Não há como fazer um balanço do período sem resgatar e realçar o papel exemplar demonstrado pela militância cutista que, com garra, energia e compromisso, soube aliar articulação, negociação e mobilização, abrindo caminhos para as vitórias da classe trabalhadora.
A 4ª Marcha condensou o sentimento de entrega e generosidade de uma militância aguerrida que, de Norte a Sul, superando todas as dificuldades, esteve na linha de frente da batalha, ampliando aliados no enfrentamento aos apologistas do deus mercado e seu neoliberalismo privatista, e também contra o divisionismo estéril e infantil, com discurso de esquerda que faz o jogo da direita ao tentar estreitar o movimento, levando-o ao gueto.
Foi um ano extremamente frutífero onde a militância cutista fez a diferença, em que conseguimos impedir que vingasse a famigerada Emenda 3, garantindo o veto presidencial contra a retirada de direitos. Demonstramos o absurdo do PLP 01, que viria a ser uma camisa-de-força para os serviços públicos e para o próprio desenvolvimento nacional, ao impor limites ao investimento com pessoal, inviabilizando a realização de concursos e novas contratações. Colocamos o bloco na rua contra o perverso fator previdenciário, mecanismo de arrocho criado pelos tucanos para assaltar as aposentadorias. Envolvemos o conjunto das regiões na formulação de um projeto de desenvolvimento para o Brasil, com jornadas que semearam a convicção na capacidade criativa e no protagonismo da classe trabalhadora, e que nos alimentaram com inúmeras e valiosas propostas. Reforçamos, ao lado da Coordenação dos Movimentos Sociais (CMS), a Campanha Concessões de Rádio e TV, Quem Manda é Você, sublinhando a necessidade da democratização dos meios de comunicação. Realizamos um sem número de mobilizações e greves nos mais variados setores do serviço público, exigindo recursos, respeito e valorização para o funcionalismo, fundamentais para um atendimento de qualidade, à altura das necessidades da população. Contribuímos decisivamente para o sucesso da Caravana da Cidadania no Ramo da Construção, lutando por contrapartidas sociais no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com metas de emprego e qualificação para a liberação dos investimentos públicos para um setor recordista em informalidade e em acidentes fatais. Dezenas de milhares de Margaridas cobriram novamente a Esplanada dos Ministérios, realçando o papel da mulher trabalhadora na luta pela reforma agrária, em defesa da agricultura familiar e de políticas que fortaleçam o setor.
Com 40 mil manifestantes, a nossa maior Marcha, realizada no dia 5, foi uma vitória dos que investiram tempo e recursos na construção da unidade na diversidade, colocando os interesses da classe em primeiro lugar. Já no começo da noite da 4ª Marcha, colhemos no Palácio do Planalto os primeiros resultados desta jornada: o anúncio, pelo presidente Lula, de que enviará ao Congresso Nacional o pedido de ratificação das Convenções 151 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que estabelece o direito à negociação coletiva no serviço público, e 158, que coíbe a demissão imotivada, pondo um freio à alta rotatividade. Além disso, temos a garantia do presidente de que representantes dos trabalhadores vão ser eleitos para os conselhos de administração de todas as empresas estatais federais, apontando um compromisso governamental com o enraizamento da democracia no local de trabalho.
Pois é justamente a luta que transforma os que lutam, onde os combatentes se forjam, criam identidade, reforçam compromissos, sublinham certezas, ampliam perspectivas. Que os avanços obtidos fomentem o que há de melhor em cada um de nós, estimulando o compromisso coletivo de todos com a construção de um Brasil soberano, com desenvolvimento e justiça social. Que tenhamos cada vez mais o foco nas mãos dos que trabalham, nas rugas dos idosos, aposentados e pensionistas e nos olhos dos jovens que merecem ter direito à esperança em um novo tempo. Melhor, bem melhor.
Por Quintino Severo é secretário geral da CUT nacional.
ARTIGO COLHIDO NO SÍTIO www.cut.org.br.