De carona na retomada do crescimento econômico, três das mais importantes categorias profissionais do país estão trazendo de volta o mecanismo de negociação sindical que as consagrou, mas andava adormecido desde os anos 90. Ao mesmo tempo em que os bancários entraram no sexto dia de paralisação em todo o Brasil, cerca de mil metalúrgicos de quatro empresas no ABC paulista entraram ontem em greve por tempo indeterminado. Outras três companhias devem parar a partir de hoje. Já os petroleiros receberam da Petrobras oferta de reajuste salarial de 7,82%, mas ameaçam parar, se a estatal não melhorar a proposta.
Chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), o economista Marcelo Neri, atribui o acirramento das negociações à melhora na atividade econômica. Depois de vários anos em que a atividade sindical se concentrou na manutenção dos empregos, os bons indicadores do mercado de trabalho estão permitindo o ressurgimento das campanhas salariais. Neri chama a atenção para o fato de o movimento estar concentrado em categorias profissionais mais organizadas e fortemente ligadas à criação do PT:
— Bancários, metalúrgicos e petroleiros participaram das greves dos anos 70 e 80 e estão na origem no PT. Foram categorias muito afetadas pelas reformas dos anos 90 (estabilização, abertura comercial e privatização), mas quando o partido chegou ao poder, a conjuntura não era favorável. Agora, com a recuperação da economia, estão recolocando suas demandas na mesa. Não sabemos o final da história, mas será interessante ver como eles serão tratados.
Mais fábricas devem parar hoje em SP
Em São Bernardo do Campo, a paralisação dos metalúrgicos afetou as empresas Ottis, Makita, Conexel e Mark Groundfs. Todas são ligadas ao Grupo 9 da Fiesp, que reúne os setores de trefilação e laminação de metais ferrosos, máquinas e aparelhos elétricos, entre outros. O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, filiado à CUT, anunciou para hoje a paralisação de outras três fábricas (Evacon, Embramotor e Bonfio) para forçar os empregadores a iniciarem as negociações salariais. Os trabalhadores reivindicam reposição da inflação, aumento real de 4%, limite de horas-extras e o direito de o sindicato fiscalizar as terceirizadas.
Cerca de 40 mil pessoas trabalham nas empresas dos grupos 9, 10 (lâmpadas, rolhas metálicas, artefatos de ferro etc) e de fundição da Fiesp, mas o sindicato optou pela paralisação gradual. Segundo José Lopes Feijóo, presidente do sindicato, seis empresas já assinaram acordo e outras 30 devem apresentar hoje sua contraproposta. Representantes das indústrias de fundição também se comprometeram a estudar a oferta.
Na capital paulista, o metalúrgicos ligados à Força Sindical apresentam hoje à Fiesp a pauta de reivindicações. Querem aumento de 15% (6,42% pelo INPC acumulado e 8% de ganho real), piso salarial único de R$ 700 e redução da jornada de trabalho. A proposta vale para 51 sindicatos do estado, num total de 700 mil trabalhadores.
— Se até o dia 20 de outubro não tivermos uma contraproposta satisfatória, vamos começar a parar as empresas, aproveitando o pico da produção para as vendas do fim do ano — anuncia o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Eleno José Bezerra.
Ele argumenta que os indicadores da economia confirmam o crescimento em todos os setores da atividade. Por isso, diz, não há como os trabalhadores não receberem uma fatia do bolo. Pensamento semelhante tem o diretor-técnico do Dieese, Clemente Lucio, que prevê para este ano acordos salariais mais satisfatórios que em 2003. No primeiro semestre, 79% dos reajustes superaram o INPC.
— Depois de anos de desemprego e perda de renda, os trabalhadores estão buscando a repartição de certos ganhos. Estes três setores em particular estão ganhando há tempos. A greve é uma forma legítima de as categorias demonstrarem que a pauta das empresas não está agradando — diz Lucio.
No sexto dia de paralisação, a Confederação Nacional dos Bancários (CNB) estima que a adesão ao movimento chegue a 18 estados. A CNB calcula que metade dos 400 mil bancários dos país esteja parada. Em São Paulo, o dia foi marcado por filas em caixas eletrônicos e casas lotéricas da Avenida Paulista. Segundo o Sindicato dos Bancários do estado, 376 agências não funcionaram, contra 340 na última sexta-feira.
Bancários vão à negociação
No Rio, agências de quase todos os bancos pararam, principalmente no Centro. Apenas o Bradesco, que tem uma decisão judicial para funcionar, abriu normalmente. Segundo o presidente do Sindicato dos Bancários do Rio, Vinícius Assumpção, das 937 agências da capital, 480 pararam. Ao todo, 21 mil bancários estão em greve na cidade. A falta de atendimento criou dificuldades. O aposentado Paulo Antas, de 78 anos, tenta pagar suas contas desde a última quinta-feira. Como não sabe usar os terminais eletrônicos, voltou para casa sem quitar as obrigações.
Hoje, às 15h, trabalhadores se reúnem com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). No mesmo horário, os bancários decidem se mantêm o movimento. A categoria aposta em nova rodada de negociações, mas a Fenaban informou que o encontro não significa que as instituições aceitarão mudar a proposta. A categoria quer reposição da inflação mais aumento real de 17,68% e participação nos lucros de um salário mais R$ 1.200.
Fonte: O Globo – Aguinaldo Novo, Fabiana Parajara e Flávia Oliveira
Notícias recentes
- Fetec faz balanço da gestão e eleição complementar em congresso estadual
- Para CNC, bets agravam endividamento das famílias brasileiras
- Governo libera R$ 330 milhões para segurar preço do gás de cozinha
- Copom decide Selic em meio a guerra e inflação acelerando
- Coletivo de Sindicatos promove a 3ª Semana dos Trabalhadores e Trabalhadoras de Londrina
Comentários
Por Mhais• 21 de setembro de 2004• 11:14• Sem categoria
Retomada da economia estimula greve de bancários
De carona na retomada do crescimento econômico, três das mais importantes categorias profissionais do país estão trazendo de volta o mecanismo de negociação sindical que as consagrou, mas andava adormecido desde os anos 90. Ao mesmo tempo em que os bancários entraram no sexto dia de paralisação em todo o Brasil, cerca de mil metalúrgicos de quatro empresas no ABC paulista entraram ontem em greve por tempo indeterminado. Outras três companhias devem parar a partir de hoje. Já os petroleiros receberam da Petrobras oferta de reajuste salarial de 7,82%, mas ameaçam parar, se a estatal não melhorar a proposta.
Chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV), o economista Marcelo Neri, atribui o acirramento das negociações à melhora na atividade econômica. Depois de vários anos em que a atividade sindical se concentrou na manutenção dos empregos, os bons indicadores do mercado de trabalho estão permitindo o ressurgimento das campanhas salariais. Neri chama a atenção para o fato de o movimento estar concentrado em categorias profissionais mais organizadas e fortemente ligadas à criação do PT:
— Bancários, metalúrgicos e petroleiros participaram das greves dos anos 70 e 80 e estão na origem no PT. Foram categorias muito afetadas pelas reformas dos anos 90 (estabilização, abertura comercial e privatização), mas quando o partido chegou ao poder, a conjuntura não era favorável. Agora, com a recuperação da economia, estão recolocando suas demandas na mesa. Não sabemos o final da história, mas será interessante ver como eles serão tratados.
Mais fábricas devem parar hoje em SP
Em São Bernardo do Campo, a paralisação dos metalúrgicos afetou as empresas Ottis, Makita, Conexel e Mark Groundfs. Todas são ligadas ao Grupo 9 da Fiesp, que reúne os setores de trefilação e laminação de metais ferrosos, máquinas e aparelhos elétricos, entre outros. O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, filiado à CUT, anunciou para hoje a paralisação de outras três fábricas (Evacon, Embramotor e Bonfio) para forçar os empregadores a iniciarem as negociações salariais. Os trabalhadores reivindicam reposição da inflação, aumento real de 4%, limite de horas-extras e o direito de o sindicato fiscalizar as terceirizadas.
Cerca de 40 mil pessoas trabalham nas empresas dos grupos 9, 10 (lâmpadas, rolhas metálicas, artefatos de ferro etc) e de fundição da Fiesp, mas o sindicato optou pela paralisação gradual. Segundo José Lopes Feijóo, presidente do sindicato, seis empresas já assinaram acordo e outras 30 devem apresentar hoje sua contraproposta. Representantes das indústrias de fundição também se comprometeram a estudar a oferta.
Na capital paulista, o metalúrgicos ligados à Força Sindical apresentam hoje à Fiesp a pauta de reivindicações. Querem aumento de 15% (6,42% pelo INPC acumulado e 8% de ganho real), piso salarial único de R$ 700 e redução da jornada de trabalho. A proposta vale para 51 sindicatos do estado, num total de 700 mil trabalhadores.
— Se até o dia 20 de outubro não tivermos uma contraproposta satisfatória, vamos começar a parar as empresas, aproveitando o pico da produção para as vendas do fim do ano — anuncia o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Eleno José Bezerra.
Ele argumenta que os indicadores da economia confirmam o crescimento em todos os setores da atividade. Por isso, diz, não há como os trabalhadores não receberem uma fatia do bolo. Pensamento semelhante tem o diretor-técnico do Dieese, Clemente Lucio, que prevê para este ano acordos salariais mais satisfatórios que em 2003. No primeiro semestre, 79% dos reajustes superaram o INPC.
— Depois de anos de desemprego e perda de renda, os trabalhadores estão buscando a repartição de certos ganhos. Estes três setores em particular estão ganhando há tempos. A greve é uma forma legítima de as categorias demonstrarem que a pauta das empresas não está agradando — diz Lucio.
No sexto dia de paralisação, a Confederação Nacional dos Bancários (CNB) estima que a adesão ao movimento chegue a 18 estados. A CNB calcula que metade dos 400 mil bancários dos país esteja parada. Em São Paulo, o dia foi marcado por filas em caixas eletrônicos e casas lotéricas da Avenida Paulista. Segundo o Sindicato dos Bancários do estado, 376 agências não funcionaram, contra 340 na última sexta-feira.
Bancários vão à negociação
No Rio, agências de quase todos os bancos pararam, principalmente no Centro. Apenas o Bradesco, que tem uma decisão judicial para funcionar, abriu normalmente. Segundo o presidente do Sindicato dos Bancários do Rio, Vinícius Assumpção, das 937 agências da capital, 480 pararam. Ao todo, 21 mil bancários estão em greve na cidade. A falta de atendimento criou dificuldades. O aposentado Paulo Antas, de 78 anos, tenta pagar suas contas desde a última quinta-feira. Como não sabe usar os terminais eletrônicos, voltou para casa sem quitar as obrigações.
Hoje, às 15h, trabalhadores se reúnem com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). No mesmo horário, os bancários decidem se mantêm o movimento. A categoria aposta em nova rodada de negociações, mas a Fenaban informou que o encontro não significa que as instituições aceitarão mudar a proposta. A categoria quer reposição da inflação mais aumento real de 17,68% e participação nos lucros de um salário mais R$ 1.200.
Fonte: O Globo – Aguinaldo Novo, Fabiana Parajara e Flávia Oliveira
Deixe um comentário