Relatório da ONU constata a persistência de graves desigualdades
Lluis Uria
Em Paris
Mais de 500 mil mulheres morrem todo ano por problemas relacionados à gravidez –a principal causa de doença e mortalidade entre as mulheres de 15 a 44 anos–, 99% delas nos países em desenvolvimento. Cerca da metade dos 40 milhões de pessoas infectadas pelo vírus da Aids em todo o mundo são mulheres –quando durante anos foram os homens os principais contaminados–, e na África essa proporção se aproxima de 60%, na maioria jovens entre 15 e 24 anos.
Na Ásia e na África subsaariana, só 47% e 30% das meninas, respectivamente, entram na escola primária. Por isso não é de estranhar que dos 920 milhões de analfabetos que existem no mundo 600 milhões sejam mulheres. Quando trabalham fora de casa, seu salário –para o mesmo trabalho e responsabilidade– equivale a 73% a 77% do dos homens.
Se tudo isso não bastasse, uma em cada três mulheres no mundo é ou foi vítima de agressões físicas ou sexuais em algum momento de sua vida.
Esse panorama desolador é descrito no Relatório sobre a Situação da População Mundial 2005 elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a População (Unfpa), apresentado nesta quinta-feira (13/10) simultaneamente em Nova York, Londres e Paris.
A persistência da discriminação da mulher –sobretudo, mas não unicamente, nos países em desenvolvimento– é, segundo a ONU, não só um grave problema de injustiça como também um obstáculo fundamental para tirar esses países da pobreza. A ponto de comprometer gravemente o cumprimento das Metas de Desenvolvimento do Milênio, aprovadas pela ONU em 2000 e que pretendiam reduzir à metade a pobreza extrema no planeta até 2015.
“A discriminação da mulher é a grande doença do mundo”, afirmou Olivier Brasseur, diretor de avaliação da Unfpa, durante a apresentação do relatório em Paris. “Sem igualdade não haverá prosperidade; e sem prosperidade não haverá segurança”, afirmou.
O problema que se deve resolver, segundo os especialistas, é garantir a saúde reprodutiva das mulheres e lhes dar a capacidade de decidir livremente quantos descendentes querem ter (o que inclui o acesso aos métodos anticoncepcionais, mas não exclusivamente).
Menores taxas de fecundidade e de mortalidade contribuem para o aumento da poupança familiar, que pode reverter para a educação dos filhos. O que os economistas chamam de “dividendo demográfico” é, na opinião dos especialistas, o que está por trás do grande salto econômico dos países asiáticos. Os pesquisadores calculam que esse dividendo demográfico poderia reduzir em 14% a pobreza dos países em desenvolvimento entre 2000 e 2015.
Mas é difícil pensar em qualquer dividendo quando se constata que na África subsaariana –para dar um novo exemplo–, uma mulher corre o risco de morrer durante a vida por complicações na gravidez em proporção de uma para 16, enquanto nos países industrializados é de uma para 2.800. Ou quando se descobre que todo ano 14 milhões de adolescentes dão à luz, muitas vezes em condições deploráveis.
Para a ONU, só um compromisso decidido dos países ricos para aumentar as ajudas em saúde e educação aos países em desenvolvimento poderá inverter pouco a pouco essa situação.
A Unfpa calcula a quantia necessária em US$ 135 bilhões só em 2006. Um valor que qualifica de “modesto” em comparação com o US$ 1 trilhão de gastos militares em 2003, embora muito superior aos US$ 69 bilhões destinados no mesmo ano pelos países doadores à ajuda ao desenvolvimento.
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