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Por 12:18 Notícias

O grande espetáculo da conspiração

por Izaías Almada
O cerco se fecha. Jogado o PT às feras, os fariseus exigem agora a cabeça do chefe da nação: “joguem pedra na Geni, ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir. Maldita Geni”. Ele é sujo, não tem diploma universitário nem doutorado, é
nordestino e de família pobre, não tem tiques de estadista. Finge que não é com ele. Esconde a sujeira debaixo do tapete. Traiu os 53 milhões de votos que recebeu.
O impeachment parece ganhar força. Procura-se desmoralizar cada vez mais o Partido dos Trabalhadores e a esquerda em geral. Em seguida, implanta-se, como sempre faz a direita, a política da terra arrasada, consolidando e aprofundando a economia neoliberal, mudando alguma coisa aqui e ali para não mudar nada e a classe dominante continua a nadar de braçada, como faz há 500 anos, os bancos a lucrarem 110% no trimestre e assim se transforma o Brasil na base de sustentação do avanço dos movimentos populares alternativos a esse sistema na América Latina
(Bolívia, Uruguai, Peru, México) e o país passará a ser o grande desestabilizador do governo Chávez na Venezuela, livrando um pouco a cara de Bush & Cia. Em seguida, é só apoiar a “democratização” em Cuba. Só não vê quem não quer ou tem a ganhar com o aprofundamento da crise política brasileira e a sua superação pela direita.
Para os que ainda têm dúvidas sobre a conspiração direitista, vou reproduzir dois trechos da coluna de Elio Gaspari de domingo (14/08) na FSP. Atenção: não sou eu – uma espécie de Eremildo, o idiota – que o digo, mas o próprio Gaspari, sério pesquisador da nossa história contemporânea. Está lá, comentada por ele, a definição de democracia de um dos porta-vozes dos golpistas, o Sr. Bresser Pereira: “Nas democracias, embora o poder seja formalmente do povo, na prática está com a sociedade civil, que dele se diferencia porque, no povo, cada cidadão
tem um voto, na sociedade civil o peso de cada cidadão depende do seu conhecimento, de seu dinheiro e de sua capacidade de comunicação e organização”. E traduz Gaspari: “Embora o andar de baixo vote, quem manda na prática é o de cima, porque a patuleía é ignorante, não tem dinheiro, nem conhece jornalistas. Caberá ao andar de cima decidir o impedimento de Lula.
Poucas vezes o golpismo nacional expressou-se com tamanha clareza social. Bresser dá à tal de sociedade civil a condição de árbitro do alcance do sufrágio universal”. Poderia ser mais claro e mais cínico o argumento do tucano?
Se nós, brasileiros, damos mesmo a impressão de não termos memória histórica e nem política (a não ser aquela ocasional, de consulta aos livros, quando necessária), tudo indica que não temos também uma noção muito apropriada para nos prevenirmos quanto ao futuro. Senão vejamos:
Envolvidos que estamos numa crise conjuntural promovida pela mídia comprometida com os interesses da classe dominante e pela direita parlamentar mais nefasta do país, toda essa gente defensora de seus próprios benefícios econômicos e, eles mesmos, praticantes de crimes contra o país que nunca vêm à tona, ou quando vêm são abafados e não punidos. Vamos vivendo o dia-a-dia do varejão das CPIs, do noticiário sensacionalista que mistura muitas vezes alhos com bugalhos, a ouvir os choros melodramáticos de marqueteiros políticos idiotas, a denúncia irresponsável dos novos paladinos da moralidade pública, agora transformados em heróis da burguesia brasileira.
E muitos de nós ficamos em dúvida ou até somos convencidos de que o PT é o grande vilão da nossa história política contemporânea e que a corrupção de nosso passado mais remoto ou recente não interessa muito, por exemplo. A propósito, seria bom que os leitores se informassem cada vez mais sobre a tentativa de golpe contra Chavez em 2002 na Venezuela e o papel desempenhado pela mídia na consecução daquele golpe que não deu certo.
Raciocinemos friamente sobre o quadro que se vai compondo para as prováveis eleições em outubro de 2006. Aqui, a complexa questão da crise é mais simples do que parece e a sua lógica é a seguinte: com toda a fúria lançada contra o PT, onde muita lama poderá respingar (e para não irmos muito atrás) até o governo de José Sarney, passando por Collor de Melo (ressuscitado aqui pelo também incorruptível deputado Roberto Jefferson, o novo herói da burguesia) e Fernando Henrique Cardoso, em quem – de fato – votaremos em 2006?
Reelegeremos um candidato fragilizado politicamente pelo poder econômico e que ainda não mostrou disposição de mudar o rumo da nau? Nos deixaremos enganar mais uma vez na eventual escolha de um candidato entreguista e privatizador saído das alcovas e dos lupanares do tucanato, comprometido com o que há de mais entreguista na sua prática neoliberal?
Ou o eleitorado irá apostar as suas fichas em algum candidato arrivista de direita, fecundado no mesmo ninho que já deu à luz homens como Antonio Carlos Magalhães, Collor de Melo, Jader Barbalho, Arthur Virgílio, Roberto Jefferson, Garotinho, Jorge Bornhausen, Enéas? Ou ainda com algum inexperiente e também arrivista candidato de esquerda, escudado tal candidato, quem sabe, em mágoas pessoais e oportunisticamente à espera de aumentar seus pequenos partidos recém fundados? Ou vamos anular conscientemente os votos?
O quadro político é sombrio não há dúvida, já que o mesmo (ou até pior) se pode dizer das eleições para governadores de Estado, senadores e deputados federais, nessa malha eleitoral corrupta e que sempre favorece o poder econômico, o capital. Como acreditar que uma maioria parlamentar, necessária para aprovar leis que ajudem de fato a transformar o país em uma nação menos dependente do FMI, do enforcamento pelo superávit fiscal primário”, da especulação indisciplinada do capital financeiro, como acreditar – repito – que o atual Congresso faça uma reforma política radical e expressiva? Que legisle a favor da nação e do povo brasileiro e contra o interesse dos grupos econômicos que o elegeu através do Caixa 2 de suas campanhas? Se esta maioria parlamentar está comprometida com esquemas e lobbies tão ou superlativamente mais nefastos que o tal suposto “mensalão, o que esperar deles?
O grave do momento não é o que ele revela de supostos escândalos, mas a perspectiva de buscar soluções casuísticas para os problemas políticos e sociais que se avolumam. O discurso de que (ainda) não querem o impeachment de Lula revela indecisão e alguma divergência no meio da direita, mas é apenas temporário, enquanto ela ganha tempo para resolver o próximo passo de sua estratégia. Ao mesmo tempo, a imprensa comprometida e as CPIs policialescas, mesmo considerando sua boa fé investigativa, se encarregam de criar o caos no país e – particularmente confusão na esquerda, na tentativa de desmoralizá-la e desmobilizá-la, lançando-a em lutas internas e enfraquecendo-a em sua organização para enfrentar os verdadeiros inimigos.
Sem aprender com as lições do passado e sem levar à prática uma demonstração inequívoca de que existe uma saída democrática e popular para a crise que vive o Brasil, a esquerda brasileira dá demonstrações de que ela também (ou boa parte dela) tem as costas voltadas para a América Latina. Mas organizando-se e mobilizando-se com determinação enquanto é tempo, buscando nas cidades e nos campos do país despertar e sacudir a força que tem e que não é pouca, as forças populares, de esquerda e não só, saberão encontrar a melhor resposta para o momento. E saberão também definir táticas e estratégias de avanço e superação da crise, juntando forças e mostrando-se solidária com a luta de povos irmãos e vizinhos. E até prova em contrário, tudo indica que, nessa estratégia, não se deve incluir o apoio ao impeachment do presidente Lula.
Izaías Almada é escritor e dramaturgo.
Fonte: Revista Caros Amigos

Por 12:18 Sem categoria

O grande espetáculo da conspiração

por Izaías Almada

O cerco se fecha. Jogado o PT às feras, os fariseus exigem agora a cabeça do chefe da nação: “joguem pedra na Geni, ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir. Maldita Geni”. Ele é sujo, não tem diploma universitário nem doutorado, é
nordestino e de família pobre, não tem tiques de estadista. Finge que não é com ele. Esconde a sujeira debaixo do tapete. Traiu os 53 milhões de votos que recebeu.

O impeachment parece ganhar força. Procura-se desmoralizar cada vez mais o Partido dos Trabalhadores e a esquerda em geral. Em seguida, implanta-se, como sempre faz a direita, a política da terra arrasada, consolidando e aprofundando a economia neoliberal, mudando alguma coisa aqui e ali para não mudar nada e a classe dominante continua a nadar de braçada, como faz há 500 anos, os bancos a lucrarem 110% no trimestre e assim se transforma o Brasil na base de sustentação do avanço dos movimentos populares alternativos a esse sistema na América Latina
(Bolívia, Uruguai, Peru, México) e o país passará a ser o grande desestabilizador do governo Chávez na Venezuela, livrando um pouco a cara de Bush & Cia. Em seguida, é só apoiar a “democratização” em Cuba. Só não vê quem não quer ou tem a ganhar com o aprofundamento da crise política brasileira e a sua superação pela direita.

Para os que ainda têm dúvidas sobre a conspiração direitista, vou reproduzir dois trechos da coluna de Elio Gaspari de domingo (14/08) na FSP. Atenção: não sou eu – uma espécie de Eremildo, o idiota – que o digo, mas o próprio Gaspari, sério pesquisador da nossa história contemporânea. Está lá, comentada por ele, a definição de democracia de um dos porta-vozes dos golpistas, o Sr. Bresser Pereira: “Nas democracias, embora o poder seja formalmente do povo, na prática está com a sociedade civil, que dele se diferencia porque, no povo, cada cidadão
tem um voto, na sociedade civil o peso de cada cidadão depende do seu conhecimento, de seu dinheiro e de sua capacidade de comunicação e organização”. E traduz Gaspari: “Embora o andar de baixo vote, quem manda na prática é o de cima, porque a patuleía é ignorante, não tem dinheiro, nem conhece jornalistas. Caberá ao andar de cima decidir o impedimento de Lula.

Poucas vezes o golpismo nacional expressou-se com tamanha clareza social. Bresser dá à tal de sociedade civil a condição de árbitro do alcance do sufrágio universal”. Poderia ser mais claro e mais cínico o argumento do tucano?

Se nós, brasileiros, damos mesmo a impressão de não termos memória histórica e nem política (a não ser aquela ocasional, de consulta aos livros, quando necessária), tudo indica que não temos também uma noção muito apropriada para nos prevenirmos quanto ao futuro. Senão vejamos:

Envolvidos que estamos numa crise conjuntural promovida pela mídia comprometida com os interesses da classe dominante e pela direita parlamentar mais nefasta do país, toda essa gente defensora de seus próprios benefícios econômicos e, eles mesmos, praticantes de crimes contra o país que nunca vêm à tona, ou quando vêm são abafados e não punidos. Vamos vivendo o dia-a-dia do varejão das CPIs, do noticiário sensacionalista que mistura muitas vezes alhos com bugalhos, a ouvir os choros melodramáticos de marqueteiros políticos idiotas, a denúncia irresponsável dos novos paladinos da moralidade pública, agora transformados em heróis da burguesia brasileira.

E muitos de nós ficamos em dúvida ou até somos convencidos de que o PT é o grande vilão da nossa história política contemporânea e que a corrupção de nosso passado mais remoto ou recente não interessa muito, por exemplo. A propósito, seria bom que os leitores se informassem cada vez mais sobre a tentativa de golpe contra Chavez em 2002 na Venezuela e o papel desempenhado pela mídia na consecução daquele golpe que não deu certo.

Raciocinemos friamente sobre o quadro que se vai compondo para as prováveis eleições em outubro de 2006. Aqui, a complexa questão da crise é mais simples do que parece e a sua lógica é a seguinte: com toda a fúria lançada contra o PT, onde muita lama poderá respingar (e para não irmos muito atrás) até o governo de José Sarney, passando por Collor de Melo (ressuscitado aqui pelo também incorruptível deputado Roberto Jefferson, o novo herói da burguesia) e Fernando Henrique Cardoso, em quem – de fato – votaremos em 2006?

Reelegeremos um candidato fragilizado politicamente pelo poder econômico e que ainda não mostrou disposição de mudar o rumo da nau? Nos deixaremos enganar mais uma vez na eventual escolha de um candidato entreguista e privatizador saído das alcovas e dos lupanares do tucanato, comprometido com o que há de mais entreguista na sua prática neoliberal?

Ou o eleitorado irá apostar as suas fichas em algum candidato arrivista de direita, fecundado no mesmo ninho que já deu à luz homens como Antonio Carlos Magalhães, Collor de Melo, Jader Barbalho, Arthur Virgílio, Roberto Jefferson, Garotinho, Jorge Bornhausen, Enéas? Ou ainda com algum inexperiente e também arrivista candidato de esquerda, escudado tal candidato, quem sabe, em mágoas pessoais e oportunisticamente à espera de aumentar seus pequenos partidos recém fundados? Ou vamos anular conscientemente os votos?

O quadro político é sombrio não há dúvida, já que o mesmo (ou até pior) se pode dizer das eleições para governadores de Estado, senadores e deputados federais, nessa malha eleitoral corrupta e que sempre favorece o poder econômico, o capital. Como acreditar que uma maioria parlamentar, necessária para aprovar leis que ajudem de fato a transformar o país em uma nação menos dependente do FMI, do enforcamento pelo superávit fiscal primário”, da especulação indisciplinada do capital financeiro, como acreditar – repito – que o atual Congresso faça uma reforma política radical e expressiva? Que legisle a favor da nação e do povo brasileiro e contra o interesse dos grupos econômicos que o elegeu através do Caixa 2 de suas campanhas? Se esta maioria parlamentar está comprometida com esquemas e lobbies tão ou superlativamente mais nefastos que o tal suposto “mensalão, o que esperar deles?

O grave do momento não é o que ele revela de supostos escândalos, mas a perspectiva de buscar soluções casuísticas para os problemas políticos e sociais que se avolumam. O discurso de que (ainda) não querem o impeachment de Lula revela indecisão e alguma divergência no meio da direita, mas é apenas temporário, enquanto ela ganha tempo para resolver o próximo passo de sua estratégia. Ao mesmo tempo, a imprensa comprometida e as CPIs policialescas, mesmo considerando sua boa fé investigativa, se encarregam de criar o caos no país e – particularmente confusão na esquerda, na tentativa de desmoralizá-la e desmobilizá-la, lançando-a em lutas internas e enfraquecendo-a em sua organização para enfrentar os verdadeiros inimigos.

Sem aprender com as lições do passado e sem levar à prática uma demonstração inequívoca de que existe uma saída democrática e popular para a crise que vive o Brasil, a esquerda brasileira dá demonstrações de que ela também (ou boa parte dela) tem as costas voltadas para a América Latina. Mas organizando-se e mobilizando-se com determinação enquanto é tempo, buscando nas cidades e nos campos do país despertar e sacudir a força que tem e que não é pouca, as forças populares, de esquerda e não só, saberão encontrar a melhor resposta para o momento. E saberão também definir táticas e estratégias de avanço e superação da crise, juntando forças e mostrando-se solidária com a luta de povos irmãos e vizinhos. E até prova em contrário, tudo indica que, nessa estratégia, não se deve incluir o apoio ao impeachment do presidente Lula.

Izaías Almada é escritor e dramaturgo.
Fonte: Revista Caros Amigos

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