Militantes dos movimentos sociais estiveram reunidos na última sexta-feira e sábado, 16 e 17 de março, durante o seminário “Estratégias de Comunicação para os Movimentos Sociais”, promovido pelo Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo (Cefuria), no Anfiteatro 100 da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Na primeira parte da atividade, realizada na sexta, o debate trouxe exposição de Beto Almeida (Telesur Brasil e TV Comunitária) e girou em torno das dificuldades e possibilidades de avanço no âmbito da comunicação pública ou estatal para romper com a lógica massacrante e alienante da mídia privada. O clímax do evento foi a mesa redonda “as experiências alternativas no Brasil e as estratégias de hoje”, que contou com a participação dos jornalistas Élson Faxina (Paraná Educativa), Antônio Biondi (Carta Maior), e Beto Almeida, com mediação de Rachel Bragatto (Intervozes).
Biondi abriu o painel com o lançamento regional do livro “Vozes da Democracia”, um resgate de experiências de resistência à ditadura militar pouco conhecidas no país, fruto de uma polêmica parceria do Coletivo Brasil de Comunicação Social Intervozes com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. “Estava quase tudo certo para a obra sair, mas a presidência da Imprensa Oficial, que era ocupada pelo atual secretário de estado da educação, Hubert Alquéres, quis barrar a publicação. A partir do momento que o livro teve boas críticas e aceitação, ele foi liberado. Aí o discurso mudou, começaram a falar que a obra era da Imprensa Oficial, com participação da Intervozes”, afirmou Biondi. Segundo ele, a mobilização se faz necessária para mudar o contexto da comunicação no país. “É preciso fortalecer os comunicadores, que hoje estão dispersos, e buscar o diálogo com outras entidades, como a Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), para tornar permanente a luta pela democratização da comunicação”.
O jornalista paranaense Élson Faxina, por sua vez, disse que é necessário olhar para o passado para transformar a realidade. “Temos que analisar o passado para podermos enxergar o que deu errado e iluminarmos o presente. Hoje, nós, jornalistas, somos fazedores de boletins, rádios e afins. Muito mais que ser fazedor de notícia é ser fazedor de sociedade. Nosso grande desafio é formar o imaginário social de luta. Precisamos nos capacitar enquanto jornalistas para oferecer isso aos movimentos sociais e cobrar participação na hora de pensar a ação, e não somente no momento de tentar ocupar espaço na grande mídia. Nossa tarefa é fazer comunicação e mobilização”, aferiu Faxina, que ainda disparou: “vivemos na sociedade da aparência, ou você aparece ou não existe!”.
Na seqüência, Beto Almeida começou sua explanação abordando a Telesur. “Se surgiu essa emissora é porque houve um acúmulo de experiências de luta na América Latina. O monopólio da mídia vai contra o processo de integração latino-americana. Montaram um esquema nazista de obediência, onde passam mensagens discriminatórias”, disparou Almeida, que ainda fez críticas ao Ministério das Comunicações. “Hélio Costa está fazendo a TV Pública conforme os interesses da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) e da Rede Globo. E vou ainda mais longe, no Brasil não tem TV Pública, o que existe são as tv’s governamentais que tentam cumprir essa lacuna com valores estéticos de mercado, ou seja, é a ditadura do consumo. O Estado só chega à população na hora de reprimir, quando deveria chegar na hora de oferecer educação e saúde, por exemplo. Só para se ter uma idéia, são destinados R$ 1,5 bilhão por ano para a mídia privada e nada para a comunicação alternativa”.
Pelourinho Eletrônico
Ao final do evento, as posições de Beto foram ainda mais severas contra o monopólio da mídia. “Ela (mídia) representa o pelourinho eletrônico. Se não houver expansão da comunicação pública, não vamos avançar na democracia. A tv a cabo do Brasil é a mais cara do mundo. Somente 3,5 milhões de pessoas, num universo de mais de 180 milhões, têm acesso a esse sinal. É um verdadeiro apartheid áudio-visual. Só conseguiremos mudar esse cenário com políticas públicas de comunicação livres da ditadura de mercado”.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.cut.org.br.
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