendemos a ampliação do Conselho Monetário Nacional e a fixação de metas de geração de empregos e de crescimento. A obsessão pelo controle da inflação tem de ser a mesma obsessão pela geração de empregos e pelo crescimento”, afirmou o presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos.
O Conselho compõe-se dos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do BC. Ele define a meta de inflação que o banco persegue por meio da taxa de juros – e persegue nem que sacrifique o crescimento, atitude que a CUT condena.
Já a Confederação Nacional da Indústria (CNI) discorda de que o juro seja o grande entrave. Prefere culpar as despesas federais e os impostos cobrados para custeá-las. Ao ser reempossado na última terça-feira (28), o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto, enfatizou o que chama de “questão fiscal”. “Essa é a principal amarra que impede o País de crescer a taxas maiores”, disse.
A posição empresarial pode ser entendida de duas maneiras. A primeira é que muitas empresas do setor produtivo lucram com os juros altos, atuando no mercado financeiro. O grupo Votorantim, por exemplo, controla um banco homônimo que responde quase 20% dos ganhos do conglomerado.
A segunda é que pelo menos as grandes empresas conseguem fugir dos juros altos, quando querem dinheiro emprestado para fazer investimento produtivo. Tomam recursos no exterior, com juro menor, ou vendem ações e papéis em operações mais baratas também.
Já dos impostos, que financiam os gastos do governo, as empresas não têm como escapar. A menos que soneguem.
Antes convencido de que o problema número um eram os juros, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mudou o discurso, aproximando-se mais das teses empresariais. “Baixar o juro não é suficiente. Temos de reduzir a carga tributária das empresas, fazer um ajuste fiscal, resolver questões de meio ambiente, dar segurança e garantia para os investidores”, afirmou.
As correntes opositoras do “mercado” divergem. “Achar que o País vai destravar com reformas, melhor ambiente de negócios, é balela. O que destrava é investimento, que depende da taxa de juros e é puxado pelo investimento público. E o investimento público também está estagnado por causa dos juros”, disse Leda Paulani.
O futuro do juro e da diretoria do BC
Apesar de o juro real encerrar 2006 em 12%, a taxa pode ser mais civilizada no ano que vem. A perspectiva surge encarando-se o juro do jeito que mais influencia as decisões de investimento das empresas: projetando-o para o futuro. O cálculo funciona assim: pega-se a Selic e desconta-se a previsão de inflação para os 12 meses seguintes. Neste caso, o juro real está em 9%. Caso o BC repita em 2007 a atuação deste ano, baixaria a 7%.
A dúvida é justamente a repetição dos cortes. Nos últimos tempos, o BC, ao explicar as decisões do Copom, sempre insinua que poderia reduzir menos os juros. A reunião desta quarta-feira (29) foi sintomática. A decisão de baixar meio ponto foi apertada, por cinco votos contra três que preferiam ser conservadores e cortar só 0,25 ponto. Daí que muitos acreditam ser necessário trocar a diretoria do BC no próximo governo. “A atual já mostrou que é conservadora por convicção. Tem de ser substituída”, disse a economista especializada em política monetária Maryse Farhi, da Unicamp.
Nos bastidores, o presidente Lula já sinalizou que está disposto a mudar a diretoria do BC. O sinal conservador dado por três diretores pode ter selado o destino deles.
Por André Barrocal.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.
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