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Comissão de Justiça e Paz articulou denúncias de abusos da ditadura

São Paulo – A sala da Cúria Metropolitana cedida por dom Paulo Evaristo Arns à Comissão Justiça e Paz rapidamente se transformou em ponto de peregrinação. Em tempos de repressão, eram raras as portas que se abriam aos refugiados.

“Me lembro que começou sendo um dia por semana. Depois, passou a ser dois dias, três dias, no fim era todos os dias, de manhã e de tarde. Realmente a ‘freguesia’ era grande”, recorda Margarida Genevois, que integrou a comissão durante 25 anos. Em boa parte dos casos, o que restava era dar proteção às vítimas de perseguição.

Mas logo dom Paulo, respeitado internacionalmente, montou uma rede de contatos no exterior que garantia a divulgação rápida de denúncias. “Os militares não queriam fazer figura feia, queriam parecer bonzinhos, então ficavam furiosos quando alguma coisa transpirava para o exterior”, pontua a socióloga.

Esta rede também passou a assegurar o financiamento de projetos. O pastor presbiteriano Jaime Wright, a jornalista inglesa Jan Rocha e o advogado Luís Eduardo Greenhalgh se deram conta de que o número de refugiados latino-americanos que chegavam à Cúria era cada vez maior, e decidiram montar o Clamor, um grupo para dar assistência e demonstrar que a América Latina estava unida na resistência às ditaduras que assolavam o continente.

Wright já era a essa altura um sujeito familiarizado à luta pelos direitos humanos. Entrou de cabeça no tema quando o irmão, Paulo, desapareceu nos porões da repressão. Conheceu dom Paulo e se transformou em grande aliado nesta missão, chegando a ser chamado por alguns de bispo auxiliar. “Nunca protestei, porque o auxílio dele era realmente de alguém que sabia vigiar – é esta a tradução de bispo – e, mais ainda, propor soluções, por mais custosas que nos parecessem”, anota o cardeal na autobiografia Da esperança à utopia.

O pastor presbiteriano começou, então, uma rotina de viagens à Suíça. Lá, encontrava-se com o amigo de infância Charles Harper, brasileiro, filho de norte-americanos, e agora membro do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que reúne as entidades protestantes. Voltava trazendo sob as roupas notas de dólares amarradas à cintura, que financiavam os trabalhos em São Paulo.

Com o tempo, as articulações regionais foram crescendo, e denúncias chegavam de todas as partes. Os refugiados eram arquivos vivos de informações sobre quem estava em risco, quem havia fugido, quem caíra sob a repressão, e acabavam por parar na sala da casa de Jaime Wright. “Eu não sabia muito a fundo a história deles, mas meu pai e minha mãe sempre foram muito hospitaleiros e solidários”, recorda Anita. Em 1978, o Clamor conseguiu a informação de que crianças uruguaias, filhas de pais mortos pela ditadura argentina, estavam vivendo no Chile.

Para saber mais sobre a vida e o trabalho de dom Paulo:

  •  Da esperança à utopia – testemunho de     uma vida

Autor: dom Paulo Evaristo Arns
Editora Sextante
Ano: 2001
480 páginas

  •  O cardeal e o repórter – histórias que fizeram História

Autor: Ricardo Carvalho
Global Editora
Ano: 2010
184 páginas

  • Fé na luta – a Comissão Justiça e Paz de São Paulo

Autora: Maria Victoria Benevides
Editora Lettera.Doc
Ano: 2009
424 páginas

Dom Paulo telefonou ao repórter Ricardo Carvalho e o escalou para a missão ao lado de Greenhalgh. Carvalho foi a Montevidéu, onde localizou as avós de Anatole e Vicky, contou sobre a localização e colheu algumas novas informações. Semanas depois, o grupo estava a caminho de Santiago, onde ocorreu um encontro emocionante para a avó e angustiante para a mãe adotiva, que não sabia do rapto das crianças pelos militares. No fim, a decisão foi por deixar os irmãos na companhia dos novos pais para evitar uma nova ruptura emocional que resultaria traumática. Foi assim que as Avós da Praça de Maio, velhas amigas de Wright, dom Paulo e Harper, fizeram a primeira recuperação do destino de seus netos. O grupo de senhoras, que se tornaria mítico com o passar dos anos, começou sob apoio de dom Paulo, e com dinheiro do CMI.

Nos anos seguintes, a parceria entre o Clamor e as Avós valeria algumas humilhações aos ditadores de plantão do outro lado da fronteira. O primeiro boletim do coletivo paulistano denunciava, em plena Copa do Mundo na Argentina, as graves violações de direitos humanos – em espanhol, português e inglês para facilitar a difusão pela imprensa estrangeira presente a Buenos Aires para a cobertura do evento.

Mais tarde, o cruzamento dos dados que chegavam a São Paulo por meio dos refugiados possibilitaria imprimir a primeira lista de desaparecidos do regime – os arquivos seriam utilizados pela Comissão Nacional de Desaparecidos Políticos (Conadep), criada logo após a redemocratização pelo presidente Raúl Alfonsín, e que chegaria a cifras assustadoras sobre o número de mortes. Na época, foram 9 mil as vítimas comprovadas, mas hoje se acredita que o número seja muito maior, de até 30 mil pessoas.

Por: João Peres e Virginia Toledo, da Rede Brasil Atual. Publicado em 10/09/2011, 13:25. Última atualização às 13:25

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Incansável, dom Paulo tornou-se símbolo na defesa de direitos humanos

São Paulo – A ânsia de Dom Paulo Evaristo Arns pela luta dos direitos humanos não foi jamais abalada. Ele não se deixou esmorecer nem mesmo quando o Brasil já estava entrando nos eixos da democracia. A ação das pastorais e da Arquidiocese continuavam no trabalho nas ruas da capital, principalmente nas periferias.

Como arcebispo, dom Paulo via que a violação dos direitos humanos se multiplicava de forma progressiva. Assim, sempre considerou que deveria procurar por juristas para lhe apoiar nas intervenções feitas por ele, que cada vez mais frequentes, tornavam-se também mais delicadas. Ai então entra o papel de um importante jurista brasileiro que esteve ao lado de dom Paulo por diversos momentos da vida de luta do arcebispo: Dalmo de Abreu Dallari.

Já nos tempos em que o Brasil caminhava – a passos curtos – para uma sociedade democrática, a Comissão de Justiça e Paz, que havia criado em 1967, continuava a trabalhar incessantemente.

O ano era 1983 e alguns dias antes do Natal daquele ano, um menino de rua chamado Joílson de Jesus protagonizou um caso cruel da violência. Uma corrente de ouro, roubada pelo menino em plena Praça da Sé, motivou o espancamento e o pisoteio que o levou à morte, também em plena Praça da Sé. O agressor era um procurador do estado. Não obstante, a injustiça foi além. No intuito de alertar a sociedade acerca da crueldade do ocorrido, dom Paulo e a Pastoral do Menor realizaram uma celebração em memória do menino Joílson.

Entretanto, uma investida sensacionalista, contrária à manifestação da Pastoral, tentava fazer com que a celebração fosse perturbada e alvo de protestos. O radialista Afanásio Jazadji pedia que as pessoas fossem à catedral tumultuar. Porém, sem o sucesso dos protestos, as pessoas presentes aplaudiram de pé a postura de dom Paulo e o trabalho da Comissão Justiça e Paz. Segundo o próprio dom Paulo, a decisão de alarmar a violência contra o menino Joílson, fez com que o povo entendesse o verdadeiro intuito da comissão.

Naquela época, padre Júlio Lancelotti era diácono da Arquidiocese e o papel designado aos diáconos era proteger o bispo da paróquia. “Eu estava cuidando de dom Paulo. Andávamos praticamente colados nele porque a catedral estava muito cheia. Foi um momento muito tenso, mas todos receberam muito bem a decisão do arcebispo de rezar aquela celebração”, conta padre Júlio.

Já no final de sua trajetória como arcebispo de São Paulo, em 1989, dom Paulo viu a Arquidiocese ser fragmentada e dividida em quatro dioceses autônomas, o que diminuiu o papel da influência que o arcebispo exercia sobre todos os cantos e periferias da cidade. Segundo pessoas próximas ao cardeal, ele não recebeu a notícia com agrado, pois descentralizar minimizava a força dos trabalhos que eram realizados em diversas regiões da cidade.

Pelos direitos humanos, de todos

Um outro episódio marcou o país e identificou dom Paulo como aquele que não elege cirscuntâncias e condições para defender o direito humano. Em 1989, o empresário Abílio Diniz foi sequestrado em São Paulo e o intermediador entre os sequestradores e a polícia foi o próprio arcebispo. Dom Paulo afirmou que faria o mesmo por qualquer cidadão caso tivesse sido solicitado, como fez a família do empresário.

Na ocasião, dom Paulo não apenas negociou a libertação de Diniz, como garantiu que os envolvidos não fossem torturados no caminho até a prisão. E a voz do arcebispo não se calou até aí. Dom Paulo exigiu que fosse tirado do carro que transportaria os sequestradores a palavra “Lula”, que à época era candidato à Presidência disputando com Fernando Collor de Mello.

Reconhecimento

Apesar de ter recebido as mais importantes condecorações pelo reconhecimento de seu trabalho na luta pela paz, um vazio permanece na história de dom Paulo e do Brasil. Segundo o Padre Júlio Lancelotti, por muitas vezes, houve indicações para que dom Paulo recebesse a distinção internacional mais importante no esforço pela paz mundial, o Prêmio Nobel da Paz, porém, por intermédio do governo militar, o cardeal nunca o recebeu.

“Eu diria que a pessoa de dom Paulo Evaristo Arns é um presente de Deus para a igreja, para o Brasil e para a paz no mundo por tudo que ele representou para os direitos humanos. Ele fica para a história do Brasil como uma das maiores personalidades que ajudaram o país a ser o que é hoje”, enfatiza dom Pedro Stringhini, bispo de Franca e amigo pessoal do arcebispo emérito de São Paulo.

Por: João Peres e Virginia Toledo, da Rede Brasil Atual. Publicado em 13/09/2011, 18:38. Última atualização às 18:38

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Dom Paulo Evaristo Arns dispensa festas no aniversário de 90 anos

Celebrações públicas serão restritas a reunião na Faculdade de Direito da USP e a sessão solene, em outubro, na Câmara dos Vereadores de São Paulo

São Paulo – O arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, dispensou homenagens que seriam organizadas para celebrar seus 90 anos de vida. O aniversário do franciscano é dia 14 de setembro. Ele vive atualmente em Taboão da Serra (SP), na região metropolitana da capital paulista, e deixou de lado até a missa sugerida para a Catedral da Sé, ponto marcante de sua trajetória e marco simbólico da resistência à ditadura.

Segundo pessoas próximas, Dom Paulo aceitou, como celebração oficial, apenas uma reunião prevista para o dia 17 de setembro na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, na região central da capital paulista. O evento, três dias após o aniversário, deve reunir parentes e companheiros de clero, e será aberto ao público, com quem o frei deve conversar.

Desde 2007, o cardeal leva uma vida retirada, na Congregação Franciscana “Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos”, onde recebe auxílio de religiosas e religiosos para as atividades cotidianas. Sempre que tem disposição mantém hábitos de leitura, inclusive em outros idiomas, e chega a traduzir textos.

Nos últimos anos, optou por uma agenda menos intensa e de raras aparições públicas. É esta a linha de argumentação para que as celebrações dos 90 anos fiquem restritas. Pessoas próximas indicam que parte de sua reclusão se explica pelo fato de o religioso não querer elencar eventos mais e menos importantes, e prefere não criar situações desconfortáveis ao presenciar uma reunião em detrimento de outra.

Recentemente, Dom Paulo não compareceu à cerimônia de repatriação dos arquivos do projeto Brasil Nunca Mais, o primeiro quadro sistemático das violações promovidas pelos aparelhos de repressão montado com base em documentos da Justiça Militar. Na ocasião, ele rejeitou o papel de protagonista ao indicar que não era merecedor da homenagem que lhe seria concedida.

Diante da decisão de evitar comemorações, a sessão solene prevista para 3 de outubro na Câmara dos Vereadores de São Paulo pode não contar com a presença do cardeal. A iniciativa foi apresentada por amigos ao vereador Jamil Murad (PCdoB), que apresentou projeto já aprovado na Comissão de Constituição e Justiça e que deve passar em breve pelo plenário da Casa. O político conheceu o então cardeal na década de 1970, sob o contexto da repressão promovida pelos militares.

“Pode até ser que Dom Paulo esteja (na sessão solene), mas a gente trabalha com a possibilidade de que não vá”, afirma Paulo Cesar Pedrini, membro da coordenação da Pastoral Operária e amigo pessoal do arcebispo. “É impossível falar da história recente do Brasil sem falar de Dom Paulo. É uma figura que transcendeu a igreja.”

Dom Paulo chegou a São Paulo em meio à ditadura. Logo se colocou como autoridade moral contra a violação de direitos humanos, com prisões arbitrárias e tortura, e deu respaldo para que grupos de resistência pudessem existir. “Dom Paulo contribuiu de maneira decisiva para a gente enterrar a ditadura”, avalia Jamil Murad. “Lutadores como ele não se aposentam. Ele continua no espírito das pessoas, dos democratas, dos que lutam por justiça.”

Nascido em Forquilinha, em Santa Catarina, no ano de 1921, Dom Paulo foi ordenado padre em 1945. Após cursar letras na Universidade Sorbonne, na França, uma das mais renomadas da Europa, retornou ao Brasil e passou a atuar em Petrópolis (RJ), na serra fluminense, onde permaneceu durante dez anos. Foi a partir da década de 1960, em São Paulo, que ganhou projeção como defensor dos trabalhadores.

O Brasil, além da repressão, passava por um momento de intensa migração para as cidades, que se inchavam e não davam condições dignas de vida às massas. Nas periferias, o religioso incentivou a formação e o fortalecimento das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ressaltando a fé de que a Igreja Católica deve ser feita pelo povo, nas ruas, e não apenas nos templos.

Consagrado bispo em 1966, foi elevado a arcebispo de São Paulo em 1970. Até 1998, permaneceu como principal referência na Arquidiocese paulistana.

Por: Virgínia Toledo e João Peres, da Rede Brasil Atual. Publicado em 01/09/2011, 14:52. Última atualização às 14:52

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