O costume de homenagear os mortos sempre esteve presente na cultura ocidental. São inúmeros os casos em que o mito é utilizado como símbolo de determinada luta ou causa, se sobrepondo ao contexto histórico do fato e tornando, por vezes, o personagem mais importante do que os fatos. Assim, temos um número significativo de datas históricas que são lembradas mais por seus mártires do que por seu conteúdo.
O costume foi assimilado pelas forças políticas socialistas e populares. É comum que celebremos as datas das mortes dos heróis símbolos de nossas lutas, como fazemos em outubro, por exemplo, com Ernesto Che Guevara. Assim, de certo modo, conseguimos praticar o culto à memória de lutadores populares a quem devemos nossas referências históricas e políticas mais importantes.
O dia 20 de novembro é celebrado como o Dia Nacional da Consciência Negra em homenagem a Zumbi dos Palmares, que foi assassinado nessa data em 1695, e ocupa o lugar da antiga comemoração da data da Abolição da Escravatura (13 de maio), que homenageava a Princesa Isabel, tida como “a redentora” e que pouco significava para os afro-brasileiros.
A morte de Zumbi dos Palmares significou, historicamente, a destruição de uma experiência de organização social e política que ainda carece de estudos mais profundos. O assassinato encerrou um período de resistência e de auto-afirmação de um povo que teve a ousadia de se organizar de forma diferente do que determinava a hegemonia política e econômica da época.
Durante todo o século XVII, no espaço geográfico compreendido entre a margem norte do rio São Francisco, em Alagoas e as proximidades do Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, existiu a República dos Palmares. Organizada de maneira democrática, Palmares tinha uma população de negros, índios, brancos e mestiços que chegou a reunir dezenas de milhares de pessoas, organizados em vilas e com produção própria de alimentos e bens de consumo.
A simples existência da República dos Palmares ameaçava a ordem colonial vigente e o regime de propriedade de terras e, por isso, durante todo o século XVII foram feitas diversas expedições à região em que se localizava Palmares com o objetivo de exterminar o que era qualificado pelo poder colonial como um “agrupamento rebelde”.
Essas expedições, contudo, não tiveram sucesso imediato em destruir aquela que pode ser considerada a primeira experiência libertária do Brasil. As expedições de guerra conseguiram, entretanto, alguns resultados parciais em favor da coroa portuguesa.
Os governantes palmarinos, em meio à guerra, ainda tiveram a petulância de negociar sua sobrevivência como Nação. Acordos parciais com autoridades ligadas à coroa portuguesa e com proprietários rurais da região garantiram por certo tempo, a existência da República de Palmares.
O desenvolvimento da guerra e a continuidade das incursões destinadas a destruir a experiência libertária de Palmares resultaram no rompimento dos acordos e na substituição pela própria comunidade dos líderes favoráveis à negociação. A realidade da guerra se impôs por iniciativa da coroa portuguesa e dos proprietários de terras que foram os principais financiadores das expedições destinadas a destruir Palmares.
A data de 20 de novembro, que celebra Zumbi dos Palmares, deve servir de momento de reflexão sobre a urgância de recuperarmos o sentido e o conteúdo da experiência libertária que durou praticamente todo o século XVII e de passarmos a celebrar, também, a existência da República dos Palmares como algo positivo para os afro-brasileiros e para toda a população de nosso país.
Seria legítimo, por exemplo, instituir oficialmente uma data comemorativa do aniversário da fundação de Palmares. Isso não prejudicaria a celebração da data da morte de Zumbi dos Palmares. Seria uma homenagem especial ao nosso herói mais importante, na medida em que destacaria a origem da experiência que resultou em seu assassinato. A instituição da data comemorativa seria a celebração do modo de vida libertário e igualitário praticado na República dos Palmares, derrotado pela guerra que matou Zumbi, mas vivo e presente na memória e na história de todos nós.
Por José Claudio de Paula, que é jornalista.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.pt.org.br.