Os movimentos populares – entidades, partidos e forças sociais – devem formar um núcleo que possa romper o monopólio da comunicação no Brasil e na América Latina. A opinião é do jornalista e diretor da revista Retratos do Brasil, Raimundo Pereira dos Santos, que participou em Curitiba da Chamada Geral pela Integração Latino-Americana, encerrada neste sábado (7). A Chama Geral é um evento preparatório ao Fórum Social do Mercosul, que será realizado em janeiro de 2008 na capital do Paraná.
“O capital, de um modo geral, se monopolizou bastante e a imprensa, a indústria da informação, que é um pedaço do grande capital, também se monopolizou e tem um ponto de vista mais ou menos uniforme em relação a como o Brasil deve se desenvolver”, disse. Dentro desta concepção, Pereira cita os governos de Fernando Collor de Mello e de Fernando Henrique Cardoso, que “indicaram” o caminho a ser trilhado com as privatizações e projetos de reformas.
Tais reformas implicariam em retirada de direito dos trabalhadores, analisou Pereira. “Então, o jeito de romper esta situação é o movimento da população, dos partidos, das forças e entidades que não acreditam neste caminho, no sentido de organizar o seu sistema de informação, de comunicação. Então é esta a luta que está em curso”, disse.
O jornalista informou ainda que um grupo de articuladores do movimento popular está analisando o lançamento de um debate, num prazo superior a um ano, de um jornal impresso diário de circulação nacional. “Na nossa avaliação estamos com a idéia de ficar um ano discutindo esta questão, mas é uma coisa para se fazer dentro de dois anos, dois anos e pouco”, destacou.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista concedida pelo jornalista à equipe de reportagem da Chamada Geral pela Integração Latino-Americana.
Em que situação a gente se encontra hoje em relação à mídia e de como ela participa do processo político, da questão econômica e da vida de um país?
Raimundo Pereira dos Santos – A mídia, assim como pode dizer que não tem uma democracia avançada sem um sistema de comunicações avançado. Também tem que ver que uma democracia avançada está relacionada com o poder dos grupos em relação ao controle dos meios de comunicação. Então o que tem hoje, no Brasil? O capital, de um modo geral, se monopolizou bastante e a imprensa, a indústria da informação que é um pedaço do grande capital, também se monopolizou e tem um ponto de vista mais ou menos uniforme em relação como o Brasil deve se desenvolver. E no essencial indicou o caminho a ser trilhado a partir dos governos Collor e FHC, que é um caminho de estatal pequena, das privatizações, integração financeira, pelas reformas deste tipo, reformas que no fundo implica retirada de direito dos trabalhadores, e tal.
O jeito, a forma de romper esta situação é o movimento popular, partidos, forças, entidades que não acreditam neste caminho, tentarem organizar o seu sistema de informação, de comunicação. Então é esta a luta que está em curso.
Vemos hoje na mídia alternativa — agências, blogs, sites — outro foco, outra pauta, outro olhar sobre os fatos. A ampliação destes veículos é um passo concreto para a construção de uma rede para fazer o enfrentamento com a grande mídia?
Raimundo Pereira dos Santos – Isto é um tipo de enfrentamento, mas não podemos deixar de ver que a mídia do grande capital está estruturada em torno de unidades muito fortes. Porque o trabalho de informação no dia-a-dia, que é o jornalismo, exige recursos expressivos. Neste sentido, ele está muito ligado até ao próprio poder. Um Estado como o norte-americano tem uma capacidade de informação gigantesca, que é técnica e é social. Quer dizer: ele se articula, tem agências, tem meios. Os norte-americanos podem se informar e procuram, às vezes, sobre um indivíduo particular. E a informação se situa neste campo. A informação é um instrumento da luta política, inclusive militar. Então, é preciso de recursos para fazer isso. Uma redação de um diário do grande capital é um instrumento poderoso. O movimento popular não pode ter ilusão de que cada um na liberdade do seu escritório, da sua casa, do seu grêmio, reúne estes recursos. Ele vai ficar dependente de informação colhida no campo pelo seu adversário. É precisa ter, articulando forças, interesses nacionais, internacionais, montar uma rede de informações própria. Porque a informação se torce na origem, depois vem os comentaristas etc., mas primeiro tem que partir do chamado fato, da coisa mais crua, aí é trabalhada para a luta política. Então não podemos abrir mão de organizar uma estrutura forte, humanitária no conjunto de entidades e forças. Esta disseminação democrática faz parte, mas tem que ter uma unidade.
O governo Lula sofre deste paradoxo porque conquistou a reeleição no segundo turno, ampliando espetacularmente a diferença em relação ao segundo colocado, na medida em que colocou em pauta discussões como as privatizações da era FHC, distribuição de renda e reforma agrária. Mas, depois de reeleito, Lula manteve seus anúncios, sua propaganda na grande mídia. Por que não há um trabalho mais consistente em fortalecer as tevês públicas, comunitárias, as tevês estatais ou outros veículos que constituem a rede mais popular de comunicação?
Raimundo Pereira dos Santos – O governo Lula, no essencial, não partiu deste ponto de vista. Ele partiu do ponto de vista oposto, que poderia trabalhar com os meios de comunicação tais como eles estavam. Em relação à (Rede) Globo, por exemplo, no primeiro dia depois de eleito ele estava lá, no Jornal Nacional, quase como um subeditor, um âncora. Então, isto é um equívoco que deu no que deu, agora…
Na segunda campanha isso também se repetiu.
Raimundo Pereira dos Santos – Na segunda campanha ele (Lula) já, no discurso, na conversa que teve com os jornalistas logo depois da divulgação das imagens do dinheiro do tal do dossiê, percebeu que inclusive estava em jogo à reeleição dele. Ele mudou um pouco o estilo de falar com os jornalistas inclusive. Ele tomou algumas providências. Acho que nomear o Franklin Martins para ser o secretário de Comunicação, com status de ministro, é uma coisa muito positiva. Acho que a idéia de fortalecer, unificar a TV pública é uma coisa muito positiva. Mas isso é pouco, infelizmente é muito pouco. Porque precisa criar esta estrutura de captação de informação, uma estrutura confiável para o movimento democrático popular. As pessoas digam: “eis um jornal que confio”. Por isso que nós, na oficina de informações, estamos começando a discutir – ainda não lançamos esta campanha, porque uma campanha deste tipo é uma coisa muito grande, sozinhos não temos condições de fazer isto, então precisamos ver se isso convence outras entidades do movimento popular -, estamos achando que tem que fazer uma campanha para o lançamento de um jornal diário nacional do movimento democrático popular. Na nossa avaliação estamos com a idéia de ficar um ano discutindo esta questão, mas é uma coisa para se fazer dentro de dois anos, dois anos e pouco.
No Paraná o governador Requião afirma que não vai ficar refém de interesses que não sejam da maioria do povo, do bem público. É um exemplo a ser seguido? Como você avalia esta situação? Como o exemplo do Requião pode servir de referência para outros governantes, outros estados?
Raimundo Pereira dos Santos – Eu vejo com simpatia muitas iniciativas de Requião neste campo e vejo assim um empenho grande dele com a questão da televisão pública, que é uma coisa extremamente importante. Agora, a questão que tem que ser colocada é a questão da construção de um núcleo de redação que tenha a competência técnica, política, cultural, para fazer este acompanhamento dos fatos do dia-a-dia e dar combate a esta, que se forma a opinião pública no dia-a-dia. A base é o quê? O povo, a opinião dele oscila. Há muita gente que tem opinião mais estruturada, mas a maioria guia-se pelo que ouvem no dia-a-dia. Por isso, o jornal diário é uma coisa muito importante na exploração dos fatos do dia-a-dia. A política brasileira inclusive virou uma coisa assim, em terceiro nível. Você pega pequenos fatos e com a capacidade grande que você tem, quer dizer, muita gente abre o jornal no dia-a-dia e pensa que está vendo ali a realidade. Ela não faz uma idéia que ali é um filtro para ver a realidade.
Estamos discutindo pequenos fatos, não a reforma agrária, por exemplo…
Raimundo Pereira dos Santos – E também porque os pequenos fatos às vezes têm importância, mas vamos fazer uma coisa mais objetiva. O monopólio pró-liberal da imprensa se transformou numa espécie de censura prévia da opinião pública. Os assuntos são estes, quem não trata deste assunto, mas de outro, que você levanta, você é um dinossauro. O cara vai perguntar aquilo, para aparecer na mídia, para se eleger deputado, tem que falar aqueles assuntos. Então é este monopólio que temos que tentar romper.
A construção de uma rede popular de jornalistas é uma forma de fazer este enfrentamento?
Raimundo Pereira dos Santos – Acho que tem que fazer parte deste projeto uma quantidade muito grande de iniciativas. Mas o que acho central é a construção de uma redação, de uma unidade, para produzir texto impresso que pode ser veiculado de muitas formas, que use a internet da forma mais hábil possível, mas para investigar no dia-a-dia e com recursos para fazer isto.
NOTÍCIA COLHIDA NO SÍTIO www.aenoticias.pr.gov.br.