Dias após autorizar uma operação militar ilegal na Venezuela que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, passou a ameaçar abertamente Colômbia e México.
As declarações, feitas a bordo do Air Force One e em entrevistas a veículos norte-americanos, reforçam uma escalada unilateral que ignora o direito local, acordos internacionais, o sistema multilateral e o papel do Conselho de Segurança da ONU.
Trump classificou a Colômbia como um país “muito doente” e atacou pessoalmente o presidente Gustavo Petro, a quem chamou de “um homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la aos Estados Unidos”. Questionado se isso poderia significar uma nova operação militar norte-americana, respondeu: “Soa bem para mim”.
Trump e o desprezo ao multilateralismo
A ofensiva contra a Venezuela ocorreu na madrugada do último sábado (3), em Caracas, sem qualquer autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas ou comprovação pública de ameaça iminente aos Estados Unidos. A ação resultou na prisão ilegal de Maduro, acusado por Washington de envolvimento com o narcotráfico, apesar da ausência de provas ou decisões internacionais que respaldem a operação.
No domingo, Trump afirmou que os Estados Unidos estão “no comando” da Venezuela após a captura do presidente. “Estamos lidando com as pessoas que acabaram de tomar posse. Não me perguntem quem está no comando, porque eu daria uma resposta e isso seria muito controverso”, disse. Pressionado, foi direto: “Isso significa que nós estamos no comando”.
Após a retirada de Maduro, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela nomeou a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina por 90 dias, decisão que foi reconhecida pelas Forças Armadas do país. O ministro da Defesa, Vladimir Padrino, endossou publicamente a medida, afirmando que o objetivo é garantir a “continuidade administrativa e a defesa integral da Nação”.
“Quarentena do petróleo”
Enquanto Trump adota um discurso de força, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que os EUA não pretendem administrar diretamente o país, limitando-se a manter uma “quarentena do petróleo” como instrumento de pressão. Segundo Rubio, a medida busca forçar mudanças na gestão da indústria petrolífera e interromper o tráfico de drogas. O fato é que está explícito que o interesse norte-americano é exclusivamente o de se apropriar ilegalmente, como piratas internacionais, das riquezas minerais venezuelanas e latino-americanas.
Trump já reconheceu publicamente que o interesse estratégico dos Estados Unidos na Venezuela está ligado ao petróleo, um dos maiores ativos do país sul-americano.
Ameaças à Colômbia e reação de Petro
As declarações contra a Colômbia provocaram reação imediata de Gustavo Petro, que classificou a fala de Trump como uma “ameaça ilegítima”. Em publicação nas redes sociais, o presidente colombiano respondeu: “Pare de me caluniar, senhor Trump. Não é assim que se ameaça um presidente latino-americano que emergiu da luta armada e, posteriormente, da luta do povo colombiano pela paz”.
Petro negou qualquer vínculo com o narcotráfico e destacou sua trajetória política e sua atuação no combate às drogas. “Não lê a história da Colômbia; por isso, erra quando nos critica”, afirmou. Em nota extensa, o presidente detalhou ações de seu governo, incluindo a maior apreensão de cocaína da história, programas de substituição voluntária de cultivos e operações contra grupos armados ligados ao narcotráfico, sempre, segundo ele, em observância ao direito internacional humanitário.
O presidente colombiano também criticou diretamente Marco Rubio, acusando-o de desconhecer a Constituição da Colômbia e de se basear em informações falsas fornecidas por setores interessados em romper as relações bilaterais. “O presidente da Colômbia é o comandante supremo das Forças Armadas e da Polícia Nacional por determinação constitucional”, ressaltou.
México na mira
Trump também voltou suas críticas ao México e à presidente Claudia Sheinbaum. Em entrevista à Fox News, afirmou que “os cartéis mandam no México” e que a chefe de Estado “não manda no país”. Embora tenha dito que a operação na Venezuela não teve a intenção direta de enviar um recado ao México, concluiu: “Algo terá de ser feito”.
Segundo Trump, Sheinbaum teria rejeitado propostas de atuação direta dos Estados Unidos contra os cartéis. “Perguntei inúmeras vezes se ela gostaria que retirássemos os cartéis, e ela me disse que não”, afirmou, antes de reforçar a possibilidade de medidas futuras.
Doutrina Monroe
Em pronunciamentos feitos em Nova York e Washington, Trump enquadrou a ofensiva regional como parte de uma retomada da Doutrina Monroe, princípio histórico de afirmação da influência norte-americana no hemisfério ocidental. O presidente chegou a afirmar que a doutrina estaria sendo rebatizada em sua homenagem como “Doutrina Donroe”.
No mesmo contexto, fez comentários sobre Cuba, afirmando que o país “está prestes a ser nocauteado” e que uma intervenção militar talvez nem seja necessária. Marco Rubio reforçou o discurso, classificando Cuba como “um desastre” e sugerindo que a ação na Venezuela serve de aviso a outros governos da região.
Escalada sem provas
As ameaças a Colômbia e México ocorrem sem a apresentação de provas que sustentem acusações de envolvimento direto de seus governos com o narcotráfico. Ambos os países possuem presidentes eleitos democraticamente e instituições reconhecidas internacionalmente.
A sucessão de declarações e ações de Trump indica uma guinada aberta ao unilateralismo, com desprezo por convenções internacionais de direitos humanos e pelo direito internacional público.
Texto: Gabriel Valery
Fonte: TVT News