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Por 10:59 Opinião de trabalhador, Recentes

Atentas e fortes, atravessamos o baby blues e muito mais. Por Regina Maria Miranda

No cinema e na vida, seguimos estando aqui.

Março chega com diversas atividades voltadas ao Dia Internacional da Mulher. Temos vitórias feministas a celebrar, mas, ainda, muito por que lutar. Ainda assim, tem muita gente que trata a data como uma comemoração. Enquanto rosas e bombons são distribuídos, os índices de violência alcançam recordes, infelizmente. Mas o 8M é tempo de debate, de reflexão, de repensar padrões e paradigmas e buscar uma sociedade segura para as mulheres, para todas as mulheres, em suas mais variadas realidades e circunstâncias. E uma boa opção para refletir e falar a respeito é o cinema.

Witches (2024), de Elizabeth Sankey é um documentário que consegue ser delicado e, ao mesmo tempo, profundamente doloroso. Ao tratar de um tema que ainda é tabu, Sankey consegue trazer um ponto de vista intimista, já que fala muito dela mesma, mas também universal, ao mostrar que, diferente do que se acredita, a depressão no puerpério é muito comum. Dizem que quando nasce um filho, nasce a mãe. Mas nem sempre isso ocorre. E, sim, isso também é natural, também é humano. Isso ocorre com algumas mulheres desde o início dos tempos; a questão é que em momentos diversos da História, a forma como a família e a sociedade tratam disso, mudou. A sabedoria feminina ancestral, de curandeiras por exemplo, se perdeu e a medicina moderna não tomou para si a responsabilidade de entender como lidar com a questão.

Esse documentário resgata como a caça às bruxas estigmatizou mulheres que não se encaixavam nos padrões estabelecidos pela sociedade patriarcal. No filme, a diretora mostra como as mulheres acusadas de bruxaria foram figuras de resistência, de força, mulheres que, ainda que tenham sucumbido, atuaram na defesa de direitos fundamentais e daquelas que, sobrevivendo, mantiveram vivas as tradições e epistemologia que a opressão misógina tentava extinguir.

Mas o que, afinal, as bruxas teriam a ver com a depressão e o baby blues? Apesar disso não ser questão fechada no filme, o que fica latente é que, de algum modo, a sabedoria ancestral feminina, essa que foi perseguida, marginalizada e oprimida durante a perseguição às mulheres sábias (aquelas que eram acusadas de bruxaria), pode ser uma via de cura ou, no mínimo, um amparo para as mulheres afetadas. Pode ou poderia (?), já que, de fato, a herança dessa sabedoria nos foi tirada em sua quase totalidade pelo processo misógino da caça às bruxas.

O documentário traz relatos fortes e amorosos (sim, porque o amor por si mesmas e pelos filhos também está presente na montanha russa de sentimentos que se opera nesses casos) de mulheres que enfrentaram estados profundos de comprometimento psicológico e físico em decorrência dessa condição tão pouco tratada e tão negada pela sociedade patriarcal e conservadora.

Esse filme, além de uma experiência cinematográfica bem-vinda, já que tem um tratamento de imagem, de construção de narrativa, de ritmo, tudo muito bem arranjado, também se constitui em uma tentativa de iniciar esse diálogo. O cinema também é espaço para se trazer à tona o que está escondido, disfarçado por baixo do senso comum conservador que insiste em não olhar para as feridas que levam tantas mulheres ao fim precoce.

Nesse mesmo sentido, Morra, amor (2025), de Lynne Ramsay, retrata a depressão do puerpério que, no pacto misógino e patriarcal, não é compreendida nem corretamente tratada. Grace se perde de si mesma e a consequência disso é trágica. Resta a pergunta: se estivéssemos falando de um problema que atinge aos homens, será que ainda estaríamos tão longe de um tratamento adequado? Já em Canina (2025), de Marielle Heller, é o grito preso da personagem que se transforma em força vital e animalesca para mostrar que toda pessoa aprisionada tende a perder-se e, talvez, o único caminho de volta seja pelo Caos e pelas cinzas de uma fênix. Nesses dois filmes, mostra-se a trajetória da mulher que se tornou mãe, diferentemente de outras produções com esse tema, não pela maternidade, mas pela experiência carnal por que elas passam.

O que todos esses filmes parecem ter em comum é o retrato da Mulher que antecede a mãe. Assim como o ser Mulher está, indelével, em quem nunca foi mãe. O que quero dizer é que essas histórias, ainda que tratem de mães, tratam de toda mulher, pois o que move as personagens não é apenas a maternidade na qual se encontram, mas, antes de tudo, a constituição de Mulher que antecede esse momento. A sociedade tende a reduzir as mulheres, seja pela maternidade ou por quaisquer outras atribuições, pelo medo que o patriarcado tem dessa força significar seu fim. Mas é a partir dessas cinzas, dessa voz solta pela garganta, que vamos seguir tomando nosso espaço de segurança e de existência. Atentas e fortes.

Regina Maria Miranda é formada em Letras, pela UFPR, e especialista em Educação à Distância. É bancária do Banco do Brasil, dirigente sindical e professora particular de Produção de Texto.

Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região

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