Brasília – O projeto de lei que prevê cotas nas universidades públicas para alunos que estudaram em escola pública poderá ser um instrumento que obrigue a sociedade a pensar em uma nova política de educação, afirmou hoje (20) o pesquisador do Departamento Intersindical de Estatística e de Estudos Socio-econômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio.
“Se a sociedade julga que a política de cotas não é adequada, deveria ter como resposta a oferta no mesmo padrão de qualidade de ensino para todas as crianças. Ela tem que ter uma política que universalize o ensino de qualidade”, disse.
O projeto, aprovado ontem (20) na Câmara dos Deputados, prevê que 50% das vagas nas universidades serão reservadas para alunos vindos de escolas públicas. Metade dessas vagas será distribuída de acordo com critérios raciais estabelecidos proporcionalmente de acordo com a distribuição populacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A outra metade será distribuída de acordo com a renda familiar per capita que deve ser menor que um salário mínimo e meio.
Para Ganz Lúcio, a política de cotas para universidade pública faz sentido na medida em que os alunos que estão hoje nas universidades públicas são os que estudaram em escolas particulares e os alunos de escolas públicas estão tendo que ir para universidades particulares.
“No ensino público universitário há uma inversão porque os alunos pobres que estudaram em escolas públicas estudam o ensino superior em universidades particulares e os de pais ricos que estudaram em escolas privadas estudam o ensino superior em universidades públicas”, explicou.
Ele afirmou ainda, que é necessário universalizar o ensino para acabar com essa inversão. “A política de cotas é uma medida pra que se exija do poder público iniciativa no sentido da universalização como medida de longo prazo e da oportunidade para os mais pobres no curto prazo”. Ganz Lúcio disse que o Brasil precisa investir entre 6% e 5% do PIB em educação para que essa universalização aconteça. Hoje, o investimento do país na área chega a 4% do PIB.
Por Roberta Lopes – Repórter da Agência Brasil.
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Projeto de cotas fere autonomia das universidades, alega Andifes
Brasília – A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) se declarou contrária ao projeto aprovado ontem (20) na Câmara dos Deputados que estabelece cotas raciais e sociais nas universidades públicas federais de todo o país.
Em entrevista à Agência Brasil, o presidente do órgão, Amaro Lins, explicou que é favorável a medidas que possibilitem o acesso ao ensino superior, mas que é preciso conhecer as condições de cada instituição de ensino e não apenas garantir um número fixo de vagas por meio de uma lei.
“Somos contrários a colocar em lei, definir o que é cota, o tempo de ação e o percentual, porque isso, inclusive, fere a autonomia das universidades. É muito grave. Esse projeto, no final, pode trazer um resultado oposto ao que se pretendia porque quando você deixa 50% de todas as vagas para alunos da rede pública sem considerar as questões locais e as condições da própria universidade e do seu entorno, você pode promover maior ociosidade dentro das universidades.”
Segundo Lins, as 58 universidades públicas do país que já praticam algum tipo de ação afirmativa ou de cotas para o ensino superior discutiram o tema com a comunidade local e com os governos estaduais envolvidos. Algumas oferecem cursos para que alunos da rede pública de ensino se preparem para o vestibular, outras mantêm algum tipo de cota ou mesmo estímulos e incentivos na própria nota do vestibular também para alunos da rede pública.
Durante visita ao estado do Amapá, Lins afirma que alguns cursos – sobretudo os que envolvem uma base científica como Física e Química – apresentam grande evasão de alunos não apenas no Brasil mas em todo o mundo. Os índices, segundo ele, podem chegar a 50%.
“Se você simplesmente põe 50% de alunos da rede pública que, infelizmente, vêm de escolas que não têm a qualidade necessária, eles não vão ter sucesso nos cursos, vão se evadir muito provavelmente já no primeiro período. É cruel tomar uma decisão dessa.”
“Por isso, apelamos ao Congresso Nacional que pense bem e dialogue mais com as universidades sobre isso. Para que possamos fazer algo que estamos todos de acordo, que é a inclusão de jovens que não têm as mesmas condições de educação que outras classes mais elevadas”, diz.
Lins afirma que a Andifes também é contrária ao que ele chama de subcotas que beneficiam negros, indígenas e estudantes de baixa renda. Ele acredita que existem políticas “mais adequadas” e cita como exemplo positivo o método adotado pela Universidade Federal de Pernambuco. No processo seletivo da instituição, o aluno da rede pública recebe 10% a mais na nota que tira no vestibular.
“Ele é tão bom ou melhor do que um aluno da rede privada. Dessa forma, garantimos que todos os alunos sejam bons e promovemos uma forte inclusão por meio do processo.
Dentre as principais causas da evasão no ensino superior brasileiro, ele lembrou o baixo nível de formação dos alunos que ingressam nas universidades, o poder aquisitivo dos alunos, a ausência de maturidade, o pouco conhecimento sobre o curso escolhido e a falta de apoio por parte da própria instituição para que os alunos se sintam adaptados.
Por Paula Laboissière – Repórter da Agência Brasil. Colaborou Lisiane Wandcheer.
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