A Operação Fallax, deflagrada pela Polícia Federal (PF) nesta quarta-feira (25), abriu uma crise imediata na Caixa Econômica Federal. A investigação desarticulou um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro que pode ultrapassar R$ 500 milhões, colocando sob forte pressão a governança do banco comandado por Carlos Antônio Vieira Fernandes.
A fraude não ocorreu por ataques externos, mas pela cooptação de funcionários da própria instituição. Empregados usavam acessos internos para liberar saques e transferências milionárias, pulverizando os recursos em empresas de fachada e criptoativos. O colapso nos controles internos reacende o debate sobre o comando do maior banco social do país.
Os números da Operação Fallax
A ofensiva da PF, baseada em investigações iniciadas em 2024, escancara o tamanho do esquema que operou por dentro da Caixa:
- Mandados: 43 de busca e apreensão e 21 de prisão preventiva em SP, RJ e BA.
- Bloqueios: R$ 47 milhões em ativos financeiros sequestrados pela Justiça Federal.
- Quebra de sigilo: 33 pessoas físicas e 172 empresas investigadas.
A digital de Arthur Lira na presidência
Economista e funcionário de carreira aposentado, Carlos Vieira voltou à Caixa em novembro de 2023 pela porta da política. Ele assumiu o cargo máximo da estatal substituindo Rita Serrano, como parte do acordo do Palácio do Planalto para garantir maioria no Congresso Nacional.
O nome de Vieira foi bancado por Arthur Lira (PP-AL), então presidente da Câmara dos Deputados. A Caixa é considerada o principal ativo do loteamento político em Brasília, pois concentra o crédito habitacional, programas sociais, FGTS e orçamentos de infraestrutura.
Na posse, a Fórum registrou o peso do acordo. Vieira sinalizou alinhamento imediato à base que o indicou, afirmando que deputados e senadores teriam as portas abertas no banco. A declaração materializou o controle do Centrão sobre a máquina, modelo que agora é questionado pelas falhas de segurança expostas pela PF.
O elo Grupo Fictor, Banco Master e BRB
A PF identificou que a rede empresarial beneficiada pela fraude tem vínculos com o Grupo Fictor. O dado conecta a crise atual ao histórico recente do próprio Carlos Vieira.
Conforme a Fórum tem aprofundado na cobertura do caso, o Grupo Fictor tentou adquirir recentemente o Banco Master. Antes de presidir a Caixa, Vieira foi diretor-presidente da BRB Financeira, subsidiária do Banco de Brasília (BRB).
O BRB enfrenta uma grave crise de transparência envolvendo operações com o próprio Banco Master. Em fevereiro, o banco distrital informou ter encontrado “achados relevantes” em auditorias forenses, acionando a PF e o Banco Central. A proximidade de Vieira com esse núcleo gerou cobranças no mercado, especialmente após rumores de que a Caixa negociaria a compra de ativos do BRB para salvar a liquidez da instituição distrital.
O passivo bilionário na Funcef
O histórico de Vieira também registra forte turbulência na Funcef, fundo de pensão da Caixa, que ele presidiu entre 2016 e 2019. O período foi marcado por déficits bilionários e planos de equacionamento que impuseram descontos severos aos aposentados e pensionistas.
Em maio de 2024, a Fenae (Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa) apontou que Vieira se omitiu na cobrança do contencioso judicial trabalhista. Segundo a entidade, ele não obrigou a Caixa a assumir a conta dessas ações judiciais, transferindo o ônus do rombo diretamente para os trabalhadores.
Crise de compliance
Carlos Vieira não é apontado como alvo criminal da PF até o momento. No entanto, sua trajetória recente é marcada pela gestão de estruturas estatais (Funcef e BRB Financeira) alvo de intensa contestação e escrutínio.
Ao assumir a presidência da Caixa como indicação política do Centrão, ele se tornou o fiador da estabilidade do banco. A facilidade com que dados internos foram manipulados por funcionários para drenar R$ 500 milhões coloca em xeque a capacidade da atual diretoria de blindar a instituição contra esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro.
OUTRO LADO
“A CAIXA informa que atua permanentemente em cooperação com os órgãos de segurança pública e de controle, especialmente a Polícia Federal, no combate a fraudes bancárias, estelionatos e crimes de lavagem de dinheiro. A operação deflagrada é resultado direto de investigações conduzidas pelas autoridades competentes, com base em informações e comunicações realizadas pelo banco no curso regular dos mecanismos de monitoramento e notificação de indícios suspeitos.
A CAIXA reitera que possui políticas rigorosas de prevenção e combate a fraudes, lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, alinhadas às melhores práticas de mercado, à legislação vigente e às normas dos órgãos reguladores. Sempre que identificadas movimentações atípicas ou evidências de irregularidades, os casos são imediatamente reportados aos órgãos competentes, colaborando de forma ativa com as investigações.
A CAIXA reafirma seu compromisso com a integridade, a transparência e a proteção do patrimônio público, bem como com a pronta adoção de todas as medidas administrativas e judiciais cabíveis para responsabilização dos envolvidos e ressarcimento de eventuais prejuízos, quando aplicável.
Por envolver investigação em curso, a CAIXA respeita o sigilo legal do processo e reforça que eventuais esclarecimentos adicionais devem ser solicitados às autoridades responsáveis pela operação.”
Foto: Polícia Federal
Fonte: Revista Fórum