‘Nós não podemos abrir mão do que é estratégico para o país’, avaliou, citando os exemplos da França e Alemanha: ‘o que é estratégico eles não abrem mão’
Por Tatiana Carlotti

Em encontro com blogueiros na manhã desta quarta-feira (20.01), o ex-presidente Lula reafirmou sua disposição à luta e comentou questões como economia, eleições, polarização social, o PT e as investigações da Lava Jato. Ele destacou, também, a grande importância da Petrobras para o país, afirmando que não venderia os ativos da estatal brasileira.
Ao chegar no governo, contou o ex-presidente, o volume de investimentos na estatal era de apenas US$ 3 bilhões ao ano; quando passou a faixa presidencial, a soma chegava a US$ 30 bilhões. “São dez vezes mais”. Ao lembrar que a estatal atingiu a autossuficiência durante a sua gestão, Lula comentou os investimentos realizados na indústria naval brasileira que levaram ao aumento do emprego no setor (2 mil trabalhadores para 86 mil) e o fortalecimento da expertise tecnológica.
“Há 30 anos, não se construía uma nova refinaria no país”, destacou. Ele lembrou que quando resolveram construir plataformas aqui, muitos questionavam sobre os custos, “mas quanto vai gerar de investimento em tecnologia, engenharia, salário? Quero que o Brasil seja um dos países com expertise em construir isso”. Uma expertise, aponta, comprovada pelo baixo custo de produção do barril do pré-sal, hoje a US$ 8,00, enquanto o “petróleo milagroso do xisto norte-americano” encontra-se a US$ 45,00.
“Chegará o momento em que o presidente da Petrobras será o eleito e ele indicará o presidente da República”, brincou Lula. O ex-presidente também comentou a lei da partilha, instituída durante o seu governo, que fez com que o petróleo fosse um patrimônio do país. Muitos não gostaram disso, afirmou ao citar o projeto do senador José Serra (PSDB) que tenta reverter o processo de partilha.
Questionado sobre a venda de ativos da estatal pelo governo Dilma, o ex-presidente afirmou: “eu, sinceramente, não venderia. Se o governo entendeu que essa era a saída, paciência. Eu não faria”. Lula lembrou, também, do dia em que anunciou, na Bolsa de Valores de São Paulo, “o maior processo de capitalização da história do capitalismo”: um total de US$ 70 bilhões, que tornaram a estatal a quarta do mundo em valor de mercado.
“Nós não podemos abrir mão do que é estratégico para o país”, avaliou, citando os exemplos da França e Alemanha: “aquilo que é estratégico está nas mãos deles. Não abrem mão não”.
Selic não tem que subir
A crise econômica e o ajuste fiscal também foram pauta da entrevista do ex-presidente. “Se em algum momento acreditou-se que fazendo discurso para o mercado, nós íamos melhorar, nós percebemos que não ganhamos nenhuma pessoa do mercado. Nem o Levy virou governo. Não ganhamos ninguém e perdemos a nossa gente”.
Segundo o ex-presidente, “não há nenhuma necessidade de aumentar a taxa de juros Selic neste momento”. Em sua avaliação é preciso fazer o país voltar a crescer: “só vai aumentar orçamento quando a economia voltar a crescer. É política pública pura, de fortalecimento do crédito para o consumo e para o crescimento. Se o mercado interno não cresce, os empresários não vão investir. O governo está com a bola e precisa dizer qual o ritmo do jogo”.
Lula também afirmou que a presidenta precisa ter como uma “obsessão” a retomada do crescimento, a geração de emprego e a redução da inflação. “Não é uma decisão econômica, mas política, porque você tem que escolher o que fazer”. O ex-presidente também destacou o “extraordinário” mercado interno do país. O que precisamos é de “uma política de financiamento mais forte e mais investimento em infraestrutura para a roda começar a girar e o governo ter capacidade de arrecadar e investir mais”.
Eles não vão destruir esse projeto
Em relação à disputa política, Lula garantiu que fará mais política e que vai participar ativamente do processo eleitoral. “Vou fazer o que precisa ser feito para que ninguém destrua o projeto de inclusão social iniciado em janeiro de 2003. Eles não vão destruir esse projeto”. O ex-presidente também comentou a tentativa “explícita” de golpe no país: “a gente não brinca com a democracia. Todas as vezes que brincamos, houve um golpe no país. Tenta-se destruir a democracia, negando-se a política”.
Convicto a processar jornalistas que levantarem falsas acusações contra sua pessoa – “daqui para frente, vou processar todo mundo” – ele citou a campanha difamatória contra seu filho, Fábio, “uma grande violência”. “Viraram corporação, ninguém assume a culpa. Lamentavelmente, o processo tem de ser em cima do jornalista”. Disse ainda admitir que os jornais publiquem o que quiserem em seus editoriais, “a única coisa que não admito é mentira na informação”.
Sobre o processo de criminalização do PT, em curso no país, Lula questionou: “O que seria desse país sem o PT?”, passando o recado aos que afirmam que o partido acabou. “O PT é formado por milhões de pessoas”. Sem deixar de mencionar os erros cometidos por membros do partido, afirmou que o “PT aprendeu a lição”. Também apontou que embora o prestígio da legenda tenha caído, o prestígio dos outros partidos também sofreu queda. Em sua visão, “o PT tem que reagir fazendo o embate político para convencer a sociedade”.
Segundo o ex-presidente, o que predomina hoje no país é a tese do “não importa o que vai ser dito pelo juiz, mas pela imprensa. Vamos fazer a execração pública das pessoas. Mesmo que a Justiça absolva, elas já estão sendo condenadas”. Lula avaliou, ainda, que as investigações em curso no país só existem porque o governo criou todas as condições para que nada fosse jogado debaixo do tapete. “Isso foi feito para permitir que neste país todos saibam que tem de andar linha”.
Sobre as falsas acusações levantadas contra ele, foi categórico: “Eu duvido que neste país tenha um promotor, um delegado, um empresário – amigo ou não – que tenha coragem de afirmar que eu tenha me envolvido com qualquer coisa ilícita neste país”.
Lula também registrou que o juiz Moro já afirmou que ele não está sendo investigado. “Não há nenhuma Ação Penal contra mim e nenhuma possibilidade disso, a não ser que seja uma violência contra tudo o que se conhece nesse país”, complementou, avaliando que neste momento, nem habeas corpus as pessoas estão conseguindo: “está muito pior que na ditadura militar”.
“Em três anos dá para fazer muita coisa”
Ao ressaltar o recente reajuste de 11% dado ao salário mínimo, o aumento para os aposentados e o reajuste do piso dos professores, o ex-presidente lembrou que na imprensa notícias como são expressas como se a presidenta estivesse dando um aumento que não tem condições de dar. “O povo brasileiro precisa repudiar todas as pessoas que trabalham para atrapalhar o emprego no Brasil: “elas não estão prejudicando o governo ou a presidenta, mas o país. Quem sofre na pele é o povo mais necessitado”, ponderou.
Lula afirmou que a presidenta Dilma não pode permitir que uma pauta negativa paralise o governo. E se disse “convicto” que ela será ousada daqui para frente. “Faltam 3 anos, um ano foi consumido. Em 3 anos dá para fazer muita coisa”.
Por fim, questionado sobre uma possível candidatura em 2018, avaliou que a decisão dependerá do que acontecer no país: “O importante não é discutir candidatura, mas o fortalecimento do projeto. Se eu tiver com saúde na época e for o único capaz de evitar que as conquistas do povo brasileiro sejam tiradas e o processo de inclusão seja desmontado, eu estarei no jogo. E se tiver outra [pessoa], eu estarei também, fazendo a campanha”.
Créditos da foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Lula faz o pêndulo do PT se mover à esquerda; é a campanha eleitoral de 2016
publicado em 20 de janeiro de 2016 às 23:05
por Luiz Carlos Azenha
O ex-presidente Lula viajou o Brasil várias vezes.
Ele conhece o país física e intuitivamente.
Tem o Nordeste no DNA. Cresceu com os deserdados de São Paulo.
Lutou com a elite operária do ABC industrial. Não há outro líder com a sensibilidade social de Lula.
Fernando Henrique Cardoso, o líder intelectual da oposição, é um sociólogo de elite. Que só montou num jegue e se declarou com “um pé na cozinha” durante campanhas eleitorais. A relação entre FHC e o povo brasileiro é de água e óleo. O povo sabe que FHC não é “dos seus”.
Lula, não. Ele usa muitas metáforas no discurso. Algumas não fazem o menor sentido, mas garantem que seu discurso chegue ao povão. Ele adora falar como o pai e a mãe que administram o Brasil como se fosse uma imensa família, quando não é. Pelo contrário: a História do Brasil é a história da insurreição e da supressão dos que lutam por direitos. Mas Lula, o conciliador, parece realmente acreditar que o empresário Gerdau e o sindicalista Vicentinho podem conviver harmoniosamente. Em outras palavras, Lula incorpora a ideia de que o pobre brasileiro “sabe o seu lugar”.
O ex-presidente diz que Dilma está à sua esquerda. Confere. Diz-se que Golbery, o fiador da abertura lenta, gradual e restrita da ditadura militar, preferia Lula aos comunistas. O irmão de Lula era comunista. Ele, nunca foi. Lula é um social democrata, cujo horizonte é dar casa própria e automóvel a todos. Num país de deserdados e de imensa desigualdade social, como o Brasil, isso é revolucionário. Lula fala sempre nos bagres e nos sapos como um estorvo ao desenvolvimento. Ele ainda não chegou ao ponto de reconhecer que sem os bagres e os sapos nós, seres humanos, não sobreviveremos nesta Terra.
Como diz Paulo Henrique Amorim, sempre um observador arguto de nossa realidade, os tucanos vivem na e da mídia. Tiram o oxigênio dos colunistas de jornais, emissoras de rádio e TV. Não têm qualquer afinidade com o povo brasileiro. Eleitoralmente, sobrevivem na negação do outro. São, assim, cópia fiel da UDN. Criam uma realidade paralela, a do eterno “mar de lama”, para se apresentarem como “alternativa” à corrupção — da qual, aliás, fazem parte intimamente. PHA diria: qual é a ideia política original dos tucanos, além de entregar o patrimônio público para financiar seus governos? Eles sobrevivem vendendo a soberania brasileira.
Lula, na entrevista aos blogueiros, admitiu hoje que o PT se tornou um partido igualzinho a todos os outros. Fato. Quando ele fala que alguns companheiros “erraram”, provavelmente está se referindo aos crimes cometidos por gente como o ex-líder do governo Dilma no Senado, Delcídio do Amaral, que armava para tirar uma testemunha-chave do Brasil.
Todos os escândalos tucanos sobreviveram ao PT no poder: sanguessugas, vampiros, mensalão, petrolão. Em torno deles, o famoso pacto das elites.
O ex-presidente tem razão quando diz que o PT é perseguido pela mídia desde que ele assumiu o poder, em 2002. Vi isso de dentro da redação da TV Globo. Eu estava presente — e abominei — quando colegas jornalistas aplaudiram Lula antes da entrevista que ele deu ao Jornal Nacional, depois que se elegeu. E abominei quando, na onda das primeiras denúncias do mensalão, a Globo entrou na onda de criminalizar o PT, o que já dura mais de 12 anos. Testemunhei pessoalmente: a Globo colocou todos os seus recursos materiais e profissionais para investigar o PT, quando não fez o mesmo com nenhum outro partido.
A postura da mídia como linha auxiliar da oposição, no entanto, não deve ser usada como desculpa para o “reformismo fraco” do PT. Desde que José Dirceu, com suas alianças a qualquer custo, levou Lula ao poder, o PT se tornou ferramenta da “modernização conservadora” do Brasil. Um partido da ordem, que proporcionou migalhas aos mais pobres enquanto os mais ricos enchiam as burras de dinheiro.
O governo de coalizão do PT só pode se dar ao luxo de ser social democrata na bonança.
Na crise, banca a lei antiterrorismo contra os movimentos sociais, a reforma da Previdência, os leilões do pré-sal, o desmanche da Petrobras e da Eletrobras.
Na entrevista aos blogueiros, Lula mais uma vez mexeu com o pêndulo. Como líder mais importante do PT, se disse contra a lei antiterrorismo, a venda da Gaspetro e da Transpetro e propôs uma política econômica distinta do austericídio de Dilma.
É como se fosse aquele jogo do bad cop (Dilma) e do good cop (Lula).
Lula prega o apoio a Dilma, mas se distingue dela com propostas à esquerda, para não perder o campo político essencial, onde se encontra a militância do partido.
É sempre assim, desde a campanha de 2002: à esquerda durante a campanha, à direita no governo, à esquerda às vésperas do próximo período eleitoral, à direita depois da composição do governo.
Um pêndulo que, apesar de hipnotizar alguns blogueiros, se move de forma oportunista.
Mantém, como cenoura no horizonte, as reformas que realmente importam: democratização da mídia, reforma tributária que obrigue os ricos a assumirem carga tributária hoje carregada pela classe média e os mais pobres, soberania nacional sobre setores estratégicos (energia, comunicações e recursos naturais), um banco central que não esteja a serviço eminentemente do sistema financeiro.
O PT continua acreditando que pode se perpetuar como o menos ruim dos partidos.
Leia também:
Um resumo da entrevista de Lula aos blogueiros
Notícia colhida no sítio http://www.viomundo.com.br/politica/lula-faz-o-pendulo-do-pt-se-mover-a-esquerda-e-a-campanha-eleitoral-de-2016.html
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Lula aos blogueiros. Onde está a notícia? Na economia…
Como tinha prometido, volto à entrevista de Lula, hoje, para falar do seu conteúdo.
Sob o aspecto político-judicial (triste ter de tratar da política judicializada como está, com o futuro do país submetido à ilegitimidade política do único poder sem-voto da República) houve pouca novidade.
O dado novo já estava dado, com a entrada de Nilo Batista na defesa do ex-presidente, que significa, ao mesmo tempo, uma postura ativa e profissionalmente prudente que, combinada ao novo ânimo lulista – “vou processar todo mundo (que o caluniar)”.
A reafirmação na crença de uma recuperação do PT, embora possível e ser dever como presidente de honra do partido proclamar também não é o que está em questão. Lula é maior do que o PT e 2018 pode ser bem sucedido sem que o PT seja – e nunca foi – a única força a sustentá-lo.
O novo na entrevista de Lula foi a economia.
Nela, Lula foi explícito, direto:
” O que nós estamos vendo: se em algum momento se acreditou que fazendo discurso para o mercado a gente ia melhorar, o que a gente percebeu é que não conseguimos ganhar uma pessoa do mercado. Nem o Levy, que era representante do mercado no Ministério da Fazenda, não virou governo. Não ganhamos ninguém e perdemos a nossa gente. (…) em algum momento neste mês vão precisar anunciar alguma coisa para a sociedade brasileira. Então o Levy saiu, e o que vai mudar?”
E que tipo de “alguma coisa” pensa Lula que será anunciada?
“O que a gente percebe é que tá faltando crédito, financiamento. Penso que a presidenta e o (Nélson) Barbosa precisam pensar, não sei pra quando, uma forte política de crédito para investimento e para consumo.”
“Infraestrutura é central, não apenas ferrovias, mas muitas coisas que você precisa investir. Eu se fosse a Dilma, fazia como os russos: chamava a China e pactuava um grande projeto de investimentos e dava como garantia o petróleo. Eles precisam e nós temos. Uma crise cria a oportunidade que você faça tudo que não dá para fazer na normalidade”.
Reforma na previdência e aumento de impostos, ambos necessários, são partos encruados: demoram meses e provocam dores políticas de alta intensidade.
Lula pensa em respostas rápidas, embora não radicais .
“Tem de ter uma política de financiamento de infraestrutura com mais rapidez, e o consumo. Se não tem consumo, ninguém investe. Poderia se tentar ver como está o crédito consignado e fazer uma forte política de crédito consignado, acertado com o movimento sindical e os empresários.
Se a gente fizer tudo isso, a gente faz a roda da economia girar. Aí o governo vai arrecadar mais, e ter mais capacidade de investimento”.
Está aí, para mim, a parte “pouco ouvida” e “pouco lida” da entrevista de Lula.
Artigo colhido no sítio http://tijolaco.com.br/blog/lula-aos-blogueiros-os-trechos-principais-da-entrevista/

