fetec@fetecpr.com.br | (41) 3322-9885 | (41) 3324-5636

Por 10:45 Opinião de trabalhador, Recentes

Mães que transformam luto em luta: Eu sou mãe e voz do meu filho. Por Paulo Tharcicio Motta Vieira

Elas se apresentam com uma frase que se tornou um grito coletivo: “Eu sou mãe e voz do meu filho”. São mulheres marcadas pela violência do Estado, que perderam seus filhos para a brutalidade policial e, mesmo diante do abandono, decidiram não se calar.

Em bairros e favelas de diferentes cidades e estados do país, essas mães se organizam, criam formas de acolhimento, fortalecem redes de apoio e continuam na luta por justiça, reparação e dignidade. O que começou como uma forma de sobreviver ao sofrimento se transformou em um movimento organizado de memória, denúncia e busca por justiça.

No domingo, 17 de maio, durante a 28ª Conferência Estadual dos Bancários e Bancárias do Paraná, tivemos a presença de 03 mães, representantes Rede Nacional de Mães e Familiares Vítimas de Violência do Estado, que realizavam um encontro em Curitiba.

Desde a Chacina de Acari, em julho de 1990, os mortos passaram a ser mencionados de forma coletiva como pessoas que tiveram o direito à vida violado pelo Estado: “os onze de Acari”. O caso marca o início de uma longa sequência de massacres e chacinas que atingiram moradores de favelas no país. Em agosto de 1993, a Chacina de Vigário Geral deixou 21 mortos, e a imagem dos corpos alinhados em duas fileiras dentro de caixas desmontou o imaginário da então chamada Cidade Maravilhosa. Em 1994 e 1995, duas chacinas em Nova Brasília mataram 26 pessoas — treze jovens moradores em cada ano. Desde então, outras favelas e periferias do Rio de Janeiro também sofreram ações policiais violentas, entre elas a Chacina de Nova Iguaçu e Queimados, com 29 mortos em março de 2005, e a Chacina do Jacarezinho, que em maio de 2021 matou 27 moradores e um policial. Em outubro de 2025, outra ação violenta conduzida por agentes do Estado matou 117 moradores dos Complexos do Alemão e da Penha.

Em uma leitura superficial, há quem celebre essas mortes e quem as lamente. Mas essa divisão é insuficiente. Há também os que não comemoram, mas apoiam, e os que só se sensibilizam quando o número de mortos choca, embora tenham ignorado quando esses mesmos jovens negros foram executados, um a um.

Em cada território surgem coletivos como Mães de Manguinhos, Mães do Jacarezinho, Mães de Acari, Mães da Maré, Mães de Brumadinho, Mães de Paraisópolis, Mães do Parolin, Mães do Cabula…é um volume absurdo de mortes e de mães órfãs de filhos.

A política de segurança pública no Brasil permanece ancorada em estratégias ultrapassadas e comprovadamente ineficazes. É o que revelam os dados do relatório anual do Instituto Fogo Cruzado[i]. O alto número de mortos em chacinas policiais e o crescimento dos tiroteios em disputas por territórios ajudam a entender o fracasso desta política. Enquanto governos e polícias insistem em estratégias de confronto isoladas, grupos armados continuam em expansão e disputando violentamente territórios em todas as regiões do país.

Os dados do relatório foram mapeados durante todo o ano de 2025, nas quatro regiões metropolitanas onde o Fogo Cruzado atua: Rio de Janeiro, Recife, Belém e Salvador. São informações de 57 municípios e o monitoramento simultâneo dessas áreas permite identificar padrões recorrentes no uso da força policial, bem como compreender a dimensão dos conflitos no cotidiano urbano.

Em 2025, foram registrados 5.846 tiroteios, que resultaram em 5.465 pessoas baleadas, sendo 3.781 mortas e 1.684 feridas. Do total de tiroteios mapeados, 33% aconteceram durante ações policiais – em 2024 essa proporção era de 29%. O dado evidencia que o Estado segue entre os principais motores da violência que deveria combater. Sem surpresa, esta estratégia não foi suficiente para conter a expansão de grupos armados: as disputas entre eles cresceram 15% em relação a 2024.

O relatório também aponta um crescimento significativo nos dados relacionados às chacinas policiais — episódios em que três ou mais civis são mortos durante uma ação policial. Foram 62 chacinas policiais em 2025, um crescimento de 24% em relação ao ano anterior. Já os mortos em chacinas policiais dispararam 101%: 346 em 2025, contra 172 em 2024.

Dessas experiências locais nasceu a Rede Nacional de Mães e Familiares Vítimas de Violência do Estado, que integra movimentos de várias regiões do país, que se prepara para novas ações conjuntas, como a audiência pública em Brasília, no próximo dia 14 de outubro, no Ministério da Justiça. Essas articulações são movidas pela determinação de mulheres que não aceitam que a morte de seus filhos, sejam reduzidas às estatísticas.

Manter viva a lembrança dos filhos é um ato político. As mães insistem em contar quem eles foram: crianças e jovens com sonhos, afetos e histórias próprias e não apenas números em relatórios de violência. A cada encontro, reverenciam a memória, tecida por afeto e coragem, que se recusa a deixar que essas vidas sejam esquecidas.

Essas mulheres seguem sem reparação e sem justiça, mas sua voz ecoa cada vez mais alto. Ao transformarem luto em luta, memória em denúncia e amor em mobilização, elas lembram ao país que a vida de seus filhos importa — e que esquecer não é opção.

Federalização da apuração das chacinas

A campanha pela federalização da apuração das chacinas – organizada por movimentos sociais, entidades sindicais e populares, de direitos humanos, mães e familiares das vítimas – exige das autoridades o fim da impunidade e a federalização das investigações dos crimes ocorridos no Massacre dos Complexos da Penha e Alemão, Operação Escudo (SP), Massacre do Jacarezinho (RJ) e da Chacina do Cabula, em Salvador (BA).

Os representantes da campanha foram recebidos na Procuradoria Geral da República, no Ministério da Justiça e na Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Deputados para entrega de um manifesto com 3 mil assinaturas que exige o fim da impunidade.

O manifesto da campanha, assinado por personalidades e lideranças como o rapper Emicida e o deputado Renato Freitas (PT), cobra ações concretas para a apuração dos crimes a partir da federalização, rompendo com o ciclo da impunidade e do acobertamento dos crimes no âmbito dos estados.

“A PM funciona como uma máquina de guerra contra o povo. É da sua natureza institucional militarizada estar em guerra em todo o território nacional, principalmente, nas periferias. Da mesma forma que é preciso desmilitarizar (as PMs) e pôr fim à tutela militar, é importante a punição”, afirma o manifesto.

A campanha pela federalização denuncia que nos últimos 3 anos, 2.427 crianças foram mortas em ação policial.  A campanha também demanda um decreto para criação e execução de ações de socorro e acolhimento “para aliviar o sofrimento emocional, psicológico e material das famílias”.

“É preciso uma resposta à violência policial, por isso, nos dirigimos ao governo Lula, exigindo essa resposta que, para nós, seria um primeiro passo, federalizando as investigações”. A federalização transfere toda a competência de um processo para a Justiça Federal, e os órgãos estaduais passam a não ter mais interferência no caso. O mecanismo passou a existir em 2004, com a reforma no judiciário, e está disposto no artigo 109, parágrafo 5º, da Constituição Federal. Foi invocado no caso Marielle.

[i] Fonte: Disputas armadas e chacinas policiais expõem o fracasso da segurança no Brasil – Instituto Fogo Cruzado

Paulo Tharcicio Motta Vieira (Paulão) é bancário do Banco do Brasil e Delegado Sindical na base de Curitiba.

.

Fonte: Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e região

Close