Semear ódio não ajuda
Argumentos patéticos desta mídia podem ser rejeitados como fruto de uma fase histérica de quem quer recuperar o poder a qualquer custo. Mas há uma dimensão que assusta. Muitos dos textos e vídeos exalam e estimulam um ódio doentio. E são produzidos e reproduzidos aos milhões, coisa que as tecnologias modernas permitem. Os grandes grupos da mídia, e em particular as quatro grandes familias que os controlam, não só aderiram de maneira irresponsável à fogueira ideológica, como jogam com gosto lenha e gasolina, ainda que sabendo que se trata de comportamentos vergonhosos em termos éticos, e perigosos em termos sociais.
Há momentos de posições declaradas. E há limites para tudo. Segundo o video de Arnaldo Jabor, está sendo preparada uma ditadura, e os culpados seremos nós, se votarmos na Dilma. Isto com dramático acompanhamento musical, o Jabor parecendo aqueles antigos personagens do Tradição, Família e Propriedade dos anos 1960 anunciando a apocalipse política.
Caso mais sério, segundo a CBN, o futuro governo Dilma seria dirigido pelo José Dirceu, isto dito em tom pausado de reportagem séria. Nos e-mails religiosos aprendo que o futuro governo vai matar criancinhas. Quanto à Veja, não preciso ser informado, pois já a capa mostra um monstruoso polvo que vai nos engolir. E naturalmente, temos o aborto, último reduto da direita, instrumento político de profunda covardia, para quem sabe o que é a indústria do aborto clandestino. Aborto aliás já utilizado na campanha do Collor contra o Lula, anos atrás.
Argumentos patéticos desta mídia podem ser rejeitados como fruto de uma fase histérica de quem quer recuperar o poder a qualquer custo. Mas há uma dimensão que assusta. Muitos dos textos e vídeos exalam e estimulam um ódio doentio. E são produzidos e reproduzidos aos milhões, coisa que as tecnologias modernas permitem. Os grandes grupos da mídia, e em particular as quatro grandes familias que os controlam, não só aderiram de maneira irresponsável à fogueira ideológica, como jogam com gosto lenha e gasolina, ainda que sabendo que se trata de comportamentos vergonhosos em termos éticos, e perigosos em termos sociais. O poder a qualquer custo, vale a pena?
Semear e estimular o ódio é perigoso. Porque com o atual domínio de tecnologias de comunicação, o ódio pode ser espalhado aos grandes ventos, e os órgãos que controlam a mídia não se privam. Espalhar o ódio pode ser mais fácil do que controlá-lo. O tom da grande mídia se assemelha de forma impressionante aos discursos às vésperas da ditadura. Que aliás foi instalada em nome da proteção da democracia. Fernando Henrique Cardoso, que não teve grandes realizações a apresentar, entregou o governo dizendo que tinha consolidado a democracia. Herança importante. Vale a pena colocá-la em risco?
O governo Lula tem méritos indiscutíveis. Abriu espaço não só para os pobres, mas para todos. À dimensão política da democracia acrescentou a dimensão econômica e social. Tornou evidente para o país que a massa de pobres deste país desigual, é pobre não por falta de iniciativa, mas por falta de oportunidade. E que ao melhorar o seu nível, pelo aumento do salário mínimo, pelo maior acesso à universidade, pelo maior financiamento da agricultura familiar, pelo suporte aos municípios mais pobres, e até por iniciativas tão elementares como o Bolsa Família ou o Luz para Todos, mostrou que esta gente passa a consumir, a estudar, a produzir mais. E com isto gera mercado não só no andar de baixo, mas para todos.
Esta imprensa que tantas manchetes publicou sobre o “aerolula”, hoje sabe que a diversificação do nosso comércio internacional, a redução da dependência relativamente aos Estados Unidos, e a prudente acumulação de reservas internacionais, que passaram de ridículos 30 bilhões em 2002 para 260 bilhões atualmente, nos protegeram da crise financeira internacional. Adquirimos uma soberania de verdade.
E no plano ambiental, só em termos da Amazônia o desmatamento foi reduzido de 28 para 7 mil quilómetros quadrados ao ano. Continua a ser uma tragédia, mas foi um imenso avanço. Realização onde o trabalho de Marina Silva foi importante, sem dúvida, como foi o de Carlos Minc. Mas foi trabalho deste governo, que nomeou na área ambiental realizadores e não ministros decorativos. E a sustentabilidade ambiental não é apenas verde.
Os investimentos do PAC nas ferrovias e nos estaleiros são vitais para mudar a nossa matriz de transporte, hoje dependente de caminhões. A construção de casas dignas é política ambiental, que não pode ser dissociada do social. Os investimentos em saneamento do programa Territórios da Cidadania, em cerca de 2 mil municípios, articulam igualmente soluções ambientais e sociais, como o faz o programa Luz para Todos. Tentar dissociar o meio ambiente e o progresso social é um feito real que a direita conseguiu, divide pessoas que batalhavam juntas por um futuro mais decente. Mas é ruim para todos.
O bom senso indica claramente o caminho da continuidade, equilíbrando as dimensões econômica, social e ambiental. Absorver a dimensão crescente dos desafios ambientais, e expandir as dinâmicas do governo atual articulando os três eixos. Mas discutir isto envolveria uma campanha política em torno de argumentos e programas, onde a direita só tem a oferecer o argumento de que seria mais “competente”. O importante, é saber a serviço de quem seria esta competência.
A continuidade das políticas é vital para o Brasil. O que tem a direita a oferecer? Mais privatizações? Mais concentração de renda? Mais pedágios de diversos tipos? Leiloar o Pre-Sal? A última iniciativa do Serra foi tentar privatizar a Nossa Caixa, felizmente salva pelo governo federal. Como teria sido o Brasil frente à crise sem os bancos públicos? Os jornalistas sabem, mas quando falam, como Maria Rita Kehl, e escrevem o que sabem, são sumariamente demitidos. Que recado isto manda para o jornalismo?
A opção adotada foi bagunçar os argumentos políticos, buscar a desestabilização, assustar as pessoas, semear ódio. Qualquer coisa que tire da eleição a dimensão da racionalidade, da opção cidadã. Porque pela racionalidade, o próprio povo já sabe onde estão os seus interesses, e os resultados são evidentes. O caminho adotado é baixar o nível, sair da cabeça, ir para as tripas. Não o próprio candidato, porque este precisa parecer digno. Mas os esperançosos herdeiros de poder em torno dele, ou a própria família. O ódio que esta gente espalha está aí, palpável. E funciona. A maior vítima desta campanha eleitoral ainda pode ser o resto de credibilidade deste tipo de mídia, e os restos de ilusão sobre este tipo de política.
Eu voto na Dilma com a consciência tranquila. Fiz inúmeras avaliações de governos, profissionalmente, no quadro das Nações Unidas. E fiz a avaliação de políticas sociais do governo de FHC, a pedido de Ruth Cardoso, nas reuniões que tínhamos com pessoas de peso como Gilberto Gil e Zilda Arns. Sem remuneração, e com isenção, como o faço hoje. Eram políticas que nunca se tornaram políticas de governo, porque a base política não permitia que ultrapassassem a dimensão da boa vontade real da primeira dama. A base política do candidato Serra, desde a bancada ruralista até os negociantes das privatizações, é a mesma. E se assumir o vice, como tantas vezes já aconteceu, não será apenas um atraso generalizado para o país, será uma vergonha mundial.
Por Ladislau Dowbor.
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O que torna um país uma potência?
O novo “soft power” implementado pela política externa do governo Lula é mais um fator que permite o Brasil ter uma posição de destaque no momento em que os regimes internacionais estão em questionamento. Para que essa audaciosa estratégia adotada pelo governo brasileiro se sustente, deve obter apoio em amplos setores socialmente significativos internamente e ampliar as parcerias com novos poderes, portadores de novos valores, que pleiteiam um novo status nas relações internacionais. O artigo é de Reginaldo Nasser.
O sistema internacional do pós guerra-fria ainda está em processo de construção. Embora os EUA continuem desfrutando de recursos, mais do que qualquer outro país, dependem da importação diária de petróleo, suas forças armadas estão imersas em conflitos que estão longe de serem resolvidos e, o que é mais grave, já não conseguem obter consenso político para manter sua posição de liderança.
As alianças entre os EUA, Europa ocidental, Japão, Coréia do Sul e Austrália – já não são adequadas para abordar grande parte dos problemas do mundo. Configura-se assim a necessidade de novos parceiros, e as potências emergentes como China, India, Brasil têm o potencial de suprir esta necessidade. Goldman Sachs cunhou o termo BRIC (Brasil, Russia, India e China) no final de 2001 para denominar os mercados dos países em ascensão. A proporção do PIB mundial representada por esses países passou de 16% em 2000 a 22% em 2008, representam 42% da população mundial e por volta de 35% do crescimento econômico mundial nos dez últimos anos.
A revista The Economist lembra que, quando foi criada a sigla BRIC, o Brasil era visto como um lugar de instabilidade política e econômica crônica e, portanto, não parecia caminhar junto a esses “titãs em ascensão”. Nove anos depois The Economist avalia que “sob certos aspectos” o Brasil começa a ser visto de forma diferente dos outros países: é uma democracia consolidada, não tem insurgentes, conflitos religiosos ou hostilidade com os vizinhos, os investidores estrangeiros o vêm com respeito.
O que torna um país uma potência? Tamanho de seu território, população, forças armadas, tecnologia, economia ou a inteligência no uso do poder se inserir no mundo? No Brasil há uma tradição que considera a política externa unicamente como um meio para obter acesso aos mercados e recursos essenciais para o desenvolvimento. Mas, como observou Perry Anderson atualmente existe espaço para países com algumas credenciais praticarem políticas de mobilidade, exigindo um novo arranjo na ordem mundial existente.
Estudos realizados pelo Instituto de Desenvolvimento do Canadá estimam que recursos de cooperação técnica do Brasil para os países pobres aumentaram quase vinte vezes nos três últimos anos já se aproximando dos tradicionais doadores como a Suécia e Canadá. (The Economist, 15/07/2010). De acordo com esses estudos, diferentemente do estilo ocidental de ajuda que impõe condições aos seus beneficiários, a ajuda brasileira se concentra mais em programas sociais que de outros países como a China que financia estradas, ferrovias e portos em troca de acesso a matérias-primas. São ações de cooperação internacional que se realizam por meio do fornecimento de tecnologia e treinamento para a produção de medicamentos genéricos para o tratamento da Aids, regimes de transferência condicional de renda como Bolsa Família, e outras questões realcionadas à agricultura, pecuária, educação e desenvolvimento social.
Evidentemente que empresas brasileiras adquirem vantagens por apresentarem credenciais que as aproximam de outros países menos desenvolvidos permitindo que as iniciativas de assistência externa brasileira apresentem maiores chances de serem eficazes quando aplicadas. O Brasil é o maior produtor mundial de etanol limpo e pretende criar um mercado global do combustível verde. A disseminação da tecnologia do etanol para os países pobres cria novos fornecedores, aumenta as chances de um mercado global e gera negócios para empresas brasileiras.
Pode-se especular à vontade qual seria a intenção principal por trás desta ação do governo Lula, mas o fato é que esse novo “soft power” é mais um fator que permite o Brasil ter uma posição de destaque no momento em que os regimes internacionais estão em questionamento. Para que essa audaciosa estratégia adotada pelo governo brasileiro se sustente, deve obter apoio em amplos setores socialmente significativos internamente e ampliar as parcerias com novos poderes, portadores de novos valores, que pleiteiam um novo status nas relações internacionais. Creio que o presidente do Banco Mundial Robert Zoellick acertou quando disse que “as placas tectônicas da economia e da política estão se deslocando. As categorias, desatualizadas do Primeiro e do Terceiro Mundo, doador e credor, líder e liderado, já não servem mais”.
Por Reginaldo Nasser, que é professor de Relações Internacionais da PUC-SP.
ARTIGOS COLHIDOS NO SÍTIO www.cartamaior.com.br.