O planejamento estratégico brasileiro visando sobretudo a melhoria da condição de vida da sociedade foi o tema da apresentação do presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, durante a Escola de Governo desta terça-feira (11).
A qualidade de emprego e renda e a sua conseqüente condição de vida estão diretamente ligadas aos setores produtivos que o Brasil deseja investir para que se desenvolvam. Pochmann prevê que no futuro apenas cerca de 500 grandes empresas vão controlar as atividades econômicas mundiais e questiona quantas e quais destas empresas estarão no Brasil.
“Nas últimas duas décadas há uma profunda concentração e centralização de capital. Destas grandes empresas que devem controlar o setor produtivo mundial, quantas empresas o Brasil terá que jogue este jogo? Serão empresas da velha economia, de siderurgia, de petróleo, ou serão empresas da nova economia, de tecnologia? São questões que estão abertas, a serem decididas”, questionou Pochmann.
Ele analisa que não há mais divisão do trabalho setorial, como indústria, agricultura e serviços. E sim uma divisão de trabalho de concepção e trabalho de execução. O trabalho de execução é o trabalho mais simplificado. É o trabalho não-criativo, onde mesmo com maior escolaridade não permite se ter maiores salários. Já o trabalho de concepção é aquele em que a relação educação/trabalho é muito mais perfeita, geralmente vinculado à pesquisa.
“O que faz o país optar por um lado ou pelo outro são as decisões de médio e longo prazos. São as decisões voltadas para inovação tecnológica, para agregação de valor das cadeias produtivas. Quanto custa para o país em termos de estrutura para tirar a soja do centro-oeste e colocá-la em nossos portos? Quantos caminhões de soja equivalem a um caminhão de chip de computador?”, questinou ainda.
Para ele, são decisões que colocam a sociedade numa situação especial que exige romper com a lógica de curto prazo. Ele critica aqueles que acreditam que tais decisões devem ser deixadas para que o mercado resolva e cita que o ambiente de privatização no país significou a redução do setor privado. Das 500 maiores empresas em 1990, 25% eram compreendidas por empresas multinacionais. Em 2006, 50% das empresas eram multinacionais, ou seja, as privatizações reduziram o número de empresas estatais e privadas.
Outro fator apresentado por Pochmann como determinante para a atual desigualdade nos postos de trabalho ocupados hoje pelos brasileiros refere-se ao fato dos jovens de famílias pobres terem que ingressar muito cedo no mercado de trabalho, dificultando o avanço e aproveitamento escolar. Enquanto os jovens de famílias ricas ingressam no mercado de trabalho com 25 anos após terem se graduado e se especializado, os jovens pobres obrigam-se trabalhar ainda em idade de formação escolar.
“Mesmo que tivéssemos trabalho para todos, teríamos o filho do rico ocupando postos mais altos e os filhos do pobre nos postos mais baixos, porque a desigualdade é reproduzida no nosso mercado de trabalho”, analisou Pochmann.
Para ele a saída seria um programa de incentivo no qual os jovens pobres possam concluir seus estudos e especializações sem precisar trabalhar, já que o rendimento escolar é extremamente prejudicado quando se trata de uma pessoa que trabalha no mínimo 8 horas diárias, ocupa mais quatro horas para seu deslocamento e quatro horas num banco escolar.
O presidente do Ipea criticou ainda o fato de o Brasil não ter realizado uma reforma tributária, que ele chama como a reforma civilizatória do século XX. “Os ricos do nosso país continuam não pagando impostos porque não temos impostos que atuam sobre a riqueza, a herança. Alguém que recebe até dois salários mínimos mensais transfere para os cofres públicos metade de sua renda na forma de impostos. Já quem recebe acima de 30 salários mínimos transfere 26% de sua renda para a carga tributária”, criticou.
Ele enfatiza que a escola é que deve permitir uma sociedade mais inteligente frente aos novos meios de comunicação e informação. Todo este aparato de comunicação que temos acesso, ainda que de forma desigual, estaria fazendo uma sociedade cada vez mais ignorante, na visão do pesquisador.
“Porque não é a informação que nos faz inteligente, é a capacidade de análise, de síntese. Somos produtos de uma escola que dá ênfase à especialização que significa saber cada vez mais de menos coisa. A escola é que pode oferecer uma visão do todo, a capacidade de compreensão. Viver com mais qualidade significa um novo arranjo da relação do tempo de trabalho com a relação com a vida”, afirmou.
Pochmann finalizou sua palestra enfatizando a necessidade que de o Brasil planejar o futuro. Para ele, de nada adianta comemorar o aumento da expectativa de vida, sem que se ofereça as condições necessárias para uma vida digna.
O governador Roberto Requião considerou a palestra do presidente do Ipea belíssima, lúcida e bem articulada. “Ele está entendendo as circunstâncias do mundo de hoje, os horizontes do capitalismo, as dificuldades do Brasil evoluir devido à falta de um projeto de desenvolvimento. Pochmann abrilhantou a Escola de Governo”, analisou.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.aenoticias.pr.gov.br.