Apavorados com o escândalo do Banco Master, parlamentares do Centrão e da base bolsonarista colocaram em marcha um plano para barrar – ou, ao menos, retardar – a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a instituição de Daniel Vorcaro no Congresso. Para isso, a aliança entre Centrão e bolsonaristas vai chantagear governistas e o próprio governo ameaçando convocar a sessão conjunta entre Câmara e Senado para derrubar os vetos de Lula ao chamado PL da Dosimetria, negociata para reduzir a pena e tirar Jair Bolsonaro (PL) da cela na Papudinha onde cumpre pena de 27 anos e 3 meses de prisão por liderar uma tentativa de golpe.
Na prática, Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB) ameaçam convocar uma sessão conjunta entre Câmara e Senado para o início de março para tentar derrubar o veto integral de Lula ao PL da Dosimetria. Aliados do presidente do Senado já foram alvo de ao menos duas operações da Polícia Federal sobre o escândalo financeiro do Master.
Na última semana, o novo relator do caso, o terrivelmente evangélico André Mendonça, alçado por Jair Bolsonaro ao Supremo Tribunal Federal (STF), desobrigou o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, de prestar depoimento à CPMI do INSS, que estava marcado para acontecer nesta segunda-feira (23).
Segundo informações divulgadas pela Folha de S.Paulo e confirmadas pela Fórum com mais de três fontes no Congresso, lideranças do Centrão das duas casas negociam com bolsonaristas a amenização da pressão para criação das CPI sobre o Banco Master em troca da colocação em pauta dos vetos de Lula ao PL que reduz a pena de Bolsonaro para pouco mais de dois anos.
“O que mais tem no rolo do Banco Master é bolsonarista e pessoal do Centrão. E o que eles querem é anistiar Bolsonaro, diminuir a pena, mandar o Bolsonaro para casa, enfim, para continuar aí essa expectativa golpista. Agora querem os dois se juntar para rejeitar o veto do presidente Lula da dosimetria e ainda derrubar os vetos do presidente Lula que protege o meio ambiente. E com isso não fazer a leitura da CPMI do Banco Master. Ou seja, melão com açúcar para bolsonaristas e centrão. É claro que nós vamos lutar para que essa chantagem ao governo não se estabeleça”, afirmou o vice-líder do PT na Câmara, Rogério Correia.
Em vídeo nas redes sociais na manhã desta segunda-feira (23), o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) denunciou a manobra, classificada por ele como “uma vergonha”, que precisa ser respondida com a “mobilização da sociedade”.
“Para você ter uma ideia, Bolsonaro foi condenado a 27 anos, 6 a 8 em regime fechado, cairia para 2 anos e 4 meses. É para proteger também os generais que estão presos lá com Bolsonaro. Nós vamos lutar e vamos precisar de você se mobilizando nas ruas e nas redes”, afirmou.
“Agora o interessante é que eles dizem o seguinte: ‘olha, para colocar em votação, vão ter que diminuir o movimento de pressão pela instalação da CPI do Banco Master’. Porque em tese, para o presidente do Congresso Alcolumbre, chamar a sessão do congresso, ele vai ter que ler a instalação da CPI do Master. Estão costurando um acordo com o bolsonarismo. Pessoal, essa turma bolsonarista, o que eles não querem é saber de investigação do banco Master. Você sabe que o [Daniel] Vocaro surge da igreja Lagoinha. Aquela do Nikolas [Ferreira (PL-MG)], do [André] Valadão. O cunhado dele [Vorcaro], aquele Fabiano Zettel, foi o maior doador individual da campanha tanto do Tarcísio [Gomes de Freitas], quanto do Bolsonaro”, diz Lindbergh, sobre os R$ 5 milhões doados pelo pastor da Lagoinha aos dois extremistas em 2022.
Ex-líder do PT na Câmara, Lindbergh lembra que a bancada assinou tanto o pedido de uma CPMI, proposto por Fernanda Melchionna (PSOL-RS) e Heloísa Helena (Rede-RJ), quanto do deputado Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), que propôs a instalação de uma comissão na Câmara.
No entanto, a proposta que estaria mais avançada seria a CPMI proposta pelo bolsonarista Carlos Jordy (PL-RJ), que estaria sendo usada na negociata para chantagear o governo.
“Fiquem tranquilos, que nós não vamos fazer parte desse acordão imoral para anistiar golpista. O que não vai faltar é gente nossa, na tribuna, defendendo a leitura da criação da CPI do Banco Master”, afirmou Lindbergh.
Lula vetou PL da Dosimetria na íntegra
Parte do grande acordo entre bolsonaristas e Centrão – que incluiria até uma ala do Supremo Tribunal Federal (STF) – o PL da Dosimetria foi vetado integralmente pelo presidente Lula no dia 8 de janeiro de 2026, data que marcava três anos do quebra-quebra na Praça dos Três Poderes em meio à tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro.
Em meio a gritos de “sem anistia” e “abaixo a dosimetria”, a assinatura ocorreu durante o ato simbólico contra os ataques golpistas de 2023, realizado no Salão Nobre do Palácio do Planalto.
Lula usou seu discurso para falar ainda sobre os ataques de 8 de janeiro de 2023, enaltecendo que o ato simbólico deste dia ocorre como uma espécie de memória da democracia. “8 de janeiro está marcado na história como o dia da vitória da nossa democracia. Vitória contra os que tentaram tomar o poder pela força, desprezando a vontade popular expressa nas ruas, os que sempre defenderam a ditadura a tortura e o extermínio de adversários e pretendiam submeter o brasil a um regime de exceção. Os que planejaram o assassinato do presidente, do vice, e do então presidente do TSE”, disse Lula.
Após o acordão com os bolsonaristas para aprovar o PL, Alcolumbre e Motta não compareceram a cerimônia.
Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Texto: Plinio Teodoro
Fonte: Revista Fórum