Nomeado por Jair Bolsonaro (PL) para o “super” Ministério da Justiça em abril de 2020 após Sérgio Moro (União-PR) cair atirando, denunciando interferências do ex-presidente na Polícia Federal, André Mendonça está cruzando novamente os caminhos do ex-Juiz da Lava Jato na relatoria do Caso Master, que herdou após Dias Toffoli se afasta do caso.
Nesta terça-feira (24), após proibir os agentes de enviarem informações ao diretor-geral da PF, Andrei Passos Rodrigues, sobre o caso, o ministro “terrivelmente evangélico” do Supremo Tribunal Federal (STF) se reuniu com o grupo de investigadores para passar orientações aos investigadores.
Embora a reunião tenha sido sigilosa, a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, obteve informações do encontro dizendo que Mendonça “abriu caminho para a PF retirar da órbita da apuração dois homens de confiança que Dias Toffoli havia colocado para atuar no inquérito”.
Além do perito Lorenzo Victor Schrepel Delmutti, escalado por Toffoli para acompanhar a perícia no celular de Vorcaro, o delegado Rafael Fernandes Souza Dantas teria deixado o caso assim que Mendonça assumiu a relatoria, blindando, entre outras medidas, Vorcaro de prestar depoimento na CPMI do INSS e na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.
Em sua coluna, com informações vazadas sobre o caso, Malu Gaspar diz que o delegado “havia sido escolhido por Toffoli para apurar o vazamento das perguntas do depoimento de Vorcaro, ocorrido em 30 de dezembro do ano passado” e comete um ato falho.
“O pedido de apuração foi apresentado pela defesa do executivo depois que este blog revelou o teor dos questionamentos elaborados pelo gabinete do ministro”, ou seja, o delegado investigava justamente a “fonte oculta” que vem vazando informações à jornalista.
Sem citar fontes, a colunista da Globo diz que “essa apuração ainda não chegou a ser realizada antes de o STF decidir pela redistribuição do caso Master para outro relator, há duas semanas”, em relação ao pedido de investigação sobre os vazamentos.
Mendonça e Moro
Dantas, que teria deixado o caso quando Mendonça assumiu o caso Master, é o delegado responsável pelas investigações sobre as denúncias feitas pelo empresário e ex-deputado Tony Garcia contra a atuação de Moro frente à Lava Jato.
O delegado é quem conduziu a busca e apreensão na 13ª Vara da Justiça Federal, responsável pela Lava Jato, em Curitiba em dezembro do ano passado.
Durante a operação, determinada por Dias Toffoli, teria sido recolhidos computadores, anexos e mídias relacionadas às denúncias feitas por Garcia e também pelo advogado Rodrigo Tacla Duran.
Nenhum dado ou informação coletada pelos agentes, sob o comando de Dantas, foi vazado. A operação meticulosa da PF no caso, no entanto, teria provocado a ira de antigos aliados da Lava Jato na mídia liberal, que teriam iniciado uma campanha orquestrada contra o delegado, segundo informações obtidas pela Fórum.
Na Polícia Federal, o clima é de apreensão entre os investigadores, já que existe uma linha de comunicação entre Mendonça e seu antecessor no ministério da Justiça – que teria motivado o desligamento voluntário de Dantas do caso Master.
Na relatoria do caso Master, Mendonça pode blindar outros colegas de ministério no governo Jair Bolsonaro, como João Roma, Ronaldo Bento e Flávia (ex-Arruda) Perez, que ocuparam posição de destaque no Banco Pleno, liquidado pelo Banco Central após manobra entre Augusto Lima e Daniel Vorcardo, sócios no Master, para herdar a parte saudável da instituição negociada com o Banco de Brasília.
Festa da Cueca
Durante a operação, a PF teria apreendido o vídeo da chamada “festa da cueca”. A gravação, até então tratada como rumor ou peça desaparecida, estava guardada dentro da vara que foi comandada pelo ex-juiz durante os anos decisivos da Lava Jato.
O vídeo, que registra um encontro com desembargadores e garotas de programa em um hotel de luxo em Curitiba, é exatamente o material apontado por Tony Garcia como prova central de um esquema clandestino que teria sido operado por Moro para coagir magistrados e influenciar decisões do TRF-4.
Tony Garcia, empresário que atuou como delator, afirma que foi recrutado por Moro para agir como um “agente infiltrado”. Sua função, segundo ele, era justamente obter informações e gravações comprometedoras — entre elas a da festa da cueca — a fim de fortalecer o poder informal do então juiz sobre desembargadores que julgavam processos sensíveis.
Bertholdo: gravações serviam para “proteger ou ameaçar”
O advogado Roberto Bertholdo, um dos alvos da Lava Jato e conhecedor dos bastidores da época, confirmou em entrevista ao Fórum Onze e Meia que as gravações existiam e circulavam entre pessoas próximas a Moro. Para ele, o material era utilizado estrategicamente para controlar decisões no TRF-4.
Bertholdo relatou que um desembargador presente na festa “chegou a julgar o processo do presidente Lula” e era próximo a Moro. E levantou a dúvida central sobre o uso que o ex-juiz fazia da gravação:
“Não sei se Sergio Moro usou isso para protegê-lo ou para ameaçá-lo, ou se ele [desembargador] se aproximou de Sergio Moro justamente para ele o proteger”.
Segundo o advogado, até hoje há temor entre magistrados e procuradores sobre a possibilidade de o conteúdo vir à tona:
“Essas gravações de festas de fato existem. A gente não sabe onde está, mas expõem pessoas importantes do poder judiciário e TRF-4.”
Provas contra Moro
A PF também recolheu documentos físicos anteriores à Lava Jato, incluindo material relacionado ao próprio Tony Garcia e ao doleiro Alberto Youssef. A descoberta ocorre depois de o CNJ ter apontado, em 2024, que Moro atuou em conjunto com Deltan Dallagnol e Gabriela Hardt para destinar R$ 2,5 bilhões a uma entidade privada — relatório que Moro classificou como “ficção”.
A confirmação de que o vídeo da festa da cueca estava na 13ª Vara reforça a tese de que Sergio Moro operava não apenas como magistrado, mas como líder de um sistema de coleta e uso político de informações sensíveis. O fato de o material ter sido finalmente encontrado pela PF enfraquece a tentativa do ex-juiz de desqualificar as denúncias de Garcia, que sempre sustentou ter atuado como peça essencial de um mecanismo de chantagem judicial.
Com o vídeo agora em mãos das autoridades, o STF dispõe de novos elementos para investigar até que ponto Moro e sua força-tarefa utilizaram material íntimo para pressionar magistrados — um método que, segundo as denúncias, teria moldado decisões fundamentais e sustentado a ascensão da Lava Jato.
Foto: Roque de Sá/Agência Senado
Texto: Plinio Teodoro
Fonte: Revista Fórum