O comércio de negros e a escravidão começaram no Haiti. Logo depois de descobrir a América, Cristóvão Colombo foi atrás do ouro do Haiti, a terça parte ocidental da Ilha La Hispaniola, assim batizada por Colombo. Os outros dois terços da ilha pertencem à República Dominicana, um dos destinos mais comuns de haitianos, já que é mais estável economicamente e com alta demanda de mão-de-obra. Assim, homens, mulheres e até crianças haitianas, segundo números da Unicef cerca de 3 mil meninas e meninos cruzam a fronteira entre Haiti e a República Dominicana. Até o Ministério do Trabalho dominicano acredita existir entre 25 e 30 mil crianças haitianas trabalhando em atividades agrícolas.

Esse é só um dos inúmeros aspectos que levam o povo haitiano a uma diáspora surpreendente tanto em números quanto em razões. Por exemplo: 80% da população vive abaixo da linha da pobreza, a expectativa de vida é de 52 anos, dois terços da população não estão incorporados à economia formal e a taxa de mortalidade infantil é de 120 em cada 1000 nascidos, segundo dados da Unesco de 2005. Mas é importante ressaltar que no Haiti não há recenseamento há décadas, já que não existem estradas suficientes e todo serviço público, postos de saúde e escolas são insuficientes para atender toda a população. Os meios de comunicação e transporte são precários e boa parte da população rural fica isolada. Para essa gente, a OMS (Organização Mundial da Saúde) diz ser arriscado mandar médicos(as) e enfermeiros(as), não obstante, e sem fazer alarde, há muitos médicos cubanos vivendo no Haiti com e como vivem as comunidades por eles assistidas.

“A história é irreversível”, assim escreveu Otto Maria Carpeaux no prefácio de “O Século das Luzes”, fábula maravilhosa do cubano Alejo Carpentier – que viria a escrever a saga de um ditador haitiano em “O Reino deste Mundo” – sobre a Revolução Francesa em pleno Caribe. O Haiti rompeu mais de 10 mil anos de opressão ao povo negro, não só quando Toussaint L´Ouverture, um dos líderes da Revolução Haitiana, venceu o poderoso exército de Napoleão Bonaparte e expulsou os franceses latifundiários; mas ao ser capaz de transformar as idéias iluministas de “liberdade, igualdade e fraternidade” em algo muito maior. O Haiti não foi só o primeiro país da América Latina a se tornar independente em 1804, como foi palco da primeira revolução negra popular anti-escravagista e anti-colonialista da humanidade.

Os negros que vieram de muitos cantos da África, irmanados pelo mesmo contingente humano do nosso povo brasileiro, forjaram as bases de uma identidade própria com o sincretismo de muitas culturas reunidas nos rituais do vodu e a construção de uma língua que os senhores não entendiam: o kreyòl – derivada do francês com estrutura fon e elementos de ioruba, línguas africanas. Estes foram os elementos catalizadores da resistência à opressão branca e exploradora, que tanto terror causou nos territórios vizinhos, onde (trecho de Século das Luzes) “fechavam-se janelas aos gritos de que os negros teriam se revoltado, imitando o exemplo dos do Haiti”. Ainda que Alexandre Petión, um dos líderes haitianos, tenha enviado soldados para ajudar Simon Bolívar na independência da Gran Colombia, atuais Equador, Colômbia e Venezuela.

Tamanha ousadia custou o mais extenso e imoral embargo econômico de que se tem registro na história contemporânea. Os haitianos, em primeiro lugar, eram tidos como “pretinhos incapazes” e para poderem negociar com outros países, pagaram uma indenização imoral exigida pelos franceses, em virtude das perdas de terras e escravos. No total, foram pagos 150 milhões de francos/ouro à França, fora o que ela lucrou com a venda de açúcar, escravos, extração de todo o ouro e madeira da região. Esse valor corrigido representa quase 22 bilhões de dólares, dinheiro suficiente para se começar a reconstrução do país. E foi isso o que disse o ex-presidente haitiano Jean Bertrand Aristide, que exigiu em 2004, ano do bicentenário da independência haitiana, a devolução deste dinheiro. No mesmo ano, Aristide foi deposto por tropas estadunidenses e a ONU justificava, sob a chancela de paz, uma intervenção militar estrangeira, enquanto o povo exigia sua soberania de volta.

A miséria do Haiti é o resultado da aplicação do neoliberalismo selvagem que a partir dos anos 80, seguiu as diretrizes do “Plano Americano para o Haiti”, que consta dos Documentos de Santa Fé, ratificados por Ronald Reagan para políticas a serem empregadas na América Latina durante a Guerra Fria. O plano foi um documento bastante difundido na época e é exposto pelo economista haitiano Fritz Deshommes no livro: Haiti, une nation écartelée entre le plan américain et le projet national” . Ed Cahiers Universitaires, Port-au-Prince 2006. Nele, Deshommes disseca cada um dos quatro pilares da atuação estadunidense no Haiti.

O primeiro objetivo era combater o comunismo e a Teologia da Libertação – por isso, vale lembrar que o presidente Jean-Bertrand Aristide eleito democraticamente e deposto pelas tropas estadunidenses em 2004, era padre e participou da resistência popular que deu fim à ditadura dos Duvalier. O segundo: a repressão dos movimentos e insurgências populares pelas forças armadas. O terceiro: a desestruturação dos movimentos populares e sindicatos, quando se adota o terror como instrumento de coerção social e hoje todo trabalhador que é sindicalizado, é perseguido. O quarto: privatizar as empresas estatais, maiores geradoras de empregos no país até então, toda a indústria e as usinas que respondiam pelo abastecimento de farinha de trigo, óleo comestível, cimento e até o açúcar foram aniquiladas. Por fim, a produção nacional de arroz, frango, leite sucumbiu. Até a criação de porcos foi exterminada, a mando do então presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, e fez com que muita gente do campo caísse nos cordões de miséria urbanos. O próprio New York Times aponta os Estados Unidos como grande responsável pela decadência econômica e política do Haiti (“O papel dos EUA no Caos Haitiano”, artigo do jornal New York Times traduzido e publicado no O Estado de S. Paulo, caderno internacional de 30 de janeiro de 2006.

Hoje, o Haiti importa 100% do açúcar que consome e se tornou dependente ao extremo dos empréstimos e de resgates financeiros internacionais até definhar por completo, à medida em que a máquina estatal, utilizada para enriquecimento próprio, cumpria as exigências do FMI. Já a tão comentada dívida externa – que o BID, em recente relatório publicado pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), pensa em perdoar – é paga pelos trabalhadores pobres que pedem crédito aos bancos nacionais e enchem os cofres internacionais e os bolsos de uma elite retrógrada. Elite esta que vive bem em Miami, que foi conivente com a dinastia dos Duvalier, que se estendeu de 1957 a 1986, época em que os Tonton-macoutes, a polícia política, matavam a população haitiana a sangue frio.

François Duvalier, o Papa Doc, e seu filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, enriquecerem sobremaneira a custa dos haitianos, que – hoje representados por entidades nacionais e ONGs – conseguiram congelar uma conta milionária de Baby Doc na Suíça, forçando o sistema financeiro suíço a devolver o dinheiro ao povo haitiano.

Enquanto isso, a burguesia haitiana ganha em dólares e paga os trabalhadores em gourdes, a moeda local (1 dólar vale aproximadamente 35 gourdes, mais do que muitos têm para sobreviver) e contribui para o crescimento do êxodo haitiano. Os direitos trabalhistas são pisoteados, e o fluxo migratório cresce a cada dia. Esse deslocamento geográfico é conveniente para a dispersão das lutas internas e sobretudo para servir como mão-de-obra barata nas zonas francas, em tecelagens sobretudo, cravadas no Caribe, América Central (assim como na África e Ásia, onde há abusos de trabalho escravo, infantil etc). Os haitianos representam a massa trabalhadora mais desvalorizada de todo o continente.

A primeira grande leva migratória foi de gente de classe-média que se fixou em Nova York, no Canadá fugindo da ditadura dos Duvalier. Entre os anos de 1957 e 1982, o Serviço de Imigração e Naturalização dos Estados Unidos calcula que mais de 55.000 haitianos pediram asilo.
Já nos anos 70 e 80, esses haitianos são substituídos pelos conhecidos “boat people”, gente do campo e das periferias, na maioria analfabetos, que lota barcos e cruza 1000 km de mar bravio do Haiti rumo à Flórida. Segundo a ONU, mais de um milhão de pessoas deixaram o Haiti nessa época.

Em Miami há uma comunidade conhecida, assim como a “Little Havana” dos cubanos: a “Little Haiti”, congrega algumas quadras onde galos de briga são soltos, há lojas com artigos de vodu e a maioria de seus integrantes realizada serviços braçais: são garis, domésticas, que ganham em média 5 dólares por hora, o que gera um rendimento anual de 14 a 18 mil por casal, boa parte desse dinheiro vai para suas famílias no Haiti.

Aliás, os haitianos dos EUA, Canadá, França e República Dominicana, cerca de 2 milhões aproximadamente, enviam para o Haiti o equivalente a 25% do PIB, ou seja US$ 4 bilhões anualmente, segundo dados do jornal Miami Herald. Se se pensar que não há salário mínimo no Haiti e que a renda per capita não alcança 300 dólares, muitos resolvem partir.

Quanto aos que ficam e resistem na zona rural e nas grandes cidades – como a comunidade de Cité Soleil, com mais de 20.000 pessoas – têm que viver sob a mira constante dos capacetes azuis da Minustah e da corrupta PNH (Polícia Nacional Haitiana), que têm o apoio das elites haitianas. As verdadeiras chacinas promovidas são tratadas pela imprensa “oficial” como guerra à delinqüência e ao narco.

Segundo uma pesquisa publicada pela revista britânica de medicina The Lancet: as forças de segurança – dentre as quais se inclui a missão da ONU liderada pelo Brasil – cometeram um em cada cinco homicídios na capital haitiana. E cerca de 14% dos casos de abuso sexual – 35 mil no total, que incluem os 32 mil casos de estupro – foram cometidos por membros da polícia haitiana ou por outras forças de segurança, enquanto 10% das situações envolveram grupos armados anti-Aristide. Há um ditado haitiano que explica bem isso: Se sou chen mèg yo wè pis”, que em kreyòl significa: “enxergam-se pulgas nos cachorros magros”, ou seja, é uma maneira de dizer que só se fala da sujeira dos pobres, enquanto a dos ricos se esconde.

Assolado pela Aids e pelo narcotráfico, é testemunha dos contínuos fracassos de resgate econômico e reestruturação social e não tem o que comer. Até os trabalhadores das zonas francas passam o dia sem comer. Aliás, quem come uma vez por dia no Haiti não pode, dentro das circunstâncias internas, ser considerado pobre.

Recentemente, o mundo inteiro viu os desastres causados pelo furacão Dean, mas pouco se falou do país onde mais pessoas morreram, aliás qual foi o país mais afetado? O Haiti, o mesmo país que aguarda desde 2005 os US$ 1.300 bilhões arrecadados pela ONU para, em tese, serem destinados à reconstrução do país e, após a passagem dos furacões que varrem seu território ano após ano, à ajuda humanitária. Onde está esse dinheiro? Os EUA nem se justificam, a ONU diz que ser o país ainda muito instável e temer pelo desvio de dinheiro. Enquanto isso, o presidente René Préval pede à comunidade internacional, em nome do povo haitiano, que envie técnicos, médicos, educadores e não tropas.
O “grave problema” do desvio desse dinheiro certamente nada tem a ver com o povo haitiano, mas com um jogo sujo de interesses que nos leva a um ponto muito contundente: o Haiti está entre Cuba e a Venezuela, portanto no meio do epicentro – que agora conta com uma Nicarágua teoricamente restaurada – de uma grande resistência política aos Estados Unidos. Por isso, convém ao jogo internacional impingir a este país a pecha de miserável, embora grupos de resistência camponesa como o Tèt Kole (em kreyòl: Cabeça Colada, na cultura haitiana significa solidariedade até o fim, irmandade), sindicalista como o Batay Ouvrye (Batalha Aberta) e tantos outros nos fazem refletir sobre a condição humana não só na América Latina, mas em todo o mundo.
Projetos de desenvolvimento sustentável para o Haiti
O Projeto Vacas de Leite para a população carente da região de Pilate, uma das mais afetadas pela passagem de furacões, visa garantir uma reserva mínima de proteína às crianças e mães da região. Por ser um projeto piloto, o Comitê o desenvolveu a partir da idéia de revertar a renda obtida com vendas de arte e artesanato da região em materiais, animais e recursos para sua concretização. Contamos com a parceria de mais três entidades haitianas: o Papda (Plataforma Haitiana por um Desenvolvimento Alternativo), Tèt Kole (organização camponesa) e a sede regional da Congregação Santa Cruz, inclinada à Teologia da Libertação. Para mais informações, escreva-nos:
prohaiti@gmail.com

Por Paula Skromov, que é radialista e integrante do Comitê Pró-Haiti Brasil.

ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.carosamigos.com.br.

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