Luciana Lima – Repórter da Agência Brasil

Brasília – Se não quiser ser citado pelo humor ácido e escrachado do Bloco Pacotão, não seja político, ou não se envolva em escândalos. Do contrário, será mais um personagem do bloco sujo, dos mais antigos de Brasília, que desde 1978 reúne foliões que brincam embalados pela crítica política, a ironia e a irreverência nas ruas da capital.
Na crítica da Sociedade Armorial Patafísica Rusticana Dër Pakoton, pomposo nome oficial da agremiação, não interessa partido político. O importante é criticar quem está no poder e quem luta por ele. Sobram deboches ao governo, à oposição, à imprensa, aos integrantes do Poder Judiciário e a parlamentares. “A imprensa é a oposição. O resto é armazém de secos e molhados”, diz uma das faixas.
A fama de “faxineira” da presidenta Dilma Rousseff e a sucessiva queda de ministros suspeitos de envolvimento com atos corruptos foram temas preferidos de quatro canções do bloco. “Lá vem a vassourinha da Dilma. Varrendo o lixo pra debaixo do tapete. Tem rato pra todo lado. A Esplanada está virando um banquete”, diz uma das canções.
As desastradas declarações feitas pelo ex-ministro do Trabalho, Carlos Lupi, quando ocorreu o escândalo na pasta, viraram um prato cheio para o bloco. “Ninguém vai impedir a minha fala. Só saio se for à bala”, diz uma das músicas. Outra se refere à “declaração de amor” de Lupi para Dilma. “Ai Dilminha, eu juro que te amo, gatinha”.
O Programa Minha Casa, Minha Vida também foi tema como um apelo de alguém que quer casa para poder se casar. “Dilma, eu quero me casar. Eu não tenho casa pra morar. Já não posso viver só de promessa. Minha Casa, Minha Vida é o que interessa”, diz um dos sambas do bloco.
O espírito crítico do bloco, formado principalmente por jornalistas, vem do período da ditadura militar. Em 1977, o então presidente da República Ernesto Geisel, lançou um conjunto de leis para alterar as regras das eleições. As mudanças ficaram conhecidas como “Pacote de Abril”. O nome do bloco parte da ironia às mudanças lançadas por Geisel. No ano seguinte ao pacote, o bloco surgiu desfilando sempre pela contramão da Avenida W3, na época uma das principais áreas de comércio de Brasília.
Na crítica a administração do Distrito Federal, o governador Agnelo Queiroz é acusado, principalmente, de demorar a mostrar serviço. Isso lhe rendeu o apelido de “Agnulo”. Já a faixa no alto do caminhão de som lembra sua gestão na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e as denúncias de desvio de recursos do Programa Segundo Tempo, coordenado pelo Ministério dos Esportes, que já foi gerido pelo atual governador. “Agnulo anvisa: no segundo tempo o negócio vai pegar”.
Nesse ano, também não faltaram no desfile do bloco opiniões sobre o embate de magistrados com Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão acusado de quebrar sigilo bancário de juízes por causa da divulgação de movimentações financeiras atípicas de servidores, incluindo juízes. Para a presidenta do CNJ, Eliana Calmon, o bloco ostentou um apoio bem escrachado: “Eliana Calmon, seu santo é *”, expressava uma das faixas dispostas no alto do caminhão de som.
A aprovação da proposta de iniciativa popular que criou a Lei da Ficha Limpa também foi um dos temas tratados pelo bloco. Muitos foliões com cartazes comemoraram a ratificação da lei feita pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada.
Um dos cartazes fazia um anúncio da “Lavanderia Brasil” estabelecimento que usa o sabão em pó STF que, para os foliões “limpa ficha suja”.
Até a reforma ortográfica, que passou a valer em janeiro de 2009, não escapou do humor do Pacotão. “Reforma ortográfica: nunca trema em cima da linguiça”, destaca o bloco em uma das faixas.
Edição: Rivadavia Severo
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO http://agenciabrasil.ebc.com.br
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Ser o “País do Carnaval” parece pouco explicar o Brasil
Até onde seríamos o “País do Futebol”, os resultados das últimas copas dizem que já não é bem assim. Mas o carnaval continua incólume. No Brasil impregnou-se a idéia de que o carnaval explicaria quase tudo. Seria o nosso diferencial. Daí a reduzir tudo ao carnaval, parece uma boa maneira de não explicar nada.
Enio Squeff
A carnavalização da realidade brasileira já foi usada e repetida em ensaios, teses e principalmente em argumentos falaciosos: as fantasias teriam subido à cabeça de muitos acadêmicos, não só brasileiros. Como a festa é forte e a permissividade invade as telas de TV, com a exposição de moças nuas, pintalgadas de cores em pontos estratégicos ( de modo a fingir que a nudez, no Brasil, não é castigada), o mais seria uma decorrência. Vinícius de Moraes demonizou o sábado – o dia em que, segundo a Bíblia, Deus fez o homem. Se tivesse amaldiçoado o carnaval, o poeta certamente estaria – de cambulhada – explicitando algumas de nossas mazelas, mas só algumas. Até onde seríamos o “País do Futebol”, os resultados das últimas copas dizem que já não é bem assim. Mas o carnaval continua incólume. Seria a nossa marca genética.
Talvez seja essa a razão do esforço de alguns, de a tudo explicarem pelo carnaval. É a única celebração que falta a cada princípio de ano: depois do carnaval, o Brasil começaria, de fato, com os políticos a decidir não se sabe bem o que, os empresários a fechas as contas; e os acadêmicos – mais uma vez – a elucubrarem o quanto de carnaval existe no Brasil, mas também o quanto o carnaval transparece na música de Villa-Lobos, ou o quanto o próprio excele no desempenho do “astro do futebol”, que abusou na sua condição de folião. Conclusão: se cada um se conscientizasse em seu “carnavalismo”, tudo seria mais fácil.
Houve um tempo em que os franceses estimavam ser explicados pela culinária. O próprio general De Gaulle, estadista que marcou época na França, dizia ser extremamente difícil governar um país em que havia um queijo para cada dia do ano. A saber, existiriam algo em torno de 365 marcas de queijo na França. De Gaulle perguntava derrisoriamente: como governar um país tão preocupado com queijos?
Os ingleses sempre se levaram mais a sério – mas um regente inglês, com o complicado nome polonês de Leopold Stokowsky, costumava fustigar seus músicos britânicos, a dizer-lhes, em tom de mofa – que eles, quem sabe, poderiam tocar mais um pouco, um pouquinho só – logo, porém, estariam perante a chávenas fumegantes, já que – e isso ficava implícito – o chá era o que mais lhes importava.
O carnaval é, certamente, uma das ocupações mais importantes para muitos brasileiros. As decisões adiadas para “depois” do carnaval, parecem ter o dom de serem mais acertadas do que as assumidas “antes”. Júlio César, na descrição que faz da Britânia – hoje Inglaterra – remete-se aos druidas e seus costumes: a Inglaterra primitiva seria uma região inóspita, administrada por chefes espirituais bastante estranhos. Era o olhar de um romano que os fazia diferentes. No Brasil impregnou-se a idéia de que o carnaval explicaria quase tudo. Seria o nosso diferencial. Daí a reduzir tudo ao carnaval, parece uma boa maneira de não explicar nada.
Talvez a mitificação, de fato, se reverta. De tanto tornarmos tudo mais ou menos carnavalesco, o carnaval se imporia como uma forma de ver o mundo.
Será?
Não há nada de carnavalesco em Machado de Assis ou em Euclides da Cunha para citar dois antípodas literários brasileiros. O primeiro parece ser referir ao carnaval como um evento normal do calendário cristão – nada que definisse um mundo. Quanto a Euclides, ele mal suportava um dos elementos fundamentais do carnaval, como a música, a qual ele dizia ser refratário. No mais, era um moralista que não tolerava piadas “picantes”.
Não se imagina como reagiria a mulheres seminuas – definidas que tais como um mero eufemismo. Sabe-se que não é bem pelo colorido – nem com plumas ou paetês – que alguém fica ou pode ser considerado vestido ou não. É uma formalidade, mas daí, talvez, o importante do carnaval.
Nele são poucas as fantasias como disfarces. As moças que aparecem na telinha da TV (e, portanto, como expressão, para o mundo), não é preciso insistir que se vestem apenas com lantejoulas e algumas manchas coloridas pelo corpo. Talvez seja o mais próximo ou parecido que herdamos dos índios.
Pero Vaz de Caminha, na sua crônica sobre a terra aportada pela frota de Cabral, surpreende-se que as nativas não cobrissem suas “vergonhas”. Darcy Ribeiro, porém, sempre chamou a atenção para o fato de as índias, ao se cingirem na cintura com um cordão, nunca se consideram despidas. Chamava a atenção que as xinguanas, pelo menos, só se desfazem do cordão para o ato sexual. Trocado em miúdos: ao pintar as “vergonhas”, as moças que se apresentam no carnaval, mas principalmente na TV, imitariam as índias no simbólico, mas com o corpo colorido – tão somente colorido.
Em vez de um cordão, a título de cinto de castidade, as moças se cobrem de cores e de lantejoulas. E aí sobra o insólito: supondo-se que mal se velassem com panos transparentes – já que o erotismo deve ser explícito – muito provavelmente seriam destratadas: ninguém aceitaria a sua nudez descolorida, sem os eufemismos dos coloridos dos adereços. Pode-se tentar uma explicação: a carnavalização impõe códigos – mas explicaria o resto?
Difícil dizer. Sabe-se que relegar as coisas para o espírito carnavalesco do brasileiro, é quase sempre a melhor maneira de não tentar a gênese de muitas de nossas mazelas ou as não menos poucas virtudes. Vinícius de Moraes, de novo, pespegou um aspecto. Os carnavalescos se misturam, há a dança coletiva, as pessoas se espalham e se extravasam num processo alucinante de quase orgia coletiva – um simulacro dela, quem sabe. Como se aprende desde cedo – há toda uma permissividade democrática. Mas o poeta alerta bem ao dizer que todos se fantasiam “de rei ou de pirata ou de jardineira, pra tudo se acabar na quarta-feira”.
Parece, realmente, muito pouco para explicar o Brasil.
Por Enio Squeff, que é artista plástico e jornalista.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cartamaior.com.br