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O rolé do espaço público

Os shoppings das grandes cidades transformaram-se em espaços de soberanias contestadas. Em princípio são espaços públicos para negócios privados.

Por Wanderley Guilherme dos Santos

Arquivo

Prisões e hospitais são espaços segregados nos quais se entra compulsoriamente e a saída depende de documentação liberatória. Quartéis exigem senha ou símbolos em código na entrada e filtro na saída. É enorme o número de espaços preclusos em qualquer cidade, incorporados ao que se parece, mas não é, a natureza. Já em tempos pré-cristãos os muros da cidade referiam-se a obstáculos físicos propriamente ditos. Durante a idade média, idem, e no interior das cidades muradas emparedavam-se castelos. No mundo moderno os limites territoriais das nações substituíram por postos de aduana, sentinelas e pedras ou monumentos simbólicos as sólidas e extensas construções antigas. Isto é, até recentemente, quando teve início o renascimento dos muros.

Os mais conhecidos são a gigantesca cerca construída pelos Estados Unidos na fronteira com o México e a recente parede erguida por Israel separando-o dos árabes e palestinos. A África do Sul mantém inclusive cercas eletrificadas na fronteira com o Zimbawe. A Arábia Saudita ergueu altíssima estrutura de concreto no limite com o Yemen e projeta outra no encosto com o Iraque. Por razões variadas a Índia vem estabelecendo arranjos materiais para impedir o trânsito entre seu território e os vizinhos Paquistão, Bangladesh e Birmânia. Esses arranjos incluem o enterro de minas explosivas e a instalação de aparatos eletrificados ao longo de sua fronteira. O Uzbesquistão isolou-se do Kyrgystão, em 1999, e do Afganistão, em 2001, sendo por sua vez isolado pelo Turkemenistão.

A política de preclusão de espaços é utilizada também pela Botswana, Tailândia, Malásia, Irã e Brunei, entre outros países. A lista é impressionante e crescente, sublinhando importante aspecto da vulnerabilidade da secular instituição da soberania nacional, conforme magnífica pesquisa de Wendy Brown, de Berkeley (Walled States, Waning Sovereignty, 2010). Mas o fenômeno é, também, intra-nacional.

Os escandalosos conflitos nos presídios maranhenses são parentes próximos das controvérsias provocadas pelo rolézinho atribuído à juventude das periferias urbanas. Parentes, mas não siameses. A prisão se funda em inconteste soberania de seus administradores e a quase total suspensão dela em seus internos. Assim como nos hospitais em relação a médicos e funcionários de um lado e pacientes de outro. O conflito do rolézinho se dá em torno a soberanias contestadas, e isso faz toda a diferença.

Portões de ferro impedindo a entrada em edifícios é uma demarcação de soberania, defesa contraposta a presumidos assaltos. Cacos de vidro encaixados em muros de mansões equivalem às minas indianas soterradas. O extraordinário aparato de segurança ostentado por condomínios residenciais de alta renda lembra a militarização de fronteiras, só ultrapassadas mediante adequadas senhas ou símbolos. A separação entre o público e o privado impedindo a invasão do privado pelo público é matéria legal e consuetudinária. Há lugares no mundo em que os carros não são trancados nem são fechadas as entradas das residências. Quando lecionei na Universidade de Wisconsin, em Madison, as portas dos fundos das casas eram apenas encostadas e no condado de Palo Alto, Califórnia, os carros ficavam abertos ao relento.

Também ocorre a segregação física do público para prevenir a intromissão do privado. Praças dispõem de grades, assim como monumentos. Os habitantes sem teto das cidades são denunciados por se banharem em chafarizes urbanos. O consenso sobre a invasão de soberanias aqui é extenso. O potencial de conflito se esconde na sutil distinção entre o fim da soberania privada e o início da soberania pública. São espaços de soberania contestada cujo esclarecimento demanda negociações e senso de medida, de acordo com o espaço disputado. Se parece razoável o fechamento noturno de alguns parques públicos, evitando sua transformação em dormitório de grupos carentes (o humanismo do politicamente correto ainda não abriga esta variante), a cobrança de ingressos para a fruição de praias litorâneas estimularia distúrbios gigantescos. No entanto, alguns hotéis de alto luxo, à beira-mar, vêm fazendo precisamente isso sem grandes alvoroços das populações. Consuetudinariamente a soberania privada substituiu a pública.

Os shoppings das grandes cidades brasileiras transformaram-se em espaços de soberanias contestadas. Em princípio são espaços públicos para a transação de negócios privados. Tais como as feiras semanais. Os passantes ou simples observadores das barracas não são obrigados a apresentar documentação para andar por ali, observar os negócios e, se desejarem, negociar. Os comerciantes não têm como saber se os passantes combinaram encontros ali para um almoço, se são clientes em potencial ou se são criminosos oportunistas. Seus negócios são, certamente, privados, mas estabelecidos em espaço público. Delimitar a fronteira entre as duas soberanias não é tarefa simples. Figuradamente, a prática democrática lembra uma porta giratória, sem maiores dificuldades para entrar ou sair. O diabo é descobrir de que são feitos os gonzos.

Artigo colhido no sítio http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-role-do-espaco-publico/4/30037

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Exclusiva: Dona Zelite abre o verbo contra os rolezinhos

Entrevistamos Dona Zelite, a socialaite mais afamada de Higienópolis. O assunto não poderia ser outro: os rolezinhos que estão tirando a Zelite do sério.

Por Estanislau Castelo

Maringoni

Entrevistei, com exclusividade, Dona Zelite, a socialaite mais afamada de Higienópolis. O assunto não poderia ser outro: os rolezinhos que estão tirando a Zelite do sério.

Estanislau: Dona Zelite, tudo bem?

Zelite: Essa já é a primeira pergunta, ou você está só me cumprimentando?

Estanislau: Já é a primeira pergunta.

Zelite: Então quero logo dizer que só estou dando essa entrevista, quer dizer, dando não porque rico não dá nada, vende, oferece ou aluga; mas, enfim, só estou oferecendo essa entrevista por uma causa pedagógica. Temos que superar este momento antes que seja tarde. Antes que as pessoas de bem, aquelas que são as cabeças pensantes e reinantes do PIB, prefiram mudar de país. Voltando à sua pergunta, não, meu caro, não está nada bem. As pessoas de bem estão com medo. Eu estou com medo.

O país vai de mal a pior, pois se uma pessoa não tem garantido o seu direito constitucional de ir ao Shopping tranquilamente com uma Louis Vuitton sem sentir medo, sem ser incomodada, sem correr o risco de esbarrar em um rolezento vestindo um boné escrito “Funk You”… não, definitivamente, nada vai bem. Me dá aí seu caderninho pra ver se você escreveu Louis Vuitton direitinho, se não pega mal pra mim… tá ok.

Estanislau: a senhora viveu a experiência de participar de um rolezinho?

Zelite: sim, infelizmente, eu vi, com esses olhos que o cirurgião plástico remodelou. Vi aquela horda de bárbaros invadindo o meu sossego e atropelando o aroma do meu Chanel. Eu me senti vítima de um tsunami de testosterona e progesterona que me assustou muito. Eram jovens tão mal vestidos que fariam Glória Kalil ter um enfarte. Por sorte eu desconhecia a maior parte dos palavrões que eles falavam. Uma em cada três vezes que eles abrem a boca é para dizer um palavrão. Um horror.

Estanislau: Qual foi sua reação?

Zelite: Eu me refugiei em uma loja, que fechou as portas, e aguardei pacientemente sentada em um provador, com as cortinas bem fechadas.

 
Estanislau: a senhora pensou em tomar alguma atitude por conta própria?

Zelite: Pensei e tomei. Imediatamente liguei para um ministro amigo meu, do Supremo, para pedir providências realmente supremas, pois o assunto é grave. É caso de segurança nacional. Descobri que esse meu amigo está em férias – eles vivem em férias. Tive que me contentar em travar um debate com o gerente do shopping. Cobrei providências urgentes e lembrei que sou sócia-proprietária do shopping. Mandei que ele impedisse aquela bagunça imediatamente. Que ponham portas com senhas individualizadas; detectores de aromas, para impedir gente com desodorante; portas giratórias com câmeras que identifiquem se a pessoa tem um padrão mais caucasiano, o que seja. A tecnologia está aí é pra nos ajudar a separar o joio do trigo.

EC: Então a senhora foi quem deu a ideia de barrar pessoas na entrada dos shoppings?

Zelite: Eu ofereci minha contribuição. Se for pra ajudar o Brasil, pode contar comigo, sempre. Meu amigo do Supremo retornou minha ligação ontem e disse que falaria com o pessoal dos tribunais de justiça. Parece que eles entenderam a gravidade da situação.

EC: Em sua opinião, essa questão não tem um fundo sociológico que…

Zelite: Ah, não me venha com sociologias. Esse pessoal que faz rolezinho nem sabe o que é isso. Eu, que sou vizinha de FHC, sei bem que tipo de sociologia esse pessoal merece. É o seguinte: mais uma vez, estamos vendo que a raiz do problema é a educação. Essa turba faltou à aula de Inglês que ensina que “shopping” é uma palavra que quer dizer “comprar”, “ir às compras”. Ou seja, os seguranças têm que perguntar aos rolezentos: vai comprar alguma coisa? Onde? Quanto custa o que você vai comprar? Deixa eu ver o dinheiro ou o seu cartão de crédito. Se não tiver, não entra. Simples. Não tem nada a ver com limpeza étnica. É o que eu chamo de limpeza ética, faz parte do espírito do capitalismo. País desenvolvido é país limpinho e cheiroso, qual o problema?

EC: a senhora acha que o fenômeno reflete a situação do país, ou é uma nova tendência?

Zelite: O que eu acho mesmo é que é muito triste ver as manchetes de jornal tomadas por esse assunto, quando, em pleno verão, poderíamos estar discutindo temas mais elevados, como a importância da combinação do uso de terno e gravata com bermudas chiquérrimas em escritórios, a atualidade das mechas californianas e questões de utilidade pública, como dicas de produtos básicos para se colocar na “nécessaire”. Deixa eu ver no seu caderninho como você escreveu “nécessaire”… não se esqueça do acento no primeiro “e”. Obrigada.

Créditos da foto: Maringoni
Notícia colhida no sítio http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Exclusiva-Dona-Zelite-abre-o-verbo-contra-os-rolezinhos/4/30035
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Rolezinhos: os pobres estão afrontando sua invisibilidade

Em 2006, a socióloga Valquíria Padilha lançou um livro premonitório sobre os rolezinhos, Shopping Center: a catedral das mercadorias (Boitempo, 2006).

Por Saul Leblon

Arquivo
São Paulo – A socióloga Valquíria Padilha não se surpreendeu com o fenômeno dos rolezinhos. Professora de Sociologia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade , na USP de Ribeirão Preto, ela lançou em 2006 um livro premonitório, “Shopping Center: a catedral das mercadorias” (Boitempo, 2006). Nele sublinha o papel segregacionista desses bunkers do consumo que, em sua opinião jamais serão democratizados. Autora também de outras obras que remetem diretamente à busca de identidade implícita na adesão da juventude pobre aos rolezinhos (são dela: “Tempo livre e capitalismo: um par imperfeito” (Alinea);  “Dialética do lazer” (organizadora; Cortez) , Valquíria desabafa: a identificação de cidadania com consumo ‘é o fracasso da humanidade’. A seguir, trechos de sua entrevista a Carta Maior

Carta Maior: Shopping center -consumismo -desigualdade e exclusão urbana  interligam-se há muito tempo nas grandes cidades brasileiras. Por que só agora a coisa explodiu na forma de rolezinhos?

 

Valquíria: Eu venho afirmando que os shopping centers são espaços privados travestidos de públicos desde que publiquei o meu livro “Shopping Center: a catedral das mercadorias” (Boitempo), em 2006. São espaços de compras que segregam, impedindo a entrada de quem não tem poder aquisitivo ou de quem não se adequa ao ambiente dos shoppings – seja pelo modo de se vestir ou pelo modo de agir. Recebi muitas críticas por afirmar isso. Agora estamos vendo as provas: pobres não devem compartilhar os shoppings centers com os ricos.

CM:  O marketing da segurança dos shoppings traz a segregação no DNA?

Valquíria: Eles funcionam como os clubes privados, as escolas privadas, os hospitais privados: são bunkers onde as classes mais altas devem se sentir protegidas do mundo real que fica do lado de fora. Isso só é possível com a exclusão de todos aqueles que supostamente significam alguma ameaça, ou seja, que tragam a realidade do lado de fora – a desigualdade social – para essa ilha da fantasia. Shoppings são templos do consumo para poucos. Sempre foi assim no Brasil, desde os anos 1960-70 quando tivemos nossos primeiros shoppings.

CM- O problema não está só no Shopping…

Valquíria– Tudo isso ganha um contorno próprio quando analisamos a organização urbana de nossas cidades brasileiras – indubitavelmente pautada na segregação social e econômica: há os espaços de quem tem dinheiro e há os espaços de quem não tem. Quem não tem normalmente trabalha para os que têm. No caso dos shoppings, os vizinhos ou parentes dos jovens que fazem os chamados “rolezinhos” são os que têm os empregos mais precários: faxineiros e seguranças terceirizados. Como mão de obra barata, servem, sempre servem!  O shopping é mais um dos espaços das cidades brasileiras reservados para o deleite das classes média e alta –servidas pelas ‘classes baixas’….

CM- Retomando, por que o protesto só acontece agora justamente quando se dá a emergência da chamada ‘classe média popular’?

Valquíria– O fato de supostamente uma parcela dos pobres brasileiros estarem aumentando seu poder de compra não significa que eles tenham adquirido o direito de compartilhar os mesmos espaços dos ricos.  Eles não possuem o que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chamaria de “capital cultural”. Dito de outra forma, não basta ter mais dinheiro para ganhar o sentimento de pertença nos espaços dos ricos.

CM-  Seria uma evolução natural, a exemplo dos protestos de junho de 2013, de quem não quer ser apenas  um mercado de artigos populares e reivindica cidadania plena?

Valqíria – Pensar em acesso aos shopping centers como acesso à cidadania é um grande engano. Sobretudo se entendermos que ser cidadão, nos termos burgueses de nossa organização social, é ter direitos e não apenas deveres. Se pagamos impostos ao Estado, deveríamos ter acesso à uma vida digna, com trabalho, estudo, saúde, cultura, lazer de qualidade. Isso sim é ter cidadania. Mas, a sociedade de consumo – principalmente dos anos 1980 até hoje – nos ensinou a reduzir o conceito de cidadania à esfera do consumo. O cidadão hoje é o consumidor feliz. Isso é uma falácia enorme, um erro que direciona inclusive as ações do governo petista no Brasil. Os pobres passam a ter um pouco mais de renda, mas eles continuam não-cidadãos nos termos a que me refiro aqui.

 

CM- Há uma confrontação simbólica  desses limites em marcha ?

Valquíria – Os shoppings são símbolos de uma sociedade de consumo e de abundância de bens materiais. São símbolos da lógica do “compro, logo existo”.  Forçar o acesso a esses espaços – que a periferia sabe que não lhe pertence – é um ato simbólico para dizer: “quando a gente vem aqui a gente incomoda os burguesinhos que historicamente nos desprezam”. Uma longa história de invisibilidade vivida pelos pobres no Brasil está vindo à tona com essas “invasões” dos shoppings centers.  Os pobres nunca são verdadeiramente vistos ou ouvidos pelas autoridades públicas e pelos patrões. Esses movimentos chamados de “rolezinhos” são, na minha interpretação, uma tentativa de furar a barreira da invisibilidade a que esses jovens pobres estão sujeitos na nossa sociedade de classes.

CM – Generalizar a ‘receita shopping’ para as grandes metrópoles brasileiras é  tão viável quanto estender aos postinhos de saúde o padrão do hospital Albert Einstein, em SP (um shopping da saúde). Estamos diante de uma contradição insolúvel: a propaganda  adestra  o imaginário social a exigir o melhor e agora barra  quem  aderiu ao sonho?

Valquíria – O que sempre me entristeceu é ver essa crença generalizada de que pertencer ao shopping center é alcançar a boa vida. Essa é uma vitória da sociedade de consumo e um fracasso da humanidade. Os adultos, jovens e crianças de hoje foram totalmente cooptados pela crença alienada de que só é possível ser feliz assim. Discutir isso hoje é visto como ridículo, já que essa ideologia consumista transformou-se numa verdade absoluta. Propor discussões críticas da sociedade de consumo, da publicidade, do capitalismo ainda é ridicularizado pela mídia e pelos intelectuais de direita. Somos nós, os pensadores marxistas e de esquerda que devemos mostrar como esse desejo de um mundo mais justo e menos desigual deve ser elaborado para gerar ações definitivas no que diz respeito à igualdade social. Não é nada fácil. As classes dominantes são fortes, poderosas e violentas – sobretudo no Brasil.  Os pobres terão que entender que consumindo as roupas de marca e os equipamentos eletrônicos dos ricos, eles não vão conquistar a liberdade ou a emancipação.

CM—Mas é essa aspiração que os move…

Valquiria – O desejo e a posse de mercadorias nos alienam a todos. No entanto, é óbvio que, num primeiro momento, esse impulso pode parecer revolucionário. Quando eu critico a segregação social dos shoppings centers não desejo como solução que esses espaços sejam democratizados, mesmo porque eu não acredito nisso. Desejo que esses espaços sejam eliminados.

CM- Como ?

Valquíria–  Que sejam substituídos por parques, espaços de cultura, bibliotecas, cinemas, teatros, circos, escolas, tudo aberto a todos igualmente. Uma sociedade emancipada e verdadeiramente rica precisa disso, e não de shopping centers… Esse fenômeno dos “rolezinhos” não aconteceria na Finlândia ou na Dinamarca.

CM—  Essa reciclagem dos shoppings em espaços culturais seria  a utopia de um rolezinho ideal?

Valquíria –  Qualquer solução que propomos na contramão da ordem vigente tem status de utopia,  tamanha é a complexidade social. A publicidade é a espinha dorsal desse sistema. Ela é a maior descoberta e o maior trunfo da sociedade de consumo capitalista, pois consegue manipular os desejos, criar necessidades, reduzir sentimentos. E mais: ela atinge a todos da mesma forma: ricos e pobres, quem vive na cidade e quem vive no campo, crianças e adultos etc.

CM—Os rolezinhos tem fôlego para avançar nessa contestação?

Valquíria – Onde esses movimentos dos “rolezinhos” vão dar eu não sei dizer. Não sou otimista no sentido de imaginar que isso vai fazer com que nossa sociedade deixe de segregar e seja mais justa em curto ou médio prazo. Mas, acho que é um começo e a discussão que surge traz o tema da desigualdade social para a mesa.

Assim como os movimentos de junho de 2013, pode se somar a outras manifestações de insatisfação, provocando, pouco a pouco, novas formas de reflexão sobre o capitalismo e sobre nosso sistema político. Gosto de ver os pobres organizados para incomodar os ricos, forçando-os a enxergar uma realidade que eles insistem em negar ou que ridicularizam.

CM- Que resposta o urbanismo pode dar a essa revolta ainda bem comportada?

Valquíria – Na ordem do capital, não acredito em nenhuma resposta definitiva. Humanizar o capitalismo, ao menos, seria possível, mas não concordo que apenas oferecer mais políticas públicas de lazer e cultura nas periferias seja a solução, pois continua aí a segregação dos espaços urbanos, a cidade continua dividida entre espaços para pobres e espaços para ricos. Isso não é solução, é paliativo.

CM – A Justiça de SP concedeu a 6 shoppings da capital o direito de selecionar  o acesso. É um novo degrau do antagonismo público -privado  no país?

Valquíria – Os juízes que deram essas sentenças deveriam perder o direito de julgar se nosso país fosse sério e cumprisse a Constituição. É um absurdo autorizar o inautorizável. Um juiz não poderia permitir que um espaço aberto ao público pudesse segregar. Discriminação é ilegal.  Racismo é crime inafiançável no Brasil. Esses juízes deveriam ser presos. Os donos desses shoppings também.

CM – É só no Brasil  ou o padrão segregacionista se repete em shoppings de outros países também?

Valquíria – Em outros países não é assim.  Eu morei na França e no Canadá e lá os shoppings são abertos a todos, porque eles respeitam a Declaração Universal dos Direitos dos Homens. Nos países em que há desigualdade social extrema, a segregação e a discriminação são mais evidentes. Os “rolezinhos” só estão causando tanto alvoroço porque somos um país de desiguais. Enquanto cada grupo fica na sua, com seus “irmãos” de classe e respeitam as fronteiras invisíveis e visíveis, não há conflitos. Os conflitos surgem quando uma das partes resolve confrontar as barreiras. Se não houvesse esse abismo entre pobres e ricos, não estaríamos discutindo isso, não é?  Sugiro que se assista ao documentário ‘Hiato’, que conta como os movimentos de sem-teto e sem-terra organizaram uma visita a um shopping no Rio. É pedagógico.

Confira o vídeo:

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