Queda no faturamento com juros dos títulos públicos diminuirá número de grandes instituições financeiras
Sem fazer alarde, o Banco Central (BC) ampliou as ferramentas para acompanhar mais de perto o andamento do sistema financeiro nacional. Apesar dos exuberantes lucros registrados pelos bancos, a ponto de se darem ao luxo de abater despesas extras dos resultados do terceiro trimestre deste ano, os técnicos do BC identificaram que a esperada mudança na composição das receitas dessas instituições chegou, trazendo junto riscos maiores para o mercado. Até o ano passado, as principais fontes de ganho dos bancos eram os títulos públicos do governo, um misto de juros altos e risco próximo de zero. Agora, com a queda de seis pontos percentuais da taxa básica (Selic) desde setembro do ano passado, as instituições estão tendo que tirar o grosso de seus lucros das operações de crédito, que embutem riscos elevados, decorrentes de variáveis complicadas: renda, emprego e crescimento econômico.
“O que veremos, a partir de agora, é os bancos exercendo o papel que sempre lhes coube na economia, mas estava deturpado: o de intermediador de recursos para o consumo e o setor produtivo. E isso envolve riscos”, diz o economista Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor da Dívida Pública do BC. Essa mudança, porém, está longe de levar o país a assistir um processo de quebra de bancos, como o que se viu entre 1995 e 1997, quando dezenas de instituições fecharam as portas porque não conseguiram sobreviver sem as receitas proporcionadas pela hiperinflação. “Os bancos brasileiros se prepararam de forma exemplar para conviver com um cenário de juros mais baixos e estabilidade econômica”, acrescenta Roberto Troster, ex-economista da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Troster faz, no entanto, uma previsão: “Nos próximos anos, veremos uma concentração maior do sistema financeiro”. Ou seja: o mercado, que hoje já é dominado por poucos — os 10 maiores bancos detêm quase 90% do crédito e dos depósitos à vista —, terá um número ainda menor de instituições. Ele não descarta, por exemplo, que Bradesco e Itaú ou Unibanco e Bradesco venham a se fundir para ganhar escala e reduzir custos. “Futuramente, esse será o caminho”, avisa. Na semana passada, por exemplo, o comentário no mercado era o de que o Itaú assumiria no Brasil os negócios do Banco Real ABN Amro, resultado da possível compra do ABN Amro lá fora pelo Bank of America, que é acionista do Itaú.
Aumento do calote
O dado mais visível dos riscos maiores que os bancos passaram a correr está segundo Edson Carminatti, analista do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad), no forte aumento das provisões feitas pelos bancos para enfrentar o calote de seus clientes. Na comparação do terceiro trimestre deste ano com igual período de 2005, o Bradesco ampliou essas reservas em 85,6%, de R$ 1,7 bilhão para R$ 3,2 bilhões. No Itaú, o conservadorismo foi ainda maior. As provisões cresceram 126,6%, de R$ 1,8 bilhão para R$ 4,2 bilhões. “Nos últimos dois anos, os bancos ampliaram muito suas carteiras de crédito e estão tendo que lidar com uma inadimplência maior. Daqui por diante, o grande desafio será aumentar o crédito e manter o calote sob controle”, ressalta Carminatti.
Para Rafael Quintanilha, analista da Agora Corretora, apesar de boa parte da população ainda estar fora do sistema financeiro, o atual nível de renda será um impeditivo para a ampliação do crédito — o ritmo de crescimento das operações caiu à metade do que se viu em 2005. Também entre as empresas, o apetite por empréstimos não é dos maiores, pois os juros são altos e as perspectivas para a economia, nada animadoras. Ele chama a atenção ainda para as receitas com tarifas, que aumentaram muito. Mas também aí a renda funciona como limitador. “Não dá mais para elevarmos os preços dos serviços de quem já está bancarizado. Temos que ampliar as receitas com tarifas conquistando novos clientes”, reconhece o vice-presidente de Controladoria da Caixa Econômica Federal, João Dornelles.
Dos grandes bancos, o que mais está sofrendo com a perda de receitas com títulos públicos (tesouraria) é o Banco do Brasil. No terceiro trimestre, os ganhos com esses papéis encolheram 30%. A compensação para essa queda, afirma Aldo Luiz Mendes, vice-presidente de Finanças do BB, virá de novas frentes de negócios abertas pela instituição. O BB reforçou o atendimento à pessoa física, para dobrar, no próximo ano, de R$ 1 bilhão para R$ 2 bilhões, a carteira de financiamento de automóveis e expandir o número de pessoas com crédito consignado. Dos 9 milhões de clientes que recebem salários pelo banco, somente 2 milhões fizeram empréstimos com desconto em folha. O BB também vai entrar no financiamento à casa própria e está fechando parcerias com redes de varejo para vender seus produtos.
Na avaliação de Quintanilha, na primeira etapa de adaptação do sistema financeiro aos juros mais baixos dos títulos públicos, pelo menos R$ 30 bilhões em ativos hoje dominados por bancos de médios portes trocarão de mãos. O Banco Central não comenta tal previsão. E, de forma sóbria, se limita apenas a dizer: “Tanto as normas prudenciais em vigor quanto o processo de supervisão adotado já abrangem qualquer tipo de configuração que o sistema bancário tenha ou venha a ter. Inclusive, em termos de rentabilidade”.
Caixa precisa de injeção do Tesouro
A Caixa Econômica Federal divulgará, esta semana, lucro líquido próximo de R$ 1,5 bilhão — cerca de 30% a mais do que em igual período de 2005 —, mas o resultado não será motivo de comemoração entre os analistas do sistema financeiro. Os especialistas afirmam que a Caixa atingiu seu limite para ampliar negócios com segurança.
O capital próprio da instituição é de R$ 9 bilhões, valor correspondente a 4,5% do total de ativos administrados por ela, de R$ 200 bilhões. Nos bancos privados, e mesmo no Banco do Brasil, essa relação gira entre 12% e 15%. Diante desse quadro, avaliam os analistas, o Tesouro Nacional, como acionista controlador, terá de injetar recursos.
Dentro da Caixa, o assunto é tratado de forma pragmática. Segundo o vice-presidente de Controladoria do banco, João Dornelles, o maior gargalo está no financiamento ao setor público. Portanto, diz ele, se o presidente Lula quiser dispor do conhecimento e da estrutura do banco para financiar as obras de infra-estrutura que serão tocadas em seu segundo mandato, terá que aumentar o capital da instituição. Por lei, a Caixa pode financiar obras públicas até o valor de 45% do seu capital (R$ 4 bilhões). Esse índice foi praticamente atingindo.
Folga extra
Dornelles conta que, no ano passado, o banco ganhou uma margem de manobra ao fazer uma operação denominada dívida subordinada, no valor de R$ 4 bilhões. Essa transação foi possível porque o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) abriu mão de alguns avais no recebimento de créditos junto à Caixa. A dívida subordinada foi somada ao capital da instituição, elevando-o para R$ 13 bilhões e abrindo uma folga de R$ 1,5 bilhão para financiamento ao setor público.
Mas isso não foi suficiente para suprir as necessidades do banco, já que a demanda por empréstimos de estados, municípios e empresas públicas é crescente, sobretudo para obras de saneamento básico. “O FGTS já disponibilizou um volume grande de recursos para obras de infra-estrutura. Mas temos limites a serem cumpridos”, ressalta. O vice-presidente da Caixa diz que as conversas com o Tesouro Nacional para a capitalização do banco estão bem encaminhadas. Mas, a seu ver, a folga de capital que o banco precisa para operar não precisa vir apenas da injeção de recursos públicos. (VN)
Fonte: Correio Braziliense
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Por Mhais• 21 de novembro de 2006• 15:22• Sem categoria
Queda da Selic provoca mudanças e traz riscos para bancos
Queda no faturamento com juros dos títulos públicos diminuirá número de grandes instituições financeiras
Sem fazer alarde, o Banco Central (BC) ampliou as ferramentas para acompanhar mais de perto o andamento do sistema financeiro nacional. Apesar dos exuberantes lucros registrados pelos bancos, a ponto de se darem ao luxo de abater despesas extras dos resultados do terceiro trimestre deste ano, os técnicos do BC identificaram que a esperada mudança na composição das receitas dessas instituições chegou, trazendo junto riscos maiores para o mercado. Até o ano passado, as principais fontes de ganho dos bancos eram os títulos públicos do governo, um misto de juros altos e risco próximo de zero. Agora, com a queda de seis pontos percentuais da taxa básica (Selic) desde setembro do ano passado, as instituições estão tendo que tirar o grosso de seus lucros das operações de crédito, que embutem riscos elevados, decorrentes de variáveis complicadas: renda, emprego e crescimento econômico.
“O que veremos, a partir de agora, é os bancos exercendo o papel que sempre lhes coube na economia, mas estava deturpado: o de intermediador de recursos para o consumo e o setor produtivo. E isso envolve riscos”, diz o economista Carlos Thadeu de Freitas Gomes, ex-diretor da Dívida Pública do BC. Essa mudança, porém, está longe de levar o país a assistir um processo de quebra de bancos, como o que se viu entre 1995 e 1997, quando dezenas de instituições fecharam as portas porque não conseguiram sobreviver sem as receitas proporcionadas pela hiperinflação. “Os bancos brasileiros se prepararam de forma exemplar para conviver com um cenário de juros mais baixos e estabilidade econômica”, acrescenta Roberto Troster, ex-economista da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Troster faz, no entanto, uma previsão: “Nos próximos anos, veremos uma concentração maior do sistema financeiro”. Ou seja: o mercado, que hoje já é dominado por poucos — os 10 maiores bancos detêm quase 90% do crédito e dos depósitos à vista —, terá um número ainda menor de instituições. Ele não descarta, por exemplo, que Bradesco e Itaú ou Unibanco e Bradesco venham a se fundir para ganhar escala e reduzir custos. “Futuramente, esse será o caminho”, avisa. Na semana passada, por exemplo, o comentário no mercado era o de que o Itaú assumiria no Brasil os negócios do Banco Real ABN Amro, resultado da possível compra do ABN Amro lá fora pelo Bank of America, que é acionista do Itaú.
Aumento do calote
O dado mais visível dos riscos maiores que os bancos passaram a correr está segundo Edson Carminatti, analista do Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (Inepad), no forte aumento das provisões feitas pelos bancos para enfrentar o calote de seus clientes. Na comparação do terceiro trimestre deste ano com igual período de 2005, o Bradesco ampliou essas reservas em 85,6%, de R$ 1,7 bilhão para R$ 3,2 bilhões. No Itaú, o conservadorismo foi ainda maior. As provisões cresceram 126,6%, de R$ 1,8 bilhão para R$ 4,2 bilhões. “Nos últimos dois anos, os bancos ampliaram muito suas carteiras de crédito e estão tendo que lidar com uma inadimplência maior. Daqui por diante, o grande desafio será aumentar o crédito e manter o calote sob controle”, ressalta Carminatti.
Para Rafael Quintanilha, analista da Agora Corretora, apesar de boa parte da população ainda estar fora do sistema financeiro, o atual nível de renda será um impeditivo para a ampliação do crédito — o ritmo de crescimento das operações caiu à metade do que se viu em 2005. Também entre as empresas, o apetite por empréstimos não é dos maiores, pois os juros são altos e as perspectivas para a economia, nada animadoras. Ele chama a atenção ainda para as receitas com tarifas, que aumentaram muito. Mas também aí a renda funciona como limitador. “Não dá mais para elevarmos os preços dos serviços de quem já está bancarizado. Temos que ampliar as receitas com tarifas conquistando novos clientes”, reconhece o vice-presidente de Controladoria da Caixa Econômica Federal, João Dornelles.
Dos grandes bancos, o que mais está sofrendo com a perda de receitas com títulos públicos (tesouraria) é o Banco do Brasil. No terceiro trimestre, os ganhos com esses papéis encolheram 30%. A compensação para essa queda, afirma Aldo Luiz Mendes, vice-presidente de Finanças do BB, virá de novas frentes de negócios abertas pela instituição. O BB reforçou o atendimento à pessoa física, para dobrar, no próximo ano, de R$ 1 bilhão para R$ 2 bilhões, a carteira de financiamento de automóveis e expandir o número de pessoas com crédito consignado. Dos 9 milhões de clientes que recebem salários pelo banco, somente 2 milhões fizeram empréstimos com desconto em folha. O BB também vai entrar no financiamento à casa própria e está fechando parcerias com redes de varejo para vender seus produtos.
Na avaliação de Quintanilha, na primeira etapa de adaptação do sistema financeiro aos juros mais baixos dos títulos públicos, pelo menos R$ 30 bilhões em ativos hoje dominados por bancos de médios portes trocarão de mãos. O Banco Central não comenta tal previsão. E, de forma sóbria, se limita apenas a dizer: “Tanto as normas prudenciais em vigor quanto o processo de supervisão adotado já abrangem qualquer tipo de configuração que o sistema bancário tenha ou venha a ter. Inclusive, em termos de rentabilidade”.
Caixa precisa de injeção do Tesouro
A Caixa Econômica Federal divulgará, esta semana, lucro líquido próximo de R$ 1,5 bilhão — cerca de 30% a mais do que em igual período de 2005 —, mas o resultado não será motivo de comemoração entre os analistas do sistema financeiro. Os especialistas afirmam que a Caixa atingiu seu limite para ampliar negócios com segurança.
O capital próprio da instituição é de R$ 9 bilhões, valor correspondente a 4,5% do total de ativos administrados por ela, de R$ 200 bilhões. Nos bancos privados, e mesmo no Banco do Brasil, essa relação gira entre 12% e 15%. Diante desse quadro, avaliam os analistas, o Tesouro Nacional, como acionista controlador, terá de injetar recursos.
Dentro da Caixa, o assunto é tratado de forma pragmática. Segundo o vice-presidente de Controladoria do banco, João Dornelles, o maior gargalo está no financiamento ao setor público. Portanto, diz ele, se o presidente Lula quiser dispor do conhecimento e da estrutura do banco para financiar as obras de infra-estrutura que serão tocadas em seu segundo mandato, terá que aumentar o capital da instituição. Por lei, a Caixa pode financiar obras públicas até o valor de 45% do seu capital (R$ 4 bilhões). Esse índice foi praticamente atingindo.
Folga extra
Dornelles conta que, no ano passado, o banco ganhou uma margem de manobra ao fazer uma operação denominada dívida subordinada, no valor de R$ 4 bilhões. Essa transação foi possível porque o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) abriu mão de alguns avais no recebimento de créditos junto à Caixa. A dívida subordinada foi somada ao capital da instituição, elevando-o para R$ 13 bilhões e abrindo uma folga de R$ 1,5 bilhão para financiamento ao setor público.
Mas isso não foi suficiente para suprir as necessidades do banco, já que a demanda por empréstimos de estados, municípios e empresas públicas é crescente, sobretudo para obras de saneamento básico. “O FGTS já disponibilizou um volume grande de recursos para obras de infra-estrutura. Mas temos limites a serem cumpridos”, ressalta. O vice-presidente da Caixa diz que as conversas com o Tesouro Nacional para a capitalização do banco estão bem encaminhadas. Mas, a seu ver, a folga de capital que o banco precisa para operar não precisa vir apenas da injeção de recursos públicos. (VN)
Fonte: Correio Braziliense
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