“Uma notícia está chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal, nem na televisão…”
(“Notícias do Brasil”, M. Nascimento e Fernando Brant)
A emoção invadiu os telespectadores que assistiam, pela TV Brasil, no sábado dia 6 de setembro, a Abertura dos Jogos Pára-Olímpicos de Pequim, quando os mais elevados sentimentos humanos afloraram, superaram-se, expandiram-se, multiplicaram-se numa rara sintonia de esperança. E esta emoção pode ter sido tão ampla e tão profunda que, sem pretender, talvez não tenha deixado espaço para uma reflexão necessária sobre televisão e sua missão pública.
Sempre atento às volumosas críticas feitas à TV Brasil, a todas as críticas, inclusive àquelas mais apressadas e impacientes, e também àquelas acertadas e construtivas, arrisco avaliar que a cobertura que a TV Brasil está a fazer desta Pára-Olímpíada, não por comiseração, evidentemente, nos oferece uma oportunidade privilegiada para um balanço acerca da mais nova emissora televisiva brasileira.
Destaca-se, inicialmente, que apenas a TV Brasil realizou a cobertura desta solenidade muito mais que maravilhosa, com o “Bolero de Ravel” entoado naquele Ninho de Pássaros e bailado por centenas e centenas de dançarinos numa harmonia que lembrando a estética grega dos deuses do Olimpo, como a provar que o patrimônio cultural acumulado pela humanidade em sua caminhada de algum modo encontrava um eco ali naquele momento. Era um sinal de convocação para que acreditemos que podemos, sim, extirpar as formas de embrutecimento ainda vigentes nesta etapa histórica, apesar das sombrias nuvens nucleares que ainda pairam como desafios ao gênero humano. Era uma mensagem especial também vinda da própria China que há meio século atrás era conhecida como o país da fome, das doenças e onde mulheres eram compradas nas feiras juntamente com animais. Hoje a China envia naves ao espaço sideral, é o maior produtor mundial de computadores, legalizou e socializou a acupuntura antes clandestina. A TV Brasil mostrou razoavelmente aos brasileiros este misterioso país que utilizou a musicoterapia no salvamento das vítimas do mais recente terremoto! Mas, por que só a TV Brasil democratizou ao povo brasileiro esta informação tão carregada de grandeza, nobreza, e generosidade humanas? Por que as tvs comerciais não democratizaram esta informação monumental? Por que não havia patrocinadores interessados? Por que a TV Globo, que se arvora em emissora de vanguarda em eventos esportivos internacionais, que se auto-elogia em campanhas ditas humanitárias, não viu relevância em retransmitir a Abertura dos Jogos Pára-Olímpicos de Pequim?
Eis aí uma vantagem democrática da TV Brasil: o seu patrocinador é o povo brasileiro, o contribuinte que paga para que ela exista. Assim, transmitir ou não algo de superlativa beleza e simbologia humana não é decidido no departamento comercial, não depende de uma Coca-Cola ou de um banco destes de indecentes privilégios. Depende de uma decisão política sintonizada com o que está determinado na Constituição Federal, no capítulo da Comunicação Social: é obrigação constitucional dos meios de comunicação a elevação cultural, educativa e informativa do povo brasileiro. Neste caso, missão cumprida pela TV Brasil.
Aparentemente, esta retransmissão – que deveria ser reprisada em horário nobre, pois, pelo fuso horário, foi exibida num sábado matinal – não teria tanta importância político-comunicativa como se pretende argumentar aqui. Mas, se lembrarmos da questão dos seres humanos de qualquer nacionalidade com necessidades especiais, do grau de respeito ou não que as sociedades lhes dispensam através de políticas públicas como um indicador de desenvolvimento humano fundamental, aí fica claro o acerto da emissora pública brasileira ao decidir-se por esta comovedora cobertura. Apenas comparando, no dia 8 de agosto, quando da Abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em razão do oligopólio informativo que impera nos EUA, o povo norte-americano não pôde acompanhar aquela solenidade, já que o único oligopólio que dispunha dos direitos de transmissão da mesma preferiu oferecer ampla cobertura à bárbara agressão das tropas da Geórgia, com apoio da Otan, à Ossétia do Sul. Claro, entende-se, não apenas os EUA são um país viciado em guerra, como em qualquer guerra estão em jogo os interesses do complexo militar-industrial norte-americano, denunciado pelo ex-presidente Einsenhower, e representam a primeira economia nos EUA, portanto, são também os principais anunciantes e controladores da mídia local. Fora do controle da lógica rebaixadora do mercado, a TV Brasil pôde demonstrar no episódio estar dotada de missão pública informativa.
OUVIDORIA: SIGA O MEU EXEMPLO?
Há duas semanas a Empresa Brasileira de Comunicação nomeou o novo Ouvidor-Geral da corporação, o jornalista Laurindo Leal, que traz consigo uma trajetória de permanente defesa da comunicação pública, atributo colado à sua reconhecida carreira profissional. Ultrapassando a constatação do acerto da escolha, há uma pergunta obrigatória, feita a partir da própria decisão : por que as emissoras privadas não seguem o exemplo da emissora do campo público? E por que os críticos não se recordam de debater enfaticamente esta cristalina superioridade democrática da TV Brasil ante as demais?
Na verdade, a nomeação do novo Ouvidor-Geral, e a reafirmação deste serviço criado ainda no tempo da Radiobrás, vem reforçar a necessidade de aprofundar o debate sobre as possibilidades concretas que a comunicação no campo público oferece à sociedade e, em linha oposta, a reiterada falta de qualquer sinal democratizador e humanizador nas emissoras do campo privado para qualquer forma de permeabilidade aos cidadãos . Ou seja, o que havia de positivo na antiga Radiobrás é preservado, vale registrar, assim como inclinações liberais alimentadas anteriormente são hoje acertadamente abandonadas. A referência é àquela mal-disfarçada campanha, em sintonia com a visão mercadológica da comunicação, visando a extinção da Voz do Brasil, o que implicaria reduzir papel do estado, deixando ainda mais abandonada e sem informação plural e pública a esmagadora maioria dos brasileiros que não pode ainda hoje, embora estejamos no século XXI, ter acesso a uma tecnologia do século XVI, a velha e boa imprensa de Guttemberg. Uma vez mais, a EBC comprova estar dotada de missão pública. Assim, a Voz do Brasil deve continuar chegando aos grotões, à Coromandel do clarinetista genial Abel Ferreira, à Barreirinha do amazônico poeta Tiago de Mello, aos conventos da Madre Cristina, todos eles assíduos ouvintes durante anos do programa que liga o poder público ao povão, quando a mídia privada quer apenas ligar o povão ao mercado, ao consumo, extinguindo as políticas públicas, dissolvendo a presença do estado.
Também chama atenção o silêncio daqueles críticos mais apressados que atuaram vivamente no nascedouro da TV Brasil mas que agora, quando há pouco o Conselho Curador da EBC analisou o caso do jornalista Rui Lobo, não avaliaram os vários desdobramentos que o episódio encerra. A composição do órgão já demonstrava por si só os conhecidos compromissos do presidente Lula para com a pluralidade informativa e a democracia. Foi especialmente dos setores mais à esquerda – espectro em que Lula ligou sua trajetória política e à qual ainda mantém-se vinculado – que vieram as críticas mais impacientes. É notória a representação minoritária da esquerda naquele organismo, assim como, em razão de ter uma eclética composição, com a presença de personalidades de pensamento tido como conservador. Esta combinação de fatores tornou impossível aos segmentos mais conservadores da sociedade, ao poder econômico sempre crítico a qualquer forma de comunicação que não seja tiranicamente controlada pelo mercado escravizado pelos cartéis, a realização de qualquer crítica mais consistente à TV Brasil. Especialmente quando aquele Conselho heterogêneo, após realizar monitoramento detalhado do noticiário transmitido, julgou descabida e sem comprovação material a acusação feita pelo jornalista mencionado de que há favorecimento governamental nos informativos da emissora, fazendo eco àquela idéia da mídia comercial que batizara a TV Brasil de TV Lula. Vale indagar: que outra emissora privada possui um conselho composto por personalidades que reflitam os mais diferentes espectros e segmentos da sociedade brasileira? Sendo justo registrar que esta composição é incompleta, que pode ser aperfeiçoada, esta crítica deve ser feita a partir da constatação de ser a TV Brasil a emissora que possui hoje o maior grau de permeabilidade aos cidadãos no panorama televisivo brasileiro.
Continua na próxima edição.
Por BETO ALMEIDA, que é jornalista e presidente da TV Comunitária de Brasília.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.horadopovo.com.br.