Leia abaixo entrevista concedida pelo ex-ministro Waldir Pires ao jornalista Bob Fernandes e publicada no site Terra Magazine:
Waldir Pires deixou o ministério da Defesa. Agora à tarde, Nelson Jobim toma posse e a transmissão do cargo será amanhã. Em entrevista exclusiva a Terra Magazine, Waldir Pires contou que a conversa com Lula na manhã desta quarta-feira foi “emocionante, de pessoas que se respeitam”, e revelou o que disse ao presidente da República:
– Presidente, há uma sanha para atingi-lo. Novamente se movem para atingir o senhor e seu governo, é a mesma sanha de sempre, e desta vez me usam para este fim.
Pires reafirma que o ministério da Defesa não tem hoje atribuições ou poder para ordenar, controlar o setor aéreo, e diz ter uma preocupação:
– Com essa eleição que não querem terminar nunca, com essa sanha que retorna a cada episódio, ainda que sob o disfarce de crítica a isso ou àquilo, ainda que sob o disfarce das boas intenções. Deixo o ministério honrado, mas me preocupa essa insânia que não aceita a decisão do povo, que não respeita de verdade as instituições democráticas.
Terra Magazine – Ministro, o senhor deixa o ministério…
Waldir Pires – Sim, vínhamos conversando, o presidente e eu, e hoje tivemos uma conversa de meia hora.
Como foi?
Uma conversa tranqüila, carinhosa, emocionante, de pessoas que se respeitam e compreendem o que está em jogo, e devo dizer que diante de tudo o presidente resistiu bastante…
O senhor certamente não me dirá o que disse o presidente, mas eu pergunto o que o senhor disse para ele.
Eu disse: “Presidente, há uma sanha para atingi-lo. Novamente se movem para atingir o senhor e seu governo, é a mesma sanha de sempre, e desta vez me usam para este fim”.
Isso…
Houve uma tragédia, é um momento de dor imensurável das famílias, é um momento de grande dor para todos nós, mas nada disso se leva em consideração. A sanha, o desejo de atingir o presidente e seu governo é o mesmo de sempre.
O senhor era o ministro da Defesa…
Por isso mesmo não tenho atribuição alguma, nem poder algum, sobre o setor aéreo. Isso pode vir a ser modificado, mas hoje o ministro da Defesa não tem atribuição, mecanismos ou poder de atuar nesse setor. Tantos que escrevem e falam sobre isso devem saber disso; se não sabem deveriam saber. O ministro da Defesa não tem tais atribuições. Por isso eu tenho a convicção e a manifestei ao presidente: a verdadeira intenção é atingi-lo, sempre.
Diziam que o senhor…
Diziam que eu tenho 80 anos e que, portanto… eu tenho 80 anos de luta pelo Brasil e de dignidade. Eu tenho 80 anos e há mais de 50 vivo e acompanho essa luta de perto, de dentro. Uma luta para construirmos instituições que tornem a vida do nosso País justa e decente. O Brasil tem uma posição cada vez mais importante no diálogo pela preservação da civilização humana, para o fortalecimento das instituições que construam a paz.
O que o senhor diria ao deixar o ministério da Defesa?
Há hoje um desafio posto para o mundo inteiro, num tempo em que já não há a Guerra Fria, mas não há paz, pelo contrário. Neste cenário, ainda que seja um dos raros países a assinar o compromisso de não utilização de armas atômicas, o Brasil não pode renunciar à conquista das tecnologias mais modernas. Sei que é uma preocupação das Forças Armadas, e preocupação justa, com nossas responsabilidades no Atlântico Sul e com a preservação da Amazônia.
O senhor sai triste?
Como tanto disseram, tenho 80 anos. Lutas se ganham, se perdem, e às vezes não se conclui uma missão, mas as raízes ficam plantadas. Me senti honrado por essa tarefa no outono da minha vida, não a concluí, mas as raízes estão plantadas.
Que preocupação o senhor deixa?
Com essa eleição que não querem terminar nunca, com essa sanha que retorna a cada episódio, ainda que sob o disfarce de crítica a isso ou àquilo, ainda que sob o disfarce das boas intenções. Deixo o ministério honrado, mas me preocupa essa insânia que não aceita a decisão do povo, que não respeita de verdade as instituições democráticas.
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Crise aérea: problema é político
Os problemas que afetam o setor aéreo no Brasil há muito estavam identificados. E só se avolumaram, conformando uma crise, aprofundada por uma grande tragédia, por falta de decisões políticas. Senão, vejamos. Em 5 de abril, escrevi nesta coluna o seguinte:
“A identificação dos dois principais problemas que estão na raiz da crise atual do controle aéreo mostra que eles fazem parte do passado recente, que insistimos em não enterrar. São eles: a falta de recursos para modernização e manutenção do sistema de controle aéreo do país, fruto do contingenciamento do orçamento de maneira linear e burra, e a administração militar dos controladores aéreos. Ou deixamos de lado, definitivamente, a política de contingenciamento sem critérios e sem transparência (…), ou vamos conviver com crises como a dos controladores. Na verdade, crises anunciadas.
Sobre a militarização do setor, a origem do problema é mais geral e, também, mais grave. Está na não- constituição, de fato, do Ministério da Defesa, e na falta de definição, na prática, de uma política de defesa nacional pelo poder civil, incluindo o Congresso Nacional e o Executivo. Agora, é hora de juntar os cacos da crise e retomar o trabalho de planejamento na área da aviação civil e aeroportos.
É preciso desmilitarizar, imediatamente, o controle aéreo e a aviação civil, descontingenciar totalmente o setor e decidir se o país dará ou não concessão à iniciativa privada para construir e administrar aeroportos. Se não for esse o caminho, é preciso alocar recursos para a modernização, expansão de terminais, construção de novas pistas e novos aeroportos, que, na verdade, são mais do que aeroportos, são portos secos, zonas de exportação, distritos industriais”.
Em 6 de julho, voltei ao tema e escrevi, em meu blog: “Não se pode esquecer, também, que o aeroporto de Congonhas está saturado e tem, nos dias de hoje, uma localização inaceitável para um aeroporto, quanto mais para um “hub”, com 44 pousos e decolagens por hora. Cerca de um pouso ou decolagem a cada minuto e meio”.
Dois dias antes, em 4 de julho, também no blog, tinha comentado: “Assim, as conclusões das CPIs, particularmente a do Senado, devem ser olhadas com cuidado para não comprarmos gato por lebre. Ou seja, avaliações políticas por técnicas. Os problemas da aviação civil brasileira, para além da crise provocada pelos controladores de vôo, como os dados demonstram, exigem uma solução global, planejada, que envolva a reorganização da malha aérea nacional, a construção de novos aeroportos, uma nova política tributária e tarifária, com subsídios cruzados para retomar a aviação regional, solução para o problema dos controladores de vôo e equipamentos de controle do espaço aéreo, dos Cindactas.
Acredito que o comportamento das empresas, do governo e dos responsáveis pelo controle do espaço aéreo deve ser o diálogo, o entendimento e a cooperação. E não o de se apegar cada um a seu interesse e esquecer os passageiros e o país. É evidente que algo está muito errado na malha aérea brasileira, no sistema de concorrência, no funcionamento da Anac e do sistema de controle aéreo do país.
É preciso ter coragem para admitir que não podemos continuar com tantos vôos e horas de pico em Congonhas – o crescimento da economia provocou um aumento de 44,5% no tráfego aéreo, com mais de 10,5 milhões de passageiros, só em São Paulo.”
Como vemos, nosso problema não é de diagnóstico e nem técnico, é político. Precisamos de decisões políticas e de gestão de crise, de investimentos e soluções práticas, de projetos e obras. Qualquer que tenha sido a causa do acidente com o Airbus da TAM em Congonhas, nada o justifica. O que se espera, de uma vez por todas, é que se faça uma ampla mudança no setor aéreo civil brasileiro. Soluções tópicas podem até ser necessárias, mas não bastam. O que a sociedade exige, enlutada e indignada, é uma mudança imediata e radical que demonstre a todo Brasil que essa tragédia não ficará impune.
Por José Dirceu, que é ex-ministro-chefe da Casa Civil.
Artigo originalmente publicado no Jornal do Brasil, edição de 26 de julho de 2007.
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