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Por 23:29 Sem categoria

Tropelias do Banco Central e BNDES arruinaram Produto Interno Bruto de 2009

Juro alto e destinação de 77% do investimento para 26 grupos monopolistas estancaram crescimento

Em plena eclosão da crise norte-americana – outubro de 2008 a março de 2009 – o BNDES dirigiu a maior parte dos R$ 26,8 bilhões que liberou no período para apenas 19 monopólios externos, que ficaram com 30,48% dos recursos e 7 monopólios internos, que ficaram com 47,18% dos recursos. Enquanto isso, o investimento caía no conjunto das empresas nacionais, e, como aponta estudo do IPEA, a escalada de juros do BC, iniciada em abril, comprimia a produção.

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Monopólios internos recebem 47% e externos 30% dos recursos do BNDES

Três empresas públicas receberam apenas 3,06% do total liberado no mesmo período

Frequentemente, nas declarações de líderes empresariais brasileiros – sobretudo na área de máquinas e equipamentos, mas também na CNI – temos a sensação de que as empresas nacionais se dividem em duas categorias: aquelas que têm acesso ao BNDES e aquelas que não têm acesso ao BNDES. Mas, se é assim, quais são as empresas que têm acesso ao banco público que foi fundado, exatamente, com a missão de suprir as empresas nacionais de recursos para investir na expansão de sua capacidade produtiva?

Muito poucas. Neste quinto artigo de nossa série sobre os financiamentos do BNDES, consideraremos o total dos recursos liberados entre outubro de 2008 e março de 2009 nas áreas “industrial”, “de infraestrutura” e “de insumos básicos”, tanto sob a forma de operações diretas (empréstimos feitos no próprio BNDES) quanto sob a forma de operações indiretas (empréstimos do BNDES feitos através de um intermediário, um banco credenciado, ou através do Cartão BNDES).

Nesse período, o BNDES liberou, ao todo, R$ 26.857.404.696 (26 bilhões, 857 milhões, 404 mil e 696 reais).

Não é pouco dinheiro. Sobretudo considerando um período de cinco meses. Bem aplicados, isto é, bem distribuídos, esses recursos seriam um fator poderoso para impulsionar a indústria nacional com base no mercado interno, impedindo a contaminação do país pela crise norte-americana, ao manter o crescimento.

PIB

No entanto, não foi isso o que aconteceu. O investimento das empresas foi estrangulado. O bloqueio do crédito, antes que a ação dos bancos públicos se fizesse sentir, os juros altos e a sobrevalorização do real completaram o serviço. Em suma, ao mesmo tempo que nossas exportações eram travadas, a produção para o mercado interno não foi devidamente estimulada. O resultado são as atuais perspectivas para o crescimento em 2009, divulgadas pelo governo, nada animadoras – anuncia-se que o crescimento do PIB poderá ser negativo, ou seja, que poderá haver retrocesso na economia.

Ainda que sejamos partidários decididos do crescimento, ou por isso mesmo, é forçoso reconhecer que estes problemas não são surpreendentes quando descobrimos que 77,66% desses quase 27 bilhões que o BNDES liberou durante o período em que a crise eclodiu nos EUA e espalhou-se pelos países centrais, ficaram com 19 grupos monopolistas estrangeiros e 7 grupos monopolistas internos. Ou seja, 26 grupos, alguns deles entrelaçados, ficaram com quase todos os recursos destinados ao investimento das empresas.

Os empresários nacionais têm, portanto, toda razão. Só não sabíamos – e, provavelmente, nem eles – que os grupos que ficam com o dinheiro do BNDES, dinheiro que tem origem no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) e no Tesouro, eram tão poucos.

Os 19 grupos monopolistas estrangeiros levaram R$ 8.205.910.795 (8 bilhões, 205 milhões, 910 mil e 795 reais), ou 30,48% do total (v. tabela 2).

Os 7 grupos monopolistas internos levaram R$ 12.680.529.701 (12 bilhões, 680 milhões, 529 mil e 701 reais), ou 47,18% do que o BNDES liberou no período (v. tabela 3).

ESTATAIS

Para que o leitor possa fazer uma comparação mais precisa: apenas 3 empresas públicas, estatais, receberam financiamentos do BNDES no mesmo período – a Companhia Mexilhão do Brasil, que é uma subsidiária da Petrobrás, a Copel e a Cemig. As três juntas receberam 3,06% dos recursos (v. Tabela 4).

E, se considerarmos os empréstimos mais importantes (acima de R$ 100 milhões – v. tabela 1) a concentração dos financiamentos do BNDES em poucas empresas e pouquíssimos grupos empresariais é mais lastimável ainda.

Ressaltamos que, ao classificar os grupos monopolistas internos, nós retiramos da categoria todos aqueles que, apesar de sua evidente e sôfrega tendência monopolista, bastante açulada pela atual diretoria do BNDES com sua estúpida e estéril política de formar “multinacionais brasileiras”, são ainda aspirantes a esse duvidoso título. Por isso não foram considerados monopólios os grupos Independência, Bertin, Equipav, Alusa, Tejofran e outros.

Mesmo assim, considerando como monopólios internos apenas àqueles sobre os quais não pairam dúvidas – Votorantim, Odebrecht (só ou em associação com a Andrade Gutierrez), Vale, CSN e CCR – eles levaram quase metade dos recursos emprestados pelo BNDES entre outubro e março. Somente a associação Odebrecht-Andrade Gutierrez para explorar a hidrelétrica de Santo Antônio ficou com 22,84% dos recursos (R$ 6.135.172.400).

[A propósito, o BNDES acaba de anunciar que concedeu R$ 7,2 bilhões para o grupo franco-belga Suez explorar (não se trata meramente de construir, mas de explorar sob concessão) a hidrelétrica de Jirau… Na prática, isso significa que o investimento da multinacional na hidrelétrica será feito com dinheiro do BNDES, isto é, com dinheiro do FAT e do Tesouro, podendo pagar o empréstimo com o que extrair das tarifas da energia que Jirau produzirá. Sim, leitor, é verdade: desse jeito qualquer um constrói hidrelétrica. Resta saber, já que o Estado pagará por tudo, e antecipadamente, por que ele não constrói e explora essa hidrelétrica, ao invés de depender de um grupo estrangeiro notoriamente predador.]

Resumidamente: depois de contemplados os monopólios internos, os externos e distribuído um óbulo para três estatais, restaram pouco mais de 5 bilhões (mais exatamente: R$ 5.145.522.131) para todas as outras empresas do país. A maioria delas (quase todas), evidentemente, não viram a cor desse dinheiro.

Por exemplo, de todas as 4 mil empresas do setor de máquinas e equipamentos, somente a Weg Equipamentos Elétricos S/A e a Weg Automação S/A, ambas, obviamente, do mesmo grupo, conseguiram financiamentos do BNDES no período (ao todo, R$ 266.130.296).

Mais uma vez, como já observamos em artigos anteriores, avultam os financiamentos concedidos a empresas privatizadas, aquelas que não tinham direito a recorrer ao BNDES, e que foram vendidas sob o argumento de que o Estado não tinha recursos para investir nelas.

Só a Vale do Rio Doce levou 9,98% dos recursos liberados pelo BNDES (R$ 2.682.615.740). A CSN versão Steinbruch levou R$ 900.000.000 (3,35%). A Telefónica de Espanha, que açambarcou a Telesp, ficou com R$ 794.294.000 (2,95%), provavelmente como prêmio pela tortura a que submete seus usuários. A Nippon Steel, que se apropriou da Usiminas e da Cosipa, recebeu R$ 695.970.509 (2,59%). A Iberdrola, matilha que assaltou a Coelba, na Bahia, a Cosern, no Rio Grande do Norte, e a Celpe, em Pernambuco, além de ser uma “associada” da Telefónica, pegou R$ 485.090.000 (1,81%) no BNDES. A Isa, que tomou a CTEEP, coube R$ 329.137.380 (1,22%). Já a CCR, que fez a caridade de ocupar as estradas paulistas com pedágios, ficou com R$ 267.353.000 (0,99%). E por falar em pedágios, nem lembremos da Tejofran – que pegou R$ 210.004.838 (0,78%) no BNDES.

Se era para que o Estado passasse a sustentar as mineradoras, siderúrgicas, teles, distribuidoras elétricas e estradas que foram privatizadas, melhor seria que continuasse com elas. Pelo menos os lucros não iriam para Bilbao, Madri ou Tóquio – e as despesas para o BNDES, isto é, para o povo, que além de pagar as tarifas dessas empresas, ainda financia seus nebulosos negócios.

PAC

Fora isso, não há Programa de Aceleração do Crescimento que resista ao desvio por atacado dos recursos destinados ao investimento para alguns tubarões – estrangeiros e nativos. E, como o leitor pode ver nas tabelas desta página, é um desvio sistemático, ideológico (pois o entreguismo real combinado com as fantasias “multinacionais” não passa de uma ideologia, ainda que muito ordinária), isto é, um desvio que nada tem de “técnico”, exceto a técnica de afundar um país.

Por CARLOS LOPES.

AS TABELAS ESTÃO NA EDIÇÃO IMPRESSA DO JORNAL “HORA DO POVO”.

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Ipea: juro alto do BC derrubou PIB do país em dois trimestres

O Instituto aponta que “a economia já começava a sentir os efeitos defasados de uma política monetária contracionista, iniciada em abril de 2008”, quando caiu a demanda e o crédito secou no início da crise externa

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou no dia 2 a Carta de Conjuntura, com análises sobre o nível de atividade econômica, emprego, inflação, finanças públicas, crédito e setor externo. Segundo o órgão, a política monetária conduzida pelo Banco Central foi uma das causas do recuo do Produto Interno Bruto (PIB) ocorrido no país. “A queda do PIB no quarto trimestre de 2008 e no primeiro trimestre de 2009 é um impacto da crise (internacional), mas é também resultado da política monetária implementada pelo Banco Central no início do ano passado”, afirmou o diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, João Sicsú, durante a apresentação do documento.

Ele referiu-se ao fato de que após a Selic ficar congelada no elevadíssimo patamar de 11,25% entre janeiro e março do ano passado, no mês seguinte o BC elevou a taxa básica de juros para 11,75% em abril e para 12,25% em junho. “O normal é que isso tenha impacto sobre a taxa real de crescimento num período de seis a nove meses depois. Então, já era esperada a desaceleração do ritmo de crescimento, independentemente da crise”, disse o economista.

A trajetória ascendente dos juros teve continuidade em julho, quando a Selic saltou para 13% e continuou subindo mesmo com o cassino da especulação já em franco processo de deterioração: no dia 10 de setembro, cinco dias antes do Lehman Brothers beijar a lona, o BC elevou a os juros para 13,75%. Com a crise já instalada no coração do sistema capitalista, somente quatro meses depois, no final de janeiro deste ano, o BC começou a reduzir a taxa Selic e assim mesmo a conta-gotas.

Na Carta de Conjuntura, o Ipea diz que “o primeiro canal de transmissão da crise mundial se deu através da queda abrupta da demanda externa que, associada à interrupção do crédito às operações de comércio exterior, atingiu em cheio o setor exportador da indústria. Neste momento, a economia já começava a sentir os efeitos defasados de uma política monetária contracionista, iniciada em abril de 2008”.

O instituto acrescentou ainda mais um fator que contribuiu para a retração do PIB: “a indústria vinha operando desde o início do segundo semestre daquele ano com um nível de estoques muito acima do planejado”. Assim, “a conjunção destes três fatores levou, então, a uma forte redução do nível de produção, seguida de um ajuste na força de trabalho. Com a diminuição da mão-de-obra empregada, teve início um segundo canal de transmissão da crise, que se deu através da deterioração das expectativas. Com a queda do nível de confiança, tanto dos consumidores quanto dos empresários, a demanda interna se contraiu ainda mais, dando continuidade ao círculo vicioso”.

Na avaliação do Instituto, os três últimos meses de 2008 “foi marcado pela deterioração das expectativas dos agentes econômicos”. Inicialmente, “pela redução das jornadas de trabalho e, posteriormente, pelas demissões, o nível de confiança dos consumidores sofreu forte abalo, o que intensificou a retração da demanda interna”. Como é sabido, imediatamente após a crise se instalar nos Estados Unidos, as filiais das multinacionais – notadamente as montadoras – iniciaram um processo de demissões, férias coletivas e imposições de acordos de redução de salários, mesmo tendo sido contempladas com R$ 8 bilhões em financiamentos públicos, em um primeiro momento, e com redução de IPI, a partir de dezembro.

No primeiro trimestre deste ano, a forte contração no investimento – Formação Bruta de Capital Fixo – foi o principal destaque negativo: recuo de 14,0% em relação ao mesmo período de 2008 e de 12,6% na série com as correções sazonais: “Com isso, a taxa de investimento caiu de 18,5% para 16,6%. O tombo dos investimentos refletiu o fraco desempenho tanto do consumo aparente de máquinas e equipamentos (Came), quanto da construção civil. Enquanto o Came caiu 18,1% no primeiro trimestre, influenciado pela queda da produção e da importação de bens de capital, o setor da construção civil também sofreu forte recuo, registrando variação de –10,3%”.

Por VALDO ALBUQUERQUE.

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