Valor – Mônica Izaguirre De Brasília
A adesão do país ao novo acordo de Basiléia poderá reduzir em até R$ 1,7 bilhão o patrimônio líquido mínimo exigido do Banco do Brasil.
Esse seria o ganho que a instituição teria, em termos de liberação de capital próprio, caso fosse autorizada pelo Banco Central a utilizar modelos internos para medir tanto o risco de crédito quanto o risco operacional, informou ao Valor o vice-presidente de Crédito, Controladoria e Risco Global do BB, Adézio de Almeida Lima.
O capital exigido para fazer frente a perdas inesperadas com inadimplência na carteira de empréstimos seria reduzido em até R$ 2,7 bilhões, quando olhado isoladamente. Mas o impacto total estimado é menor quando se considera a exigência de capital para riscos operacionais.
Introduzida pelo novo acordo, essa nova exigência visa fazer com que as instituições financeiras tenham condições de bancar também perdas inesperadas com falhas de sistemas, falhas de equipamentos, erros humanos, fraudes e assaltos, entre outros eventos.
Conforme o vice-presidente do BB, dependendo da regra que for adotada pelo Banco Central brasileiro para os bancos que operaram no país, o BB terá que apartar entre R$ 1 bilhão e R$ 2 bilhões para esse tipo de risco.
Na hipótese mais conservadora, portanto, a exigibilidade de capital do BB teria uma redução de R$ 700 milhões.
As regras prudenciais brasileiras permitem aos bancos manter uma carteira de empréstimos de aproximadamente até nove vezes o seu capital próprio.
Assim, a partir da sobra gerada pela implementação do novo acordo de Basiléia, o BB poderia alavancar entre R$ 6,3 bilhões e R$ 15,3 bilhões em novas operações de crédito, sem necessidade de se capitalizar, usando recursos de terceiros.
O acordo em questão está sendo discutido no âmbito do comitê de supervisão bancária do Banco Internacional de Compensações (BIS), instituição com sede em Basiléia, na Suíça, que reúne diversos bancos centrais do mundo.
Foi a partir das recomendações deste comitê que as autoridades de supervisão bancária de boa parte dos países adotaram, a partir de 1988, quando houve o primeiro acordo de Basiléia, regras prudenciais comuns sobre a segurança dos sistemas financeiros.
O acordo de 1988 já previa que o nível mínimo de patrimônio exigido dos bancos levasse em conta riscos relacionados à inadimplência. O que está mudando, nesse aspecto, é a forma de calcular.
O critério atual ignora diferenças entre os tomadores privados de crédito. Não importa se um cliente tem um histórico melhor ou pior do que outro. Empréstimos para tomadores com histórico diferente entram na base de cálculo pelo mesmo fator de ponderação.
Pelo novo acordo de Basiléia, a classificação de risco de cada cliente passará a ser levada em consideração.
Para tanto, os bancos centrais poderão impor um sistema padrão de classificação de risco – a exemplo do que já se faz no Brasil para efeitos de cálculo de provisões (perdas esperadas) – ou permitir que cada instituição financeira crie o seu, com base em modelo estatístico próprio, construído conforme o perfil da carteira de cada uma.
No Brasil, a tendência do BC é autorizar o uso de modelos próprios, pelo menos por 12 grandes bancos. Primeiro da lista, o BB já construiu o seu modelo para risco de crédito, informa Adézio Lima.
Segundo ele, é um modelo avançado, que permitirá medir de forma “bastante refinada” o nível de risco de cada um de seus 18 milhões de clientes. Levando em consideração as diferenças entre os tomadores, o que não é permitido pela norma em vigor, é que o capital necessário para fazer frente a riscos de crédito diminuiria em R$ 2,7 bilhões.
A premissa é de que o BC manterá a exigência de 11% sobre o valor do ativo ponderado pelo risco (mais do que o mínimo de 8% recomendado desde 1988 pelo comitê de Basiléia).
O capital exigido cairia mesmo assim, por causa do fator de ponderação aplicável a empréstimos de menor risco, que deixariam de entrar na base de cálculo por 100% de seu valor.
O novo acordo de Basiléia, cujo texto final deve ser divulgado em junho pelo BIS, recomenda que os bancos também tenham liberdade para medir seus riscos operacionais, desde que trabalhem com modelos consistentes sob o ponto de vista estatístico.
Antecipando-se à possibilidade de o BC brasileiro encampar o novo acordo nesse aspecto, o BB já construiu também o seu modelo próprio para mensurar riscos operacionais.
Segundo Adézio Lima, o modelo é consistente, pois incorpora enorme leque de situações que podem vir a representar perda para o banco.
Foram mapeados 186 diferentes eventos de perda, externos e internos, incluindo processos trabalhistas. Com base nesse modelo, o BB concluiu que precisa ter R$ 1 bilhão para fazer frente a tais riscos.
Foram feitas também simulações para o caso de o BC não permitir uso de modelo próprio e cobrar capital para riscos operacionais com base em outros parâmetros, como o resultado bruto da intermediação financeira ou o valor dos ativos.
Na hipótese mais pessimista, o BB precisaria de R$ 2 bilhões – ainda assim, um valor inferior ao que será liberado com a adoção de modelo próprio para mensuração de risco de crédito.
O que mais interessa para o BB não são os impactos na sua exigibilidade de capital, destaca Adézio Lima. “O ganho maior proporcionado pelos modelos próprios é a eficiência na gestão de riscos”, diz ele.
Desde 1998, ressalta, o BB vem aprimorando a sua gestão de riscos. Exemplo disso foi a constituição, em 1999, do comitê de risco global, instância que reúne diversas áreas do banco e que avalia constantemente não só riscos de crédito, mas também riscos de mercado e de liquidez.
Graças a esse “freio ABS”, diz o vice-presidente, o BB tem conseguido expandir operações de crédito mantendo ou melhorando a qualidade de sua carteira.
“Para podermos crescer na velocidade que queremos, é preciso que os freios estejam muito bem calibrados”, acrescenta Adézio Lima.
Em 2003, o carteira de crédito do BB cresceu 23,3%, fechando o ano em R$ 77,6 bilhões. Para 2004, a meta é uma expansão entre 30% e 35%, bem mais do que o aumento projetado para os empréstimos do sistema financeiro como um todo, entre 18% e 20%.
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