RECIFE – “Temos de trabalhar com outra lógica, que não seja a eleitoral”, defende José Antonio Moroni, diretor do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc). Segundo ele, a postura dos partidos de esquerda durante as campanhas é de “não-debate”. “Nosso projeto político depende do conflito”, avaliou durante uma das atividades do II Fórum Social Brasileiro (FSB).
“Chegamos a uma situação em que a principal preocupação do governo federal é evitar o confronto político”, critica o economista Carlos Eduardo Carvalho, coordenador do programa econômico na candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva em 1989. “Esse não-conflito gera uma situação que pende a balança da correlação de forças para o lado dos conservadores”, lamenta Moroni. “O mínimo que esperamos de qualquer governo de esquerda é que desequilibre essa correlação de forças, porque então acontece o conflito, e é aí é que nós entramos com nossas posições”, defendeu.
Essa postura mais ativa durante as eleições deve marcar a disputa deste ano. “A campanha de 2002 foi totalmente despolitizada, na linha paz e amor”, critica Gílson Reis, diretor-executivo da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Para Moroni, essa nova postura representa uma mudança de pensamento profunda. “Antes, toda a estratégia da esquerda era pensada em função de tomar o Estado e, de lá, mudar a sociedade. Agora começamos a pensar as mudanças já nos espaços em que estamos, para que daqui elas alterem o Estado”.
A opinião é compartilhada do outro lado do guichê. “Sem pressão, nada aconteceria no governo”, admite Grazia de Grazia, assessora de Relações Comunitárias do Ministério da Saúde. “É óbvio que o governo vive de conflitos, não se muda 500 anos de um modo de governar em apenas três anos”, pondera Pedro Ivo, coordenador do Conselho Nacional de Meio Ambiente. “Há uma visão de Estado autoritário e não-democrático que pesa, pela inércia”.
Para Moroni, para mudar o governo é necessária também uma nova postura dos movimentos em relação a ele. “Temos de começar a pensar o Estado como parte da sociedade, e não como nosso antagônico”, propõe o diretor do Inesc. E essa relação entre sociedade e Estado não deve mais ser mediada apenas pelos partidos políticos, defendem alguns participantes do FSB.
“O partido tentou ser o todo que representava as partes da sociedade”, afirma Carmen Silva, da organização feminista pernambucana S.O.S. Corpo. “Mas houve muitos vícios da política velha, que hierarquizava as estruturas de comando e as lutas”. Para ela, a crise política vivida pelo PT no ano passado é apenas uma das facetas desse problema.
“Havia sempre a idéia de que algumas lutas são mais centrais que as lutas das mulheres ou dos adolescentes”. Segundo Carmen, esse é um dos motivos que gera um descolamento do partido de suas bases. “Precisamos construir um projeto de desenvolvimento nacional que substitua o papel que a Constituição de 1988 teve, ao aglutinar todas as forças para discutir o país”. Aí então, ela acredita que as organizações podem “retomar a alegria de estar nas ruas”. “E vamos criar organizações coletivas que assumam o protagonismo, para não deixar isso novamente só para os partidos”, concorda Moroni.
Fonte: Agência Carta Maior
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