O embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, representante geral do Brasil no Mercosul, afirmou, em palestra feita no Seminário Internacional “Governos de Esquerda e Progressistas na América Latina e no Caribe – Balanço e Perspectivas”, encerrado no último sábado (2) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que o Brasil não pode aceitar o conceito de PIB potencial. “O conceito de Produto potencial é uma farsa: vai aumentar problemas sociais, por exemplo, faltariam empregos”, denunciou. Para o Brasil, sublinhou, “o crescimento de 7% ao ano seria o ideal, menos que isso, o que se denomina subdesenvolvimento aumenta”.
“Qual o máximo do crescimento atual? Quem calculou? Não se sabe, mas está calculado para o Brasil em 4%”. Samuel relembrou também características específicas do Brasil em relação aos demais países: “Somos semelhantes a países continentais”, sendo necessário mirar países com dimensões, potencialidades e condições estruturais semelhantes às nossas: “Se os EUA crescerem a 2% e nós, a 7%, a distância, em termos de crescimento econômico real, diminuirá, lá pelo ano de 2030”, prevê.
O embaixador criticou a busca de um crescimento que não se preocupa com o desenvolvimento tecnológico do país. “Há crescimento que não combina com desenvolvimento, pois todo o desenvolvimento tem a ver com substituição de importações”. “O raciocínio” explicou, “é simples: há algo que se passa a produzir e que, antes se importava”. “Alguns setores querem determinadas taxas que permitam importar a preços baixos e quem inicia uma produção, começa com dificuldade”, denunciou. Deu como exemplo do caminho que o Brasil pode seguir a situação da China, há poucos anos, que começou produzindo produtos de baixa tecnologia e hoje já é capaz de produzir qualquer coisa.
Samuel Guimarães falou também da importância do desenvolvimento tecnológico na aérea da defesa para a conquista da soberania nacional. “País dependente não tem soberania. Não saber fazer as coisas ou não ter potencial, do ponto de vista da defesa, do armamento, exército etc., dificultam a sustentação da soberania”, salientou. “Para o Brasil não ser submisso, precisa superar lacunas nessas esferas”, prosseguiu.
“Países como os EUA, sob uma cortina ideológica e uma aparência de potência pacífica são altamente armados e desenvolvem ainda mais sua capacidade de guerrear. São vários os exemplos de que seguem contribuindo para a guerra no mundo. O que equivale a manter a hegemonia pela força. Assim, capacidade de manter-se soberano, para o Brasil, precisa ter a obrigação de poder defender o seu território”, avaliou o embaixador.
“Há ameaça? Aparentemente, não, mas no campo da defesa, ameaças são difusas e inesperadas”, alerta Samuel. E faz referência a uma máxima difundida no meio internacional e sobre a qual vale refletir: “A defesa é mais importante que a opulência”.
No mundo atual, a questão da soberania e defesa nacional está bastante associada à ciência e tecnologia. Biotecnologia, internet, dentre outros, iniciam-se no campo da defesa. No capitalismo tradicional há resistência a que o Estado disso participe, explicou. “Mas fato real é que o país sem defesa tem dificuldade de promover o desenvolvimento científico e tecnológico”, completou.
Samuel Guimarães falou também sobre o papel negativo desempenhado pela mídia no Brasil e no mundo. Ele dá como exemplo a maneira como é tratada a situação da Argentina. De acordo com ele, “vem sendo anunciado pela imprensa mundial que a Argentina estaria ‘à beira do colapso’; o país tem crescido em torno de 8% ou mais, o que não é pouco, mas a imprensa brasileira ‘tem horror a isso’. A despeito do desenvolvimento econômico da Argentina, cria-se um clima de desmoralização e de ‘fracasso’, por parte da imprensa brasileira”, denunciou. Para ele é necessário uma maior democratização da mídia para que haja democracia verdadeira.
Segundo Samuel, aumenta a consciência dentro do Brasil de que “a taxa cambial favorece as importações, permite circulação de mercadorias e consumo de massa, mas que, porém, é preciso estar atento a que isso provoca a desindustrialização”.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.horadopovo.com.br