Uma das ironias da atual situação é que a maioria dos empregos fixos é executada pelas mais errantes pessoas, enquanto os trabalhos mais errantes podem ser executados por pessoas com profundas raízes ancestrais no lugar em que trabalham.
Comecemos por alguns trabalhos fixos. Uma das mais óbvias características da fixidez é a necessidade da proximidade física a um ponto específico porque esse trabalho envolve fazer, emendar, limpar ou deslocar mercadorias físicas ou a execução de trabalhos pessoais efetivos a pessoas específicas num tempo determinado.
Começando com meu próprio espaço real, observo os empregos fixos que o sustentam. Vivo em uma rua de casas de três andares do século XIX em Londres, onde cerca de um terço das casas são ocupadas por famílias de classe média, tendo as demais sido convertidas em apartamentos ou ocupadas por famílias mais pobres e ampliadas. A maioria das famílias de classe média emprega uma arrumadeira durante três ou quatro horas por semana. Das arrumadeiras que conheço, uma é da Bolívia, uma da Mauritânia, uma de Uganda e outra da Colômbia. Nenhuma delas é branca, nenhuma nascida na Europa, sem falar de Londres.
No final da rua, há dois restaurantes, um café, uma vendinha de peixe e batatinha frita e um ponto de venda de entrega de frango frito. Um dos restaurantes oferece pratos ao estilo europeu de várias procedências, especialmente franceses. Seu dono é um montenegrino casado com uma irlandesa. As garçonetes são brasileiras, polonesas e russas. O outro restaurante oferece um menu italiano, mas seu dono e sua equipe são turcos e a garçonete, albanesa. O dono do café também é turco. A vendinha é tocada por chineses. E o ponto de venda de frango frito, que permanece aberto quase toda a noite, atende a uma clientela grosseira e, a despeito de ter nome americano, é tocada por uma equipe transitória de trabalhadores africanos e asiáticos de aparência exausta.
A manutenção periódica das casas pertencentes à municipalidade (mais ou menos vinte por cento do total) é feita em bloco. Isso aconteceu no ano passado, quando, por várias semanas, o quarteirão encheu-se de trabalhadores da construção. Na última vez, ao que parece, todos os trabalhadores mais especializados eram poloneses; alguns dos menos categorizados eram procedentes de vários países dos Bálcãs, exceto o supervisor (um londrino negro). Não vi qualquer mulher na equipe.
Como não possuo carro, uso freqüentemente o serviço de mini-táxis. Os motoristas mudam constantemente, mas, entre eles, sempre há homens oriundos do sul da Ásia e dos países africanos. Que eu saiba há apenas uma motorista mulher, uma nigeriana mal humorada, que se nega a sair do carro e buzina com força para avisar que chegou. Não me lembro da última vez em que me tocou um taxista branco.
Essa diversidade étnica não é exclusiva do trabalho manual. A pequena firma que dá assistência ao meu computador é mantida por um grego cipriota. Seu funcionário é sírio e, quando há muito serviço, um engenheiro turco cuida do meu problema. Todos eles são capazes e educados. As duas recepcionistas do nosso centro médico local são mulheres muito eficientes – uma oriunda da Nigéria; outra da Somália.
Tais exemplos poderiam multiplicar-se muitas vezes não só em Londres, mas também em muitas cidades pelo mundo afora, nas quais a manutenção da infra-estrutura fixa e as atividades de atendimento direto a clientes estão cada vez mais nas mãos de pessoas nascidas em outros países e continentes. A presença delas, como recém chegadas ou imigrantes temporários, tem múltiplos efeitos na forma e no caráter das cidades que as hospedam e que hoje são dependentes do seu trabalho, tanto nas áreas em que elas moram, quanto nas áreas em que trabalham. Como prestadoras e usuárias de serviços, essas pessoas muitas vezes estão na interface do consumo e da produção, tanto dos serviços públicos como dos serviços privados, e, nesse processo, ambos se transformam: criam-se novos mercados para novos tipos de comidas e serviços pessoais; instituições de saúde e de educação adaptam horários e linguagem para disponibilizar seu atendimento; e novos códigos de vestuário e de comportamento, tácitos ou explícitos, são introduzidos, colocando múltiplas exigências tanto aos novos quanto aos antigos residentes, cuja sobrevivência social depende de aprender a decodificá-los.
A composição étnica específica de qualquer cidade é delineada por um complexo jogo de fatores, que incluem sua história colonial; suas tradições religiosa, política e cultural; a estrutura industrial; e a localização geográfica. O fator diversidade, contudo, está ficando cada vez mais universal.
Isso a respeito dos empregos fixos. Que dizer dos errantes?
Por Ursula Huws, que é associada ao Instituto de Estudos sobre o Emprego e professora visitante do Instituto Internacional de Estudos do Trabalho da London Metropolitan University.
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Eis o primeiro texto:
Corrosão da identidade e da estrutura social
A combinação de transformações tecnológicas e globalização está provocando mudanças fundamentais em relação a quem faz o quê; onde; quando; e como trabalha. Isso traz implicações profundas para a natureza dos trabalhos, para as pessoas que os executam e, em conseqüência, para a natureza das cidades.
De um lado, o trabalho que antes era geograficamente amarrado a um lugar específico tornou-se errante numa extensão historicamente sem precedentes; de outro, tem havido vasta migração de gente através do planeta em busca tanto de emprego quanto de segurança pessoal. Há portanto um duplo desenraizamento – um movimento de trabalho em direção a pessoas; e um movimento de pessoas em busca de trabalho. A combinação dessas mudanças violentas tem modificado as características das cidades tanto nos países desenvolvidos como nos países em desenvolvimento.
Nesse processo, também se transformam as identidades e as estruturas sociais. A maioria das explicações clássicas de estratificação social dá especial importância à identidade ocupacional. A base da construção da identidade social tem sido a ocupação – normalmente uma identidade estável adquirida aos poucos seja por herança, seja através de um processo de treinamento que visa fornecer ao estudante ou aprendiz uma habilitação para toda a vida. Uma vez iniciada numa ocupação e a praticando, a pessoa habilitada adquire uma posição reconhecida na divisão social do trabalho, o que lhe dá, por toda a vida, um lugar na sociedade, a qual passa a protegê-la de algumas calamidades tais como doença, desemprego ou falência – riscos contra os quais os “Estados de Bem Estar” da maioria dos países europeus providenciam algum tipo de seguro social.
Essas identidades ocupacionais contribuíram para dar à maioria das cidades uma forma conhecida e familiar a seus habitantes: bairros que abrigam determinadas indústrias; reconhecidas instituições de mercado de trabalho; bairros residenciais; e infra-estruturas físicas e sociais que reforçam esses padrões. Estruturas sociais e convivência se desenvolvem na geografia física da cidade – espaços masculinos e femininos; guetos, onde se concentram imigrantes recentes e áreas onde prepondera a população local; espaços barulhentos onde se reúne a moçada e bairros tranqüilos onde mora a população mais idosa. Esses padrões se formam por gênero e raça e se estruturam por relações de poder entre os diferentes grupos sociais. Isso diz respeito a “quem mora onde”, “quem trabalha onde” ou “quem viaja para onde”, e também de que modo cada área é vista- por exemplo, quais áreas são reconhecidas, e por quem, como “limpas”, “seguras” e “amistosas”.
O movimento sem precedentes de gente e de empregos ao redor do mundo tem coincidido com a quebra de muitas identidades ocupacionais. Habilidades específicas ligadas ao uso de determinadas ferramentas ou maquinaria têm mais e mais dado lugar a habilidades mais genéricas e rapidamente mutantes ligadas ao uso da tecnologia da informação e da comunicação (para o trabalho relativo ao processamento de informação) ou às tecnologias de economia do trabalho manual, por exemplo, na construção, manufatura, embalagem ou limpeza. Ademais, em muitos países, essa desintegração das atividades ocupacionais tem coincidido com o colapso das formas representativas dos trabalhadores, tais como os sindicatos que, no passado, bem ou mal, serviam para dar alguma forma coerente de visibilidade social a essas identidades.
Fomos deixados num cenário de mudanças escorregadias e pouco definidas, nas quais empregos são criados (e desaparecem) em grande velocidade, muitas vezes sem sequer uma designação concreta – simplesmente numa mistura aleatória de “habilidades”, “aptidões”e “competências”.
Sem identidades coerentes e estáveis como alicerces da análise social, como podemos começar a mapear as mudanças que estão acontecendo hoje em nossas cidades? Uma possibilidade seria começar pelo desenraizamento espacial dos trabalhadores. Aqui uma possível tipologia seria categorizar os trabalhadores como fixos, errantes e uma categoria intermediária de trabalhadores que combinam aspectos de fixos e errantes, à qual poderíamos designar como trabalhadores “fragmentados”.
Por Ursula Huws.
TEXTOS COLHIDOS NO SÍTIO www.correiocidadania.com.br.