Para uma reflexão sobre a Formação Sindical da Central Única dos Trabalhadores, é necessário que se retome alguns aspectos do Projeto Estratégico que nos propusemos a materializar quando criamos a CUT para então recolocá-lo no atual contexto onde o processo da luta de classes está cada vez mais explícito, inclusive na disputa política nos aparelhos de Estado, sempre camuflada pela idéia do Estado conciliador dos conflitos da sociedade civil.
Essa disputa não diz respeito apenas a um projeto de sociedade, mas também a um novo marco de relações de trabalho e da organização sindical, reivindicação histórica dos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, que o conjunto dos sindicatos filiados à CUT querem conquistar. Evidentemente, uma coisa não está desvinculada da outra.
No que tange a retomada dos aspectos estratégicos do Projeto Sindical da CUT, quero destacar 3 dimensões que nos são caras, enquanto classe trabalhadora:
Primeira Dimensão – Histórica: A CUT foi criada para romper com a Estrutura Sindical Varguista numa perspectiva de construirmos uma nova cultura de organização e ação sindical: neste sentido a noção de democratização das nossas entidades sindicais apontava não apenas para a necessidade de construção de instrumentos de participação ativa dos trabalhadores(as), mais também para um novo tipo de organização e ação que efetivamente rompesse com a fragmentação e individualização das relações de trabalho. Então aqui temos que fazer uma profunda reflexão a partir da seguinte questão: Até onde conseguimos avançar nesta direção? Que indicadores apontam para o sim? Que indicadores apontam para o não? E por quais razões não avançamos..??
Segunda Dimensão – Cultural : Diz respeito a idéia de que para transformamos o conjunto de práticas, idéias, valores e significações não apenas do movimento sindical, mais das próprias estruturas nas quais estão assentadas as bases do nosso modelo social: Estado Autoritário; Ausência de participação ativa dos Sujeitos nos processos decisórios; o clientelismo; a idéia do “jeitinho” origem de toda corrupção, entre outras. Trata-se da necessária transformação dos Sujeitos numa perspectiva Ético-política, ou seja, da passagem da condição de pessoa e cidadão(ã) portador(a) de direitos e deveres para a condição de sujeito de conhecimento e agente político. Sem mudar as pessoas, sem influenciar as suas subjetividades, dificilmente mudaremos a cultura imposta pelas elites, que se contrapõem aos nossos interesses de classe: a mudança da prática política na dimensão de uma verdadeira práxis – ação para transformação
Terceira Dimensão – Ideológica : Nunca tivemos dúvidas de que os dois grandes desafios anteriormente apontados, são marcas fundamentais do processo de luta de classes em nosso país. Que a nossa luta pelas mudanças estruturais e pelas mudanças em termos de comportamento e postura dos Sujeitos diante da realidade que o cerca, é uma luta que bate de frente com os interesses históricos de dominação das elites. Nessa perspectiva, sempre compreendemos que a nossa estratégia de ação rumo a uma nova consciência política-social, deveria combinar os enfrentamentos do cotidiano ( nos locais de trabalho) com a grandes mobilizações em defesa da democracia e da universalização dos direitos. Com base na democracia e no exercício da cidadania ativa, nunca abdicamos da bandeira da construção do socialismo, horizonte dos que lutam contra as injustiças e opressões exercidas contra homens e mulheres que fazem a riqueza desse país.
Não por acaso, o 2º CONCUT, realizado no RJ em 1986, apontou a Formação Sindical como uma das 5 prioridades da CUT. Definição que explicitou a compreensão de que a construção de uma Central Sindical, nos moldes em que gestamos a CUT, implicaria também a necessidade da construção de um novo sujeito. Desse acúmulo, que levou a construção da Política Nacional de Formação da CUT, definimos, como um dos princípios da formação cutista, a idéia da indelegabilidade, ou seja, a compreensão de que a formação dos trabalhadores(as) que se identificam com o Projeto Sindical da CUT é de responsabilidade da própria CUT. PORTANTO, AQUI LOCALIZAMOS UM DOS PRINCÍPIOS FUNDANTES DA IDENTIDADE DA FORMAÇÃO SINDICAL. Formar os quadros dirigentes e militantes da Central, visando fomentar permanentemente a luta em prol da conquista de um novo modelo de organização e ação sindical. UMA TAREFA CRUCIAL DA FORMAÇÃO SINDICAL.
No entanto, não podemos conceber essa especificidade de maneira descontextualizada dos desafios que apontamos, quais sejam: a) o desafio da mudança dos marcos jurídicos – tanto no espaço das relações de trabalho quanto nos espaços da sociedade; b) o desafio da mudança de comportamento e de postura dos Sujeitos frente aos fatos políticos e sociais que caracterizam o nosso cotidiano; c) o desafio político da disputa de hegemonia na sociedade, na economia, na cultura, na arte e na política. Desafios que permitem a compreensão de uma outro princípio da Formação Sindical: A VINCULAÇÃO ENTRE FORMAÇÃO, AÇÃO E ESTRATÉGIA POLÍTICA – O DESAFIO DA ORGANICIDADE.
A agenda da formação, com seus conteúdos e abordagens, deve estar colada aos temas e agenda da ação política. Não numa perspectiva de reprodução de resoluções ou de concepções. Mas sobretudo, para problematizá-las, visando aferir a sua coerência com o projeto estratégico de mudança político-social. Aqui, tratamos de mais um dos princípios da formação sindical, aquele que diz respeito ao necessário desenvolvimento de uma metodologia que fortaleça a autonomia dos sujeitos rumo a uma nova práxis.
Para levarmos em consideração, no atual, os desafios do Projeto Político da CUT, é fundamental avançarmos no debate sobre as seguintes questões: 1.) Qual o papel da formação na consolidação do Projeto Estratégico da CUT? 2.) Cabe somente à formação o papel formar um novo sujeito político para uma prática renovada e mais qualificada? 3.) Como garantir uma política permanente de financiamento que supere o atual estágio de vulnerabilidade da estratégia formativa da CUT?
Demos saltos importantes no campo do desenvolvimento metodológico, seja no campo específico da formação sindical, seja no campo da disputa por uma nova noção de educação dos trabalhadores(as) – idéia da educação integral. No entanto, para podermos consolidar, cada vez mais, a PNF como uma política estratégica para a CUT, sobretudo se considerarmos as especificidades que apontamos aqui, é necessário que fomentemos cotidianamente, em todas as nossas instâncias esse debate.
Nos últimos períodos, na Formação da CUT, temos avançado para um trabalho junto a demandas importantes do Projeto Estratégico da CUT: junto a juventude ; junto a CNCDR; junto a SNO no debate sobre a proposta da CUT sobre o SDRT no contexto da Reforma Sindical; junto as milhares de trabalhadores(as) que não tiveram oportunidade de aprender a ler e escrever; enfim. Cada vez mais, a PNF, a Rede Nacional de Formação, pelas ações que tem desenvolvido vem mostrando a importância da formação Sindical como uma política permanente como uma das condições para a consolidação da nossa Central e sua estratégia de ação que combina resistência e proposição.
A questão fundamental para nós é como garantir a ampliação do processo de formação dos nossos quadros dirigentes e militantes, no sentido de radicalizarmos o processo de disputa por um novo modelo de organização sindical e social, sobretudo no atual contexto de disputa em que está em jogo o modelo da nação que queremos construir. Encarar esses aspectos como tarefa da Central é conceber as especificidades que guarda o trabalho da formação sindical no processo de forjar uma nova consciência político e social em nosso país.
José Celestino Lourenço
Secretário Nacional de Formação
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