“A imaginação a serviço do Brasil”
Talvez nem fosse necessário este destaque se aquele momento do nascedouro da EBC-TV Brasil não tivesse sido palco de muitas críticas impressionistas e descontextualizadas, depois renovadas quando da demissão do anterior Diretor-Geral, quando muitos chegaram a vaticinar que o projeto da emissora pública havia gorado. Não é o que se constata. É preciso mesmo recordar que a decisão política de construir uma empresa pública de comunicação comprova, uma vez mais, a sensibilidade e o compromisso do presidente Lula com a causa da democratização da comunicação, apesar do ritmo lento em que se registram as mudanças nesta área excepcionalmente sensível e explosiva politicamente nos tempos modernos. Recordemos que em 2002, o Partido dos Trabalhadores realizou um Seminário Nacional de Comunicação e Cultura, desdobrado em 5 seminários por região e concluído neste evento nacional em Belo Horizonte, em julho, quando se aprovou o texto “A Imaginação a Serviço do Brasil”, entregue por personalidades do mundo intelectual e artístico ao candidato Lula, que o assumiu como plataforma programática específica durante a campanha presidencial.
Neste documento constava exatamente a recomendação para que se criasse uma emissora pública de comunicação, inclusive com a indicação de que a fusão entre a Radiobrás e a TVE deveria servir de base para futura TV de natureza pública. A aprovação deste documento no Seminário petista até motivou raivosa crítica por parte do colunista Diogo Mainardi, que, coerente com linha editorial anti-nacional da Veja, acusou o documento de estatizante e a um de seus redatores nominalmente de “bolchevique-caipira”.
O importante é notar que o Presidente ouve sim o que se elabora nos segmentos organizados – é este o principal gen de sua personalidade política – nos fóruns dos lutadores sociais, e que a decisão adotada mais tarde de submeter ao Congresso Nacional a criação de uma empresa pública de comunicação, originou-se sim de debate democrático, de todo um conjunto de lutas sociais acumuladas durante anos, mais tarde renovado na realização do Fórum Nacional de TVs Públicas.
A conclusão é que a TV Brasil é a única emissora de TV aberta que nasce com o respaldo do congresso nacional – ou não é a medida provisória um instrumento aprovado na Constituição Federal ? – quando todas as demais emanam de conchavos políticos acobertados pelas sombras indevassáveis da ditadura militar, especialmente a TV Globo, cujo nascedouro emana do golpe militar de 1964 em conluio com intervenção do capital estrangeiro, numa ação ilegal direta do grupo Time-Life.
O RESGATE DE UMA DÍVIDA INFORMATIVO-CULTURAL
“O Sertão de Glauber”, “O Velho – a história de Luiz Carlos Prestes” e “Conversações com Milton Santos”, ”A guerra do gás na Bolívia” e ”O nascimento do cinema em Moçambique”, filmes recentemente exibidos pela TV Brasil, são apenas alguns dos exemplos a serem citados para demonstrar que há um considerável esforço, com raros paralelos na TV aberta brasileira atual, para saldar aquela gigantesca dívida informativo-cultural acumulada contra o povo brasileiro ao longo de décadas. Além de uma programação que não viola a Constituição – o que não ocorre com a programação da mídia comercial -, a TV Brasil já pode afirmar que em 10 meses de existência exibiu um volume de produção audiovisual nacional que nenhuma outra emissora o fez ao longo de décadas. Vale lembrar: o cinema brasileiro é virtualmente clandestino hoje no Brasil! Exibe-se, na TV Brasil, praticamente um filme brasileiro, longa ou curta, por dia. Há emissoras de TV aberta no Brasil que não exibem um filme brasileiro sequer por ano….
Os programas jornalísticos, os debates de estúdio, são sempre marcados pela pluralidade de opiniões e posições, o que contrasta radicalmente com a unilateralidade e não-diversidade que caracterizam o jornalismo da mídia privada, que, em muitos momentos, adquire mesmo tom de campanha contra o presidente da república. Este, mesmo depois de ter “pago para apanhar” por mais de 5 anos, por meio de verbas publicitárias distribuídas generosamente a estes grandes conglomerados midiáticos, continua registrando uma elevação constante de sua popularidade, o que transforma os espaços editoriais desta mesma mídia em verdadeiras sessões de desespero, talvez pela proximidade da abertura das novas urnas, onde o povo dirá o que pensa sobre os aliados políticos do presidente que se candidatam hoje às eleições municipais e os votos populares terão que virar notícia novamente.
APARTHEID AUDIOVISUAL
“Muito que andar por aí” , diria o Gonzaguinha, e serve para caracterizar o tanto que falta fazer. Mas, estas tarefas não são unilaterais. Cabe à direção da EBC empreender toda sorte de iniciativas no campo político para vencer as inúmeras barreiras que permanecem não transpostas ainda, sem o que as emissoras públicas que a conformam não conseguirão atingir as metas fundamentais previstas naquele importante pronunciamento de Lula no I Fórum Nacional de TVs Públicas, quando lembrava que o povo pobre, o povo trabalhador, os jovens pobres, devem ter o direito de uma comunicação que informe, que eleve-os culturalmente, que seja educativa, que seja plural, rica em debates inteligentes e democráticos, o que não se vê grosso modo em qualquer uma das emissoras comerciais hoje.
Mas, para isso, o sinal tem que chegar lá nos grotões! E o sinal da TV Nacional não chega nem ali no final da Asa Norte em Brasília, e comprar uma assinatura de TV a cabo para assistir a TV Brasil é algo economicamente proibido para a grande maioria do povo brasileiro, embora alguns segmentos do movimento de democratização da comunicação ainda insistam fanaticamente em afirmar o contrário, ignorando o cruel apartheid audiovisual existente hoje na comunicação brasileira. especialmente na TV paga… E com riscos de piorar caso seja aprovado o PL 29, que desnacionaliza radicalmente o audiovisual, relatado por um deputado sintonizado com os oligopólios telefônicos internacionais, com apoio de alguns laboratórios comunicacionais que, apesar de situados nas universidades públicas, favorecem a estes interesses privados internacionais, aos quais, não por ingenuidade, chamam de novos atores.
Por BETO ALMEIDA, que é jornalista e presidente da TV Comunitária de Brasília.
Continua na próxima edição.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.horadopovo.com.br.