Cada vez mais execrado, com seu nome transformado em símbolo do caos que desgovernou boa parte do Continente nas últimas décadas, o neoliberalismo vai se transformando numa religião sem seguidores, como bem o demonstra o recente resultado das eleições no Paraguai, que se soma à decisão soberana reafirmada nas ruas e nas urnas de vários países deste Sul da nossa América.
O que resta é o altar do sacrifício e as marcas de sangue e dor deixadas pelas privatizações, desregulamentações e flexibilizações que, desossando o filé do patrimônio nacional para engordar meia dúzia de cartéis e monopólios, em sua quase totalidade estrangeiros, multiplicaram a fome, a miséria e a violência.
Felizmente, na atualidade, afora alguns poucos apóstolos desastrados do Deus mercado, como o governador José Serra, que ainda a pouco tentou sem sucesso entregar a Companhia Energética de São Paulo (CESP), encontram-se em extinção figuras dispostas a bater numa tecla de sons cada vez mais ridículos e constrangedores. Mesmo o governo norte-americano, que tantas loas teceu à capacidade de auto-regulamentação do mercado, diante da crise que bate à sua porta apelou para os cofres públicos, com centenas de bilhões de dólares, na tentativa desesperada de evitar a quebra da economia. A discurseira era pura propaganda, evidentemente, sempre foi da boca pra fora. O argumento servia para enganar incautos, enquanto as empresas dos países centrais abocanhavam parcelas expressivas das riquezas do, chamado por eles, Terceiro Mundo, sem qualquer reação dos Estados nacionais que deveriam agir para preservá-las. No caso do Brasil de FHC, a situação foi ainda pior, com o maior banco público de fomento do mundo, o BNDES, sendo desvirtuado para investir na desnacionalização da economia e financiar o criminoso processo de privatização. Um assalto de grandes proporções e trágicas conseqüências, que só agora, à medida que o país vai tomando consciência, começa a ser revertido com a retomada do papel indutor do Estado, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Mas diante de tais fatos e tamanhas desgraças para a vida de milhões de pessoas e, particularmente, para o povo brasileiro, onde estavam Alexandre Garcia, Diogo Mainardi e Arnaldo Jabor, para citar apenas três dos articulistas da chamada “grande” mídia? Servindo de ventríloquos para os donos dos veículos onde trabalham, cultuando a liberdade de empresa em contraposição à liberdade de imprensa, venerando a manipulação como um fim prático, razão suprema dos meios a quem servem.
Na semana passada, Alexandre Garcia voltou à carga contra os professores e a Apeoesp. Sobre o desmanche do ensino público no Estado mais rico da Federação, o mesmo silêncio sepulcral, a mesma canalhice em forma de notícia. Nada sobre o fechamento de escolas, o corte de disciplinas, a superlotação de classes, os salários aviltados, o desaparecimento das bibliotecas, a dilapidação dos laboratórios, a violência e a insegurança… Nada que pudesse macular o tucanato. Nada de fatos. Já quando o assunto é boato e o sujeito na linha do tiro é a organização sindical dos professores, quando o alvo é a Apeoesp, as mentes outrora cativas das trevas ganham ares de soberba e luminosidade, e passam a produzir em escala industrial tudo o que é tipo de desinformação, calúnia e fantasia. Uma destas diz que professores foram até a Secretaria Estadual de Educação para atear fogo nas apostilas distribuídas pelo governo. Sem entrar no mérito da qualidade melancólica de tais materiais “pedagógicos”, que mais atrapalham do que auxiliam professores e alunos devido à precariedade de seus conteúdos – como a do rio Xingu estar localizado em São Paulo – setores da grande mídia tentaram comprometer a direção da Apeoesp com tal ato, na ânsia de vinculá-lo à prática de queima de livros, tão ao gosto dos fascistas.
Evidentemente que o dito protesto de meia dúzia de professores, com a improvisada fogueira, não contou com a aval da sua entidade, por ser, acima de tudo, uma reação histérica, de pessoas impotentes. Mas por que falar da reação e calar sobre a ação que a originou? Por que falar da forma atabalhoada de protesto, sem entrar no mérito do seu conteúdo? Porque se prendem pela aparência para esconder a essência, porque tem o rabo preso. E não é com o leitor.
Caluniam, ofendem e agridem pessoas, dirigentes sindicais, Sindicatos e movimentos sociais sem dar direito de defesa. A chamada “lei de imprensa” os protege para que continuem nesta prática: poupam os ricos, os que levaram a escola pública a esta situação, e atacam aqueles que se opõem às suas idéias e concepções de mundo.
Definitivamente, está difícil ler, ouvir e assistir a maioria dos meios de comunicação deste país. É melhor ouvir música.
Por João Antonio Felício, que é secretário de Relações Internacionais da Central Única dos Trabalhadores.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cut.org.br.