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Por 10:53 Bancos, Destaque

Paraná perdeu quase 700 agências bancárias nos últimos 10 anos

A última década transformou o sistema financeiro mundial com a digitalização em massa dos meios de pagamento e das operações bancárias. No mesmo período, os bancos brasileiros registraram lucros recordes e consolidaram o setor financeiro nacional como um dos mais rentáveis do mundo.

O custo dessa transformação, porém, foi transferido em grande parte para os clientes e os trabalhadores do sistema bancário. Enquanto as instituições financeiras reduziram despesas ao substituir o atendimento presencial por canais digitais, o país perdeu mais de 8 mil agências em dez anos. O fechamento em massa da rede física ampliou as dificuldades de acesso aos serviços, especialmente para idosos, moradores de pequenas cidades e pessoas com menor acesso à internet, aprofundando a exclusão financeira de parte da população e culminando na demissão de milhares de bancários.

No Paraná, cerca de 667 agências bancárias foram fechadas entre 2015 e 2025. É o que revela um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). A pesquisa foi realizada por Rosângela Vieira, Economista do Dieese que atua na Subseção do Sindicato dos Bancários de São Paulo. 

O estudo aponta que entre 2015 e 2025 cerca de 237 cidades paranaenses perderam agências bancárias. Ao final de 2025, 176 municípios do estado não tinham nenhuma agência física. Juntas, essas cidades somam mais de 450 mil habitantes. 

Curitiba, que concentra a maior quantidade de clientes do estado, foi também a cidade que mais perdeu agências. Foram fechadas na capital 192 agências entre 2015 e 2025. Londrina, segunda maior cidade do Paraná, é a segunda do ranking com 37 fechadas, seguida por Maringá com 27, Cascavel com 15, Foz do Iguaçu com 10, Ponta Grossa com oito e Toledo e São José dos Pinhais com seis. 

A pesquisa do Dieese revela também que quase um terço dos fechamentos das agências no Paraná ocorreu entre 2015 e 2019 (185), enquanto o restante ocorreu entre 2019 e 2025. 

No país, mais de 8 mil agências foram fechadas nos últimos 10 anos. Os bancos privados foram os responsáveis pela maior parte dos fechamentos. Foram 6.710 agências de bancos privados que fecharam as portas, o que corresponde a 79%. Já os bancos públicos fecharam cerca de 1.823 agências (21%). 

Arte: Fábio Souza

Arte: Fábio Souza

Cidades pequenas perderam mais agências

No final de 2025, segundo o levantamento do Dieese, 2.649 cidades brasileiras não tinham nenhuma agência bancária. É quase metade dos municípios brasileiros e juntos somam mais de 19.670.525 habitantes. 

O fechamento de agências tem se concentrado, sobretudo, nas cidades de menor porte. Segundo a economista Rosângela Vieira, esse movimento reflete uma estratégia de segmentação do mercado bancário, que prioriza clientes de maior renda e reduz a oferta de serviços em localidades consideradas menos rentáveis. “Existe uma tendência dos bancos de priorizar clientes de alta renda. É uma forma de aumentar a rentabilidade, e isso se intensificou principalmente durante a pandemia. Nesse período, a expansão de novos agentes financeiros, como as fintechs e as cooperativas de crédito, também levou os bancos a enxugarem custos para ampliar os lucros”, afirma. 

Entre 2015 e 2025, conforme o levantamento do Dieese, 57 cidades do Paraná com menos de 100 mil habitantes perderam suas últimas agências bancárias. São pequenos municípios onde os moradores agora precisam viajar para outras cidades em busca de atendimento nas poucas agências que ainda existem na região onde vivem. 

Um deles é Califórnia, cidade com 8,7 mil habitantes distante cerca de 350 km de Curitiba. Lá, no ano passado, a população viu a última agência, que era do Itaú, fechar as portas. Agora, os moradores precisam se deslocar até Apucarana, cidade-polo da região centro norte, para resolver pendências bancárias e sacar benefícios como aposentadoria, por exemplo. 

O trajeto entre as duas cidades, que é de 19 km, precisa ser feito na maioria das vezes de carro, já que existe apenas uma linha de ônibus e as saídas para a cidade vizinha acontecem em média a cada três horas e meia. 

Outra opção é a cidade de Marilândia do Sul, que fica a cerca de 15 km de distância de Califórnia e tem uma agência do Banco do Brasil. Ir de transporte coletivo, no entanto, é mais complicado ainda, já que o ônibus que percorre as duas cidades passa apenas três vezes por dia. 

Arte: Fábio Souza

Arte: Fábio Souza

O fechamento das agências físicas impacta inclusive a economia das pequenas cidades. Sem atendimento local, moradores — entre eles muitos aposentados — precisam viajar a municípios vizinhos para resolver pendências bancárias e receber benefícios. Como frequentemente passam o dia fora por causa da dificuldade de deslocamento, acabam almoçando, fazendo compras e consumindo no comércio dessas cidades. Com isso, recursos que poderiam movimentar a economia local acabam fortalecendo os municípios vizinhos. 

É isso que explica o vereador Maycon Landgraff (PT) da cidade de Califórnia. Lá, o comércio já sente profundamente os impactos do fechamento das três agências que operavam no município. “Se hoje, mais ou menos mil pessoas da nossa cidade vão receber seus pagamentos em um banco de Apucarana, essas pessoas deixam de gastar parte de sua renda aqui no nosso comércio e gastam lá em Apucarana, porque a pessoa já está lá, o ônibus vai demorar muito pra chegar, então essas pessoas vão comprar no centro de Apucarana”, revela.

Vereador Maycon Landgraff: “O fechamento das agências está quebrando o comércio das pequenas cidades”. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Vereador Maycon Landgraff: “O fechamento das agências está quebrando o comércio das pequenas cidades”. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Em Califórnia, restam apenas uma casa lotérica e um correspondente bancário — empresa autorizada a prestar serviços em nome de instituições financeiras. Como esse tipo de estabelecimento depende de recursos próprios para manter o caixa, nem sempre há dinheiro suficiente para atender a demanda, inclusive para o pagamento de aposentadorias. A situação é agravada pela dificuldade de muitos idosos em utilizar aplicativos bancários, pela cobertura precária de internet na região e pelo hábito de usar dinheiro em espécie. Diante desse cenário, muitos moradores precisam viajar para cidades vizinhas para sacar aposentadorias e outros benefícios. 

Damião Rodrigues é presidente do Sindicato dos Bancários de Apucarana e Região (Seeb -Apucarana). A base de atuação do sindicato abrange 26 cidades em todo o Vale do Ivaí, no centro norte paranaense, e representa 470 trabalhadores do sistema bancário. Ele revela que na região onde atua, cerca de 17 cidades perderam suas últimas agências bancárias. 

Esse fechar de portas, explica Damião, gera uma série de efeitos em cadeia sobre os bancários, principalmente aqueles que atuavam nas pequenas cidades. “Muitos trabalhadores do sistema bancário foram demitidos com o fechamento de agências. Os que não perderam o emprego foram transferidos para agências de outras cidades e agora precisam viajar todos os dias para outras cidades para poder trabalhar. São bancários que percorrem mais de 100 km todo dia para ir e voltar do trabalho”, explica. 

Na região onde Damião atua, muitas agências foram fechadas nos últimos dez anos. Apenas em Apucarana foram quatro. Coube a ele, então gerente regional do Itaú, comunicar o fechamento aos bancários. “Infelizmente o Itaú foi o banco que mais fechou. Eu mesmo fui incumbido de comunicar o fechamento de mais ou menos oito agências”, conta. 

Segundo Damião, em 18 anos, a quantidade de bancários na região de Apucarana caiu quase pela metade. “Em 2008 tínhamos mais de 800 bancários na nossa base, hoje temos 470”.

Damião Rodrigues revela que a quantidade de bancários na sua região diminuiu quase 50%. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

Damião Rodrigues revela que a quantidade de bancários na sua região diminuiu quase 50%. Foto: Joka Madruga/Vigília Comunica

O fechamento das agências físicas é uma estratégia dos bancos para potencializar os lucros. E esse movimento é responsável por uma série de mazelas que afligem trabalhadores do sistema bancário, clientes, aposentados e pequenas cidades do interior do Paraná. E é essa realidade que uma série de reportagens da Vigília Comunica retrata a partir de hoje.

*Esta série de reportagens teve o apoio da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Crédito do Paraná (Fetec-CUT/PR) e de seus sindicatos associados.

Por José Pires, Joka Madruga, Louize Lazzarim e Fábio Souza

Fonte: Vigília Comunica

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