O governo Lula reagiu ao tarifaço de Donald Trump com uma combinação de negociação diplomática, proteção às empresas brasileiras e preparação de uma resposta comercial dentro da lei. A nova sobretaxa de 25% entrou em vigor nesta quarta-feira (22) e atinge cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente US$ 7,4 bilhões.
A estratégia foi detalhada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin após uma reunião com empresários dos setores afetados. Ao lado do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, Alckmin afirmou que o Brasil não aceitará passivamente uma medida considerada injusta, mas também não pretende mergulhar em uma guerra comercial que aumente os prejuízos para trabalhadores, produtores e consumidores.
Como o governo Lula reagiu ao tarifaço de Trump
- Manteve o Brasil na mesa de negociação. Mesmo diante da ofensiva comercial de Trump, o governo Lula preservou os canais diplomáticos com Washington. Desde julho de 2025, foram realizadas mais de 30 reuniões entre autoridades dos dois países. Em 2026, representantes brasileiros participaram de cinco encontros de alto nível com o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer. O objetivo é tentar reverter ou reduzir as tarifas sem abrir mão dos interesses nacionais.
- Rejeitou as justificativas apresentadas pelos Estados Unidos. Em nota oficial sobre a investigação comercial da Seção 301, o governo afirmou que não há fundamento para a aplicação de medidas unilaterais contra o Brasil. O documento lembra que os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit no comércio de bens e serviços com o país nos últimos 15 anos.
- Preparou ajuda financeira para as empresas atingidas. O governo trabalha em um pacote de crédito e apoio aos setores que perderão competitividade no mercado norte-americano. A prioridade é preservar empregos, garantir capital de giro e evitar que empresas brasileiras reduzam a produção por causa da sobretaxa. As condições deverão considerar o grau de exposição de cada setor ao mercado dos Estados Unidos.
- Acelerou a procura por novos compradores. Outra frente da resposta é a diversificação dos destinos das exportações brasileiras. O governo pretende ajudar as empresas a redirecionar mercadorias para países da Ásia, da Europa, da América Latina e de outras regiões. A medida reduz a dependência do mercado norte-americano e transforma a crise em oportunidade para ampliar as relações comerciais do Brasil.
- Chamou empresários para participar das decisões. Lula e sua equipe abriram uma rodada de conversas com representantes da indústria, do agronegócio e de outros setores afetados. A estratégia, como mostrou a Revista Fórum, aproxima o governo do setor produtivo e permite dimensionar os prejuízos antes da adoção de novas medidas.
- Acionou a Lei da Reciprocidade, mas descartou vingança imediata. O governo iniciou os procedimentos previstos na legislação aprovada por unanimidade pelo Congresso. A lei permite ao Brasil responder a barreiras comerciais impostas por outros países. Alckmin, no entanto, diferenciou reciprocidade de retaliação automática. “Olho por olho pode acontecer de os dois ficarem cegos”, afirmou. Segundo ele, o instrumento deverá ser usado no momento adequado e de forma proporcional.
- Levou a disputa para a Organização Mundial do Comércio. Além das negociações diretas, o governo anunciou que retomará o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio. A iniciativa busca contestar as tarifas dentro das regras multilaterais e reforçar que o Brasil não reconhece como legítima a aplicação unilateral da Seção 301 norte-americana.
- Defendeu o Pix dos ataques de Trump. O sistema brasileiro de pagamentos foi incluído entre os alvos da investigação dos Estados Unidos. O governo respondeu que o Pix é uma infraestrutura pública digital, aberta e segura, responsável pela inclusão de milhões de brasileiros no sistema financeiro. A manifestação também destaca que empresas norte-americanas seguem operando normalmente no mercado brasileiro de pagamentos. A Fórum mostrou como o avanço internacional do Pix ameaça interesses de gigantes financeiras dos Estados Unidos.
- Reforçou o Plano Brasil Soberano. O governo anunciou que os mecanismos de proteção às empresas brasileiras serão ampliados. O plano reúne instrumentos de financiamento, apoio às exportações e preservação da atividade econômica. A orientação é concentrar os recursos nos setores efetivamente atingidos, sem conceder benefícios indiscriminados.
- Transformou o tarifaço em desgaste para Flávio Bolsonaro. A expressão “TariFlávio” ganhou força após a atuação internacional do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato ao Planalto, junto a integrantes do governo Trump. A diplomacia paralela do clã Bolsonaro passou a ser associada à ofensiva comercial contra o Brasil, especialmente após o senador agradecer publicamente a Trump pelo tarifaço de 2025 e buscar interlocução direta com autoridades norte-americanas.
- Expôs a contradição do bolsonarismo. Enquanto Flávio tenta se afastar dos efeitos econômicos da medida, o governo Lula e o Itamaraty passaram a destacar a atuação de políticos brasileiros que estimulam pressões estrangeiras contra o próprio país. A reação pública do Itamaraty elevou o custo político da estratégia bolsonarista e colocou a defesa da soberania nacional no centro da disputa eleitoral.
A resposta do governo Lula, portanto, foi organizada em três frentes principais: crédito e proteção às empresas, abertura de novos mercados e diálogo permanente com os setores produtivos. A Lei da Reciprocidade permanece disponível, mas não será usada de maneira precipitada.
Como destacou Alckmin, o objetivo não é responder à agressão de Trump com uma medida que amplie os danos ao Brasil. A prioridade do Planalto é proteger empregos e empresas, defender o Pix e a soberania nacional e cobrar uma solução negociada para um tarifaço que também passou a pesar sobre o projeto presidencial de Flávio Bolsonaro.
Foto: Ricardo Stuckert
Texto: Diego Feijó de Abreu
Fonte: Revista Fórum