O mercado financeiro reduziu sua projeção de inflação para 2026 a 3,99%, segundo o boletim Focus divulgado nesta segunda-feira (2) pelo Banco Central. A estimativa anterior era de 4%. A revisão mantém o indicador dentro do intervalo de tolerância da meta inflacionária — entre 1,5% e 4,5% — cujo centro é de 3% desde a adoção do regime de meta contínua em janeiro de 2025.
A expectativa para os anos seguintes permanece estável: 3,80% em 2027 e 3,50% tanto em 2028 quanto em 2029. As projeções são baseadas em levantamento semanal com mais de 100 instituições financeiras.
Apesar da desaceleração esperada nos preços, o Comitê de Política Monetária (Copom) manteve, por unanimidade, a taxa Selic em 15% ao ano na reunião da semana passada. É a quinta decisão consecutiva sem alterações. O patamar é o mais alto desde julho de 2006, quando a taxa estava em 15,25%.
O Copom, no entanto, indicou que poderá iniciar o ciclo de flexibilização monetária já em março. “O Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião, porém reforça que manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, afirmou o Banco Central em comunicado.
A política monetária restritiva foi adotada ao longo de 2025 justamente para conter pressões inflacionárias persistentes. Com a inflação agora projetada abaixo de 4% para o próximo ano, o espaço para redução dos juros começa a se abrir, desde que não haja surpresas no cenário macroeconômico.
Outras projeções do mercado também permaneceram inalteradas: o crescimento do PIB em 2026 segue estimado em 1,8%, a taxa de câmbio em R$ 5,50 e a Selic ao final do ano em 12,25% ao ano.
Os problemas do Boletim Focus
Apesar do cenário relativamente benigno para inflação e juros, especialistas voltam a questionar o viés das projeções do mercado. O professor Rafael Viegas, da FGV, destaca que, nos últimos anos, o Focus tem subestimado o crescimento, exagerado riscos fiscais e superestimado pressões inflacionárias, frequentemente errando contra o desempenho real da economia.
Segundo ele, esse padrão não é neutro: contribui para sustentar narrativas de austeridade permanente, juros altos e desconfiança em relação à política econômica do governo Lula, mesmo quando os dados oficiais mostram resultados melhores do que o esperado.
ENTENDA: Boletim Focus errou em tudo contra governo na gestão da economia em 2025
Com inflação na meta, juros em trajetória de queda e crescimento estável, o Boletim Focus de janeiro reforça um paradoxo recorrente: o mercado reconhece a melhora dos fundamentos, mas mantém um discurso excessivamente prudente — que influencia o debate público e a condução da política econômica no país.
Texto: Yuri Ferreira
Fonte: Revista Fórum