A plenária final da Chamada Geral pela Integração Latino-Americana referendou tese defendida pelo governador Roberto Requião de que a América Latina deve ter um modelo próprio de desenvolvimento voltado à inclusão social, distribuição de renda e apoio ao setor produtivo. A Chamada Geral, encerrada neste sábado (7), no Centro de Convenções de Curitiba, é evento preparatório ao Fórum Social do Mercosul, marcado para 2008, na capital do Paraná.
“Nosso objetivo é fazer uma integração social, cultural e política, e não somente a econômica, que já existe, não só a do comércio, que também já existe. A integração não deve ser meramente comercial, mas também humanitária, solidária”, defendeu o deputado federal Doutor Rosinha (PT-PR), vice-presidente do Parlamento do Mercosul, ao final do encontro.
Na abertura do encontro, na quinta-feira (5), Requião afirmou que os países latino-americanos devem buscar a unidade na construção do seu modelo de desenvolvimento e que isolados, divididos, continuarão, “como há séculos, presas fáceis de dominações imperiais”.
“Acredito que o primeiro passo para a integração seja o abandono, de uma vez por todas, da ilusão de que seja possível reproduzir na América Latina modelos de desenvolvimento como o norte-americano, o japonês ou o da Europa ocidental. A América Latina precisa deixar de ser o continente para os outros, como fomos da colonização até hoje”, disse Requião.
O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, propôs a construção de um modelo baseado nos interesses dos movimentos sociais, e não apenas nos negócios de transnacionais de alguns países. “O Mercosul favoreceu apenas as multinacionais do Brasil e da Argentina, que se aproveitaram do livre comércio internacional para favorecimento próprio. Enquanto isso, pobres países como Paraguai e Uruguai sofriam do lado de fora do acordo”, disse.
Uma das alternativas apontadas pelo coordenador do MST é o apoio à formação da Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba). “A Alba pode ser um instrumento eficaz para integrar a América Latina gerar projetos que produzam riquezas e trabalho aos povos do continente. Devemos aproveitar eventos a Chamada Geral para aprofundar esse debate. O projeto representa o acúmulo orgânico dos movimentos sociais, da cúpula de baixo”, falou.
Democracia e capital — O filósofo Emir Sader, coordenador das primeiras edições do Fórum Social Mundial, disse que os povos da América Latina devem romper com as instâncias ligadas ao capital internacional. “Os povos latino-americanos, em geral, não são soberanos. Na realidade o destino destes povos está sendo definido por instâncias internacionais que não são votadas, não são democráticas”, argumentou. Entre as instâncias com poder de decisão sobre os países latinos, segundo Sader, estão o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio.
O jugo se dá principalmente, acredita Sader, pela especulação financeira. “Tomemos o caso das taxas de juros. Elas não são definidas necessariamente pelo Brasil, mas por pressão internacional e pela quantidade de capitais especulativos que entram ou não. Porque a taxa de juros é alta?”, indagou.
“Soberania da cidadania significa que o povo de um País possa regulamentar a entrada e saída de capitais. Isso impede que o mercado financeiro tome decisões do dia para a noite e com isto pressionem governos. Acho que combater a hegemonia do capital financeiro é essencial para que os povos possam voltar a ter a decisão do seu destino”, defendeu Sader.
Ele disse acredita que eventos como a Chamada Geral são importantes para gerar a consciência de que a construção de um outro mundo é possível e passa pelo processo de integração. “Mas falo de uma integração que não seja baseada nas leis de mercado, mas nas necessidades e possibilidades de cada país”, disse.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.aenoticias.pr.gov.br.