Notícias recentes da imprensa especializada apontam para iniciativas de sindicatos metalúrgicos, tanto patronais quanto de trabalhadores, dispostos a propor à presidenta Dilma a equalização salarial da categoria para todo o país. Esta teria por base o piso salarial praticado na indústria metalúrgica paulista e deveria ser associada a medidas para impedir a entrada de manufaturados importados da China e a instalação de fábricas chinesas em áreas produtivas nacionais já assoberbadas.
Aparentemente, parecemos estar diante de uma proposta avançada, em que se combinam os interesses de melhoria salarial dos trabalhadores das demais regiões do Brasil com os interesses da indústria nacional para enfrentar a concorrência chinesa. Mas, na realidade, nos defrontamos com uma verdadeira malandragem multinacional.
Suponhamos que o piso salarial dos metalúrgicos paulistas seja estendido a todos os trabalhadores brasileiros. Se isto só tivesse como resultado a melhoria salarial, seria o melhor dos mundos. No entanto, com estágios diferentes de desenvolvimento industrial, de custos de alimentos, matérias primas e logística, várias das outras regiões do Brasil vão perder aquilo que alguns costumam chamar de vantagens comparativas.
Nessas condições, a tendência dessa equalização salarial poderá ser a transferência de capitais, indústrias e também trabalhadores para São Paulo, esvaziando o atual processo de industrialização, pelo menos do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O que aparece como uma proposta progressista pode se transformar, com relativa rapidez, no mesmo processo que causou os desequilíbrios históricos entre o Sudeste, especialmente São Paulo, e as demais regiões do país.
O pior da proposta, porém, talvez não seja isso. Os sindicatos patronais das outras regiões vão chiar e os patronais paulistas devem estar prontos para recuar ao primeiro grito. Simplesmente porque o que as metalúrgicas paulistas querem, em especial as automobilísticas – que só têm de nacional o fato de estarem localizadas no território brasileiro e terem trabalhadores dessa nacionalidade -, é evitar que os chineses imponham a elas a famosa competição de mercado.
A proposta de equalização salarial não passa de isca, ou boi de piranha, para contar com o apoio dos trabalhadores e com o beneplácito de petistas desavisados. As multinacionais automobilísticas estavam acostumadas a praticar preços administrados e concorrerem entre si dentro de determinados parâmetros de lucratividade. A coisa era tão boa que a GM Brasil se deu ao luxo de socorrer sua matriz, em crise nos Estados Unidos.
A simples entrada de duas montadoras chinesas, a Chery e a JAC, já balançou todos os valores e está obrigando as multinacionais a rebaixarem preços e, portanto, suas margens de rentabilidade. O que é bom para os consumidores e para o controle de inflação. E não consta que essas importações devam causar o propalado fenômeno da desindustrialização. Mesmo porque os chineses estão considerando essa entrada como o primeiro passo para instalar plantas de produção no Brasil, na expectativa de manter seus preços competitivos.
Aliás, a esmagadora maioria dos investimentos chineses direcionados para o Brasil não vai para a especulação de curto prazo, mas para a instalação de fábricas. Portanto, fazem parte dos chamados investimentos diretos, voltados para a industrialização do Brasil.
A Sinopec e a Sinochen investiram alguns bilhões de dólares para participarem da exploração e produção de petróleo e gás, além da construção de gasodutos e outras instalações industriais. A XCMG, a Liugong, a Sany e a Zoomlion, as maiores empresas chinesas de fabricação de máquinas pesadas, também estão investindo alguns bilhões de dólares na implantação de fábricas, em Minas e São Paulo, para a produção de equipamentos que até então não possuíam similares brasileiros.
Outras empresas chinesas estão investindo em áreas diferentes dessas, mas sempre na perspectiva de fabricação no Brasil. Isso vai forçar outras empresas estrangeiras a investirem no Brasil, ao mesmo tempo em que podem incentivar os capitais nacionais a também se disporem a investir na produção, ao invés de ficarem atrelados à jogatina do mercado da especulação financeira.
Se esse processo se combinar com a queda dos juros e com o ajuste do câmbio, o Brasil estará entrando muito rapidamente na rota de uma nova industrialização, desmentindo aqueles que vivem alardeando que entramos numa desindustrialização sem volta. E as multinacionais terão que se reestruturar para enfrentar o ambiente, que vivem propagando em teoria, mas não gostam de praticar: o da concorrência ou competição, no qual vende quem tem o mesmo tipo de produto, mas preço menor. O que, de imediato, pode elevar o salário real dos trabalhadores.
Por Wladimir Pomar, que é escritor e analista político.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.correiocidadanai.com.br
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Brasil-China: dificuldades
Por Milton Lourenço, de São Paulo
Se a China tem os seus objetivos, o Brasil tem interesses a preservar. E não pode ficar refém de outro país.
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A visita da presidente Dilma Rousseff a China em abril teve por objetivo tentar colocar nos eixos algumas diferenças que persistiam no relacionamento comercial entre os dois países. É indiscutível que o Brasil tem crescido, apesar de muitos obstáculos internos, mas principalmente por causa da estabilidade macroeconômica alcançada e, principalmente, por ter sido beneficiado por um forte crescimento global, promovido, sobretudo, pela China. Diante disso, nada mais justo que o governo procure preservar e estimular esse relacionamento comercial com os chineses.
Isso não significa, porém, que o país tenha de se abrir completamente aos anseios chineses, sem receber nada em troca. É preciso encontrar um ponto de equilíbrio, pois o relacionamento só será justo e produtivo se ambas as partes saírem ganhando. Do lado brasileiro, é justa a preocupação da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) com o avanço muito rápido de máquinas e equipamentos chineses no mercado brasileiro, que começa a destruir a estrutura industrial do país. Basta ver que o déficit comercial do setor, de US$ 15,7 bilhões em 2010, deve dobrar e atingir US$ 30 bilhões até o final do ano. E, se em 2004 as indústrias nacionais do setor dominavam 60% do faturamento do mercado, hoje já são minoritárias e detêm 40%.
País em franco crescimento, a China é hoje o principal destino das exportações brasileiras de minério de ferro, soja e petróleo. Ou seja, commodities. Por isso, é fundamental que a China venha também a comprar produtos industrializados, aumentando o valor agregado de sua pauta. No entanto, o país asiático enfrenta obstáculos que são levantados pela própria estrutura do Brasil hoje: diferenças cambiais, alta carga tributária e infraestrutura precária que encarecem sobremaneira os produtos brasileiros. E, se o Brasil não fizer a sua lição de casa, nada haverá que possa convencer os chineses a comprar produtos de que não precisam e a preços pouco atraentes.
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Portanto, se o atual governo, em seu início de trabalho, não aproveitar este momento para fazer a tão reivindicada reforma tributária, com o apoio do Congresso Nacional, o Brasil continuará a crescer, é verdade, podendo chegar neste ano a um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 2,4 trilhões, colocando-se entre as seis maiores economias do mundo, mas estará condenado a se tornar um exportador de produtos de baixa competitividade baseada no conhecimento e na tecnologia.
Ora, esse é justamente o caminho inverso percorrido pela China desde a década de 1980. E que a está levando a assumir-se como uma das maiores economias do planeta. É um modelo que aposta na exportação de produtos com valor agregado. Se o Brasil segue na direção contrária, é claro que o futuro se afigura preocupante. E não é preciso olhar tão longe: neste ano mesmo, se continuarem a cair os embarques de produtos de alta tecnologia nacional, há o risco de o país não apresentar superávit na balança comercial.
Para piorar, no relacionamento Brasil-China, há a questão da “triangulação”, operação tecnicamente denominada “circunvenção”, que vem prejudicando sensivelmente a indústria brasileira. Fabricantes chineses costumam fraudar certificados de origem do produto para escapar da punição por dumping, ou seja, por venda ao exterior a preço inferior ao praticado no mercado interno, chegando os produtos ao Brasil como se tivessem sido fabricados em países como Taiwan, Vietnã, Malásia, Indonésia e outros.
Como as medidas adotadas desde 2008 contra essa prática têm se mostrado ineficazes porque a ação repressiva da fiscalização é sempre demorada, não se sabe se o governo chinês tem algum interesse em impedir os seus fabricantes de continuarem a recorrer a esse expediente.
Portanto, a visita da presidente foi marcada por questões extremamente delicadas e que, dificilmente, foram bem acolhidas pelo lado chinês. Também não se sabe se a presidente conseguiu convencer as autoridades chinesas a diversificar suas importações do Brasil e a investir no país em infraestrutura e setores de alto valor agregado. Até porque a pretensão esbarra na alta demanda chinesa por recursos naturais. De qualquer forma, se a China tem os seus objetivos, o Brasil tem interesses a preservar. E não pode ficar refém de outro país.
Seja como for, é forçoso admitir que essa situação embaraçosa foi criada pelo governo anterior, ao privilegiar suas relações com a China, em detrimento do mercado norte-americano. Basta ver que, nos últimos oito anos, nenhuma missão brasileira foi organizada para vender produtos aos EUA. O resultado disso é que a participação norte-americana nas exportações brasileiras recuou de 25,5% em 2002 para 9,5% em 2010. E que a balança com aquele país, superavitária até 2008, ficou negativa em 2010 em US$ 7,8 bilhões.
Além disso, o Brasil não assinou tratados de livre-comércio que ajudassem a impulsionar as exportações de produtos manufaturados. Nem intensificou suas relações comerciais com os países latino-americanos tanto quanto deveria, limitando-se a preservar o Mercosul, que se arrasta por 20 anos sem grandes avanços. Portanto, estamos colhendo o que plantamos.
18/6/2011
Fonte: ViaPolítica/O autor
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do Sindicato dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística do Estado de São Paulo (Sindicomis) e da Associação Nacional dos Comissários de Despachos, Agentes de Cargas e Logística (ACTC).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br
Site: www.fiorde.com.br
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.viapolitica.com.br

