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Após 30 anos, memória do operário Santo Dias da Silva continua viva

Operário foi assassinado pela Polícia Militar em frente à fábrica Sylvania, na zona sul da capital, quando liderava a greve dos metalúrgicos de São Paulo

“Aqui foi assassinado pela Polícia Militar, às 14h, o operário Santo Dias”. A pichação no asfalto, 30 anos depois, em frente aos portões da antiga fábrica de lâmpadas Sylvania, na região de Interlagos, em São Paulo, com tinta vermelha recorda o sangue que escorreu pelo chão, no dia 30 de outubro de 1979, quando o corpo do metalúrgico Santo Dias da Silva tombou alvejado pelo PM Herculano Leonel.

Santo Dias era um dos líderes da greve dos metalúrgicos de 1979, em São Paulo. No ano anterior havia concorrido à vice presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do Estado pela oposição. Ganhou, mas não levou. As eleições foram fraudadas. A ditadura militar reconduziu Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, à presidência da entidade. Joaquinzão era homem de confiança do regime e contrário ao movimento grevista.

Mesmo sem o apoio do Sindicato e com a polícia no encalço das lideranças, os metalúrgicos deflagram, em 28 de outubro, a greve do setor na capital paulista. Mais de uma centena de trabalhadores seriam presos em represália. A repressão policial se intensificava e culminaria com a morte de Santo Dias, dois dias depois.

O operário fazia parte do comando de greve, liderava piquetes e mobilizava os trabalhadores para a paralisação. Era nitidamente uma liderança que incomodava os militares. A ditadura o via como um inimigo.

Naquele dia 30, Santo estava na porta de fábrica desde as quatro da madrugada. Sua mulher, Ana Maria do Carmo Silva, a Ana Dias, como ficou conhecida, o acompanhava nas manifestações. Ela também era umas das lideranças do movimento contra a carestia da época.

Ana recorda que sentia que algo iria acontecer. Ela só não imaginava que seu marido seria morto algumas horas depois. “Pensei que seríamos presos. Depois é que percebi que ele estava marcado para morrer”, conta Ana à reportagem de Caros Amigos, logo após a cerimônia religiosa que os companheiros e padres da região realizam no túmulo de Santo Dias, no cemitério Campo Grande, na zona sul da capital paulista.

Há 29 anos o mesmo ritual se repete. No mesmo horário da morte do operário, os ex companheiros de militância na oposição metalúrgica de São Paulo e na pastoral operária se reúnem em frente à fábrica onde Santo Dias foi assassinado, fazem um ato político e saem em caminhada até o cemitério onde o operário está enterrado, para realizar um culto religioso. Além de ativista sindical, Santo também tinha atuação nas comunidades eclesiais de base. Era ligado à ala da Teologia da Libertação da Igreja Católica.

Além da mulher, o metalúrgico deixou dois filhos, Luciana e Santo Filho, que à época tinham 12 e 13 anos, respectivamente. “Foi um choque muito grande. A situação ficou muito difícil, mas não ficamos sozinhos, tínhamos o apoio dos companheiros, da Igreja”, recorda Ana.

Professor de luta

“Foi a primeira greve de que participei, havia chegado do Piauí a pouco tempo. Se eu não tivesse participado daquele movimento, talvez hoje eu não fosse vereador. O legado que Santo Dias deixa para nós, é o legado da luta”, frisa o vereador Alfredinho, do Partido dos Trabalhadores.

Os companheiros do comando de greve presentes à manifestação também relembram o papel decisivo desempenhado por Santo Dias na greve de 1979 e o que o movimento representou para o avanço da classe trabalhadora.

“Santo Dias foi professor da luta sindical”, afirma Josanias Castanha Braga. “A gente queria o poder para a classe trabalhadora, coisa que não chegou até hoje. Estamos aqui para continuar essa luta”, diz Fernando do Ó Veloso. “Pouco antes de morrer o Santo já tinha dito para irmos embora, pois já tínhamos feito o que tínhamos de fazer”, conta Vicente Garcia Ruiz. “A luta valeu”, conclui Stanislaw Szermeta.

Por Lúcia Rodrigues.

NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.carosamigos.com.br.

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