fetec@fetecpr.com.br | (41) 3322-9885 | (41) 3324-5636

Por 13:18 Sem categoria

Fórum Social faz balanço de 15 anos e debate futuro em Porto Alegre

Integrantes do comitê organizador do evento apresentaram um resumo da programação durante entrevista coletiva no auditório Dante Barone, na Assembleia Legislativa. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marco Weissheimer

Após 15 anos de vida, de idas e vindas por vários continentes, o Fórum Social Mundial faz novamente de Porto Alegre um território para debater o estado das coisas no mundo. Mesmo sendo um Fórum Social Temático, preparatório ao evento mundial que ocorrerá em Montreal, de 9 a 14 de agosto deste ano, o simples fato de ocorrer em Porto Alegre, berço de todo o processo FSM, faz do encontro que começa oficialmente nesta terça-feira (19) uma oportunidade para refletir sobre a trajetória do movimento altermundista e sobre as suas perspectivas de futuro. O Fórum Social Porto Alegre começa com uma marcha que partirá do Largo Glênio Peres, ao lado do Mercado Público, e seguirá pela avenida Borges de Medeiros até o Largo Zumbi dos Palmares. A concentração inicia às 15 horas, mas a marcha partirá por volta das 18h, quando o calor que assola Porto Alegre nesta época do ano já é menor.

Como em outros fóruns, o encontro que inicia nesta terça em Porto Alegre tem em uma ampla e diversificada agenda de debates. Mas há um fio condutor que percorre toda a programação do Fórum: o balanço destes 15 anos e os desafios para o futuro. Em uma entrevista coletiva realizada na tarde desta segunda-feira no auditório Dante Barone, da Assembleia Legislativa gaúcha, integrantes do comitê organizador local do evento apresentaram um resumo da programação que deve se estender até o próximo domingo na capital gaúcha. Mauri Cruz, integrante do Comitê de Apoio Local do Fórum Social Mundial Porto Alegre, destacou que mais de 470 atividades autogestionadas estão programadas para ocorrer até sexta-feira, além das mesas de convergência que reunirão os diferentes movimentos sociais que participam do processo FSM. Além destas, há dezenas de atividades paralelas associadas à programação do Fórum.

As principais atividades ocorrerão no Parque da Redenção, no Auditório Araújo Vianna, no Largo Zumbi dos Palmares, na Câmara de Vereadores de Porto Alegre e na Assembleia Legislativa. O Acampamento da Juventude, no Parque da Harmonia, também será palco de vários debates e atividades culturais. Para quem estiver interessado no debate sobre a conjuntura internacional e sobre o balanço de 15 anos do Fórum Social Mundial, as principais atividades serão as mesas de convergência programadas para os dias 20, 21 e 22, sempre na parte da tarde (veja aqui a programação completa). No sábado pela manhã, a partir das 10 horas, será realizada a assembleia dos movimentos sociais. No final de semana, também deverá ocorrer uma reunião do Conselho Internacional do FSM.

Uma tenda com a memória viva dos 15 anos do Fórum Social Mundial será instalada na entrada do Auditório Araújo Viana, com um acervo de imagens, vídeos e materiais diversos relacionados às diversas edições do FSM realizadas pelo mundo. As inscrições para participar das atividades do FSM Porto Alegre podem ser feitas pelo site do evento, a um preço de R$ 20,00. As inscrições também poderão ser feitas na hora, durante o evento. As inscrições de atividades terminam no próximo domingo, dia 10 de janeiro.

Parque da Redenção será um dos principais espaços de debate do Fórum Social Porto Alegre. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

“O que se dizia em 2001 virou realidade”

Na avaliação de Mauri Cruz, o debate de balanço sobre o presente e o futuro do Fórum guarda relação com o diagnóstico sobre a situação mundial feito há 15 anos, por ocasião do nascimento do Fórum. “O que se dizia em 2001 acerca de múltiplas crises que estavam no horizonte virou realidade. Vivemos hoje, em escala mundial, uma confluência de crises de caráter social, político, econômico e ambiental”, assinala. O Fórum Social Porto Alegre pretende atualizar esse debate e terá a presença de representantes de povos que vivem em regiões onde essa crise é mais dramática e mortal, como os curdos e alguns palestinos que conseguiram furar o bloqueio imposto por Israel nos territórios ocupados.

Jussara Cony, vereadora do PCdoB em Porto Alegre, destacou uma das novidades deste Fórum, que é um protagonismo inédito das mulheres. “Nós conquistamos a paridade em todas as atividades do Fórum, algo que é inédito e fruto da luta das mulheres nestes últimos anos. A Primavera das Mulheres estará presente no Fórum de Porto Alegre”. Para Jussara Cony, outro eixo central dos debates que ocorrerão esta semana está relacionado à atual ordem política internacional. “Um dos nossos desafios é construir neste fórum uma grande unidade da luta anti-imperialista, aprofundando o internacionalismo entre os povos em luta”, afirmou a vereadora.

Mauri Cruz e Jussara Cony destacaram ainda que o evento deste ano em Porto Alegre deverá ter uma importante mudança no perfil dos protagonistas. Enquanto em 2001 e nos anos seguintes houve uma presença muito forte de intelectuais europeus e lideranças sindicais em sua maioria brancos e do gênero masculino, agora, em 2016, deve predominar uma diversidade maior, com a presença de muitos representantes do movimento negro, de comunidades indígenas, da Marcha Mundial de Mulheres, movimentos ambientalistas e de juventude de periferia. Os integrantes do comitê organizador não apontam nenhum antagonismo nesta diferença de perfil, mas uma mudança diretamente relacionada ao que ocorreu nos últimos 15 anos e que pode indicar também possíveis caminhos futuros para o movimento que quer construir outro padrão de globalização no mundo.

Notícia colhida no sítio http://www.sul21.com.br/jornal/forum-social-faz-balanco-de-15-anos-e-debate-futuro-em-porto-alegre/

=====================

Fórum Social Mundial precisa se abrir à busca de alternativas ao neoliberalismo (por Emir Sader)

A irrupção do neoliberalismo como novo modelo de capitalismo foi fulminante, atropelando tudo o que havia e se propagando com uma velocidade nunca vista. Rapidamente se transformou no modelo hegemônico, euforicamente, promovendo valores de mercado, destruindo direitos e regulações estatais.

A década de 1990 foi a de seu auge, combinando o eixo Estados Unidos-Inglaterra com a adesão da social democracia europeia, o fim da URSS, a adoção pela China de um modelo de mercado. Uma ofensiva que buscava se consolidar com o Consenso de Washington e o pensamento único.

Como setores amplos da própria esquerda aderiram ao novo modelo, a resistência ao neoliberalismo foi protagonizada por alguns partidos de esquerda, mas essencialmente por movimentos sociais. Essa resistência assumiu, inicialmente, a forma de manifestações de protesto contra o Fórum Econômico Mundial de Davos.

Até que as forças que protagonizavam esses protestos resolveram organizar um fórum alternativo, que assumiu o tema social no lugar do econômico, como símbolo dos conteúdos contrapostos dos dois fóruns.

Decidiu-se que deveria estar no Sul do mundo, vítima privilegiada das políticas neoliberais. Que deveria estar na América Latina, onde havia mais lutas de resistência e em particular no Brasil, país do PT, do MST, da CUT, do orçamento participativo. Por isso, a cidade escolhida foi Porto Alegre.

Os primeiros fóruns já surpreenderam pela quantidade e diversidade de participações, tanto da América Latina como também da Europa e, complementarmente, da Ásia, da África e dos Estados Unidos. O lema do Um outro mundo é possível significava a luta contra o pensamento único e as normas do Consenso de Washington.

O caráter amplo do Fórum Social Mundial (FSM) foi sendo limitado ao longo do tempo, conforme ONGs impuseram normas restritas, excluindo forças políticas, governos, partidos. Isso foi feito marginalizando os componentes representativos na direção do FSM, como a CUT e o MST. Além disso, pela visão equivocada de oposição ao Estado, com a ilusão de que seria possível mudar o mundo sem apropriação do Estado e mudança do seu caráter.

Conforme foram se elegendo governos antineoliberais na América Latina – especialmente com os primeiros, de Hugo Chávez na Venezuela em 1998, de Lula no Brasil em 2002, de Néstor Kirchner na Argentina em 2003, de Tabaré Vázquez no Uruguai em 2004 – foi ficando claro que a construção de alternativas ao neoliberalismo – que devia ser objetivo do FSM – passava por esses governos.

Governos que privilegiam o social no lugar do ajuste fiscal, a integração regional no lugar do livre comércio e dos seus tratados, e resgatam o Estado para afirmar direitos excluídos pelos governos neoliberais. Esses governos não tinham lugar no FSM. Naquele realizado em Belém, em 2009, o último importante e representativo do FSM, o maior ato foi protagonizado por presidentes latino-americanos – Chávez, Lula, Rafael Correa, Evo Morales, Fernando Lugo – e teve de ser feito fora da programação oficial do FSM.

As ONGs se opuseram sempre a que houvesse propostas alternativas ao neoliberalismo, preferindo que o espaço fosse apenas de intercâmbio de experiências.

A partir daí se desviaram os caminhos de quem constrói alternativas aos neoliberalismo – governos sul-americanos – e as forças que apenas intercambiam experiências. O FSM perdeu transcendência, as novas gerações – as do Ocupa, dos indignados, do Podemos, do Syriza nem conhecem o FSM.

Nesta semana será realizado um FSM temático em Porto Alegre – as ONGs se opuseram a que o FSM se desse nessa cidade, preferindo fazê-lo no Canadá –, que pode ser importante se puder discutir alternativas futuras para o Brasil – como as atividades do projeto O Brasil que queremos, no acampamento da juventude.

Emir Sader é sociólogo e cientista político.

Artigo colhido no sítio http://www.sul21.com.br/jornal/forum-social-mundial-precisa-se-abrir-a-busca-de-alternativas-ao-neoliberalismo-por-emir-sader/

Close