‘Não acredito que a juventude não goste de política’
Recordista de votos no Rio Grande do Sul, Manuela D’Ávila, de 25 anos, foi eleita deputada federal pelo Partido Comunista do Brasil. Em entrevista, ela fala sobre sua trajetória política e defende que a esquerda precisa reciclar sua linguagem.
PORTO ALEGRE – Manuela D’Ávila, jornalista de 25 anos, vem sendo apontada como um dos fenômenos da campanha eleitoral deste ano. Mas a palavra “fenômeno” talvez não seja a mais adequada para descrever seu desempenho nas urnas. Ao contrário de alguns candidatos que caem de pára-quedas na política em função de sua visibilidade profissional, Manuela, filha de servidores públicos e comunista, tem muita militância nas costas. Após cerca de cinco anos de militância do movimento estudantil, em 2004, foi eleita vereadora em Porto Alegre, pelo Partido Comunista do Brasil, com 9.498 votos, a mulher mais votada no Estado e a vereadora mais jovem da história da capital gaúcha. Agora, em 2006, foi eleita deputada federal pelo PC do B, com 271.939 votos, a deputada mais votada do Rio Grande do Sul.
Em entrevista à Carta Maior, Manuela conta um pouco de sua história, de sua militância no PC do B e de sua preocupação em renovar a linguagem na política. A esquerda precisa aprender a falar de modo mais simples e claro, defende. Integrante da geração da internet, ela incorporou o instrumento em seu trabalho político. Em seu mandato como vereadora em Porto Alegre, Manuela responde pessoalmente os e-mail’s que recebe. Sua comunidade no Orkut saltou de cem integrantes para mais de quatro mil durante a campanha. O próximo terreno que pretende explorar agora é o uso do Youtube.
A nova deputada federal não acredita que a juventude não goste de política. “Ela não gosta desta política que está aí, baseada na lógica de chefes e caciques”. A esquerda, defende, precisa reciclar sua linguagem, aprender a falar de modo mais claro e não reproduzir dentro dela a lógica dos partidos conservadores. “os partidos brasileiros são espaços de chefes e caciques. Grande parte da política nacional é dirigida por disputa entre esses caciques. É evidente que a posição dos jovens fica fragilizada neste contexto, a não ser que você seja neto do dono, como é o caso do ACM Neto na Bahia, ou filho do dono, como é caso do Rodrigo Maia, no Rio de Janeiro. Um é neto do dono do PFL na Bahia e o outro é filho do dono do PFL no Rio”.
Carta Maior – Vamos começar com uma apresentação básica. Qual a sua história na política? Quando começou a militar?
Manuela D’Ávila – Eu comecei a militar em 1999, quando ingressei no curso de Jornalismo na PUC e no curso de Ciências Sociais na UFRGS. Aquele foi um ano muito significativo para as universidades federais que vinham de uma greve bastante grande, em 1998, contra a tentativa de privatização branca por parte do governo Fernando Henrique. Ao mesmo tempo, as privadas viviam um processo de ampliação desenfreada e de aumento de mensalidades. Lembro que, quando entrei na PUC, minha mensalidade custava 259 reais. Após quatro anos, quando saí, estava custando 1.100 reais. Vivíamos, então, uma política desenfreada de crescimento do ensino privado, sem nenhum controle, e um enfraquecimento gigantesco da universidade pública. Foi neste contexto que comecei a militar no movimento estudantil. Em 1999, ingressei na UJS (União da Juventude Socialista) e, em 2000, me filiei ao PC do B. Fui do Diretório Acadêmico de Ciências Sociais da UFRGS, participei do movimento de oposição à direção do Diretório Central de Estudantes. Em 2003, fiz parte da direção da UNE (vice-diretora da região Sul), função que desempenhei até 2004. Foi um período muito rico pois coincidiu com o início do governo Lula. Foi um momento de muita contradição, da boa contradição, junto aos movimentos sociais. Foi nesta época que criamos a Coordenação dos Movimentos Sociais e tivemos uma relação muito boa com a CUT, com o MST e demais movimentos. Aprendi muito aí. Em 2004, me licenciei da UNE para concorrer a vereadora em Porto Alegre e acabei me elegendo. A partir daí tudo se acelerou um pouco mais
CM – Quantos votos fez nesta primeira eleição?
MD – 9.498 votos. Fui a mulher mais votada do Estado. Lembro de uma cena desta campanha. O governo Lula ainda estava no início, não tinha nada de crise ou escândalos, mas havia um clima de que não estava correspondendo às expectativas. Quando falei do Lula em meu programa de televisão, um dirigente do PT me disse que eu iria me ferrar e não conseguiria me eleger. A minha campanha teve essa marca, de defesa do desenvolvimento e da juventude. Mas talvez a marca principal tenha sido no campo da forma. Buscamos uma renovação. Mas o que é renovação? Não é simplesmente votar em alguém jovem, senão teríamos uma Câmara Federal cheia de pessoas da minha idade. Um dos elementos de renovação muito forte na nossa campanha, que fizemos questão de manter e ampliar na campanha para a Câmara Federal, foi a questão da espontaneidade. Nossa campanha não foi enquadrada nem quadrada. Foi muito espontânea. Eu não fui transformada em nada que eu não seja. Acho que conseguimos desvincular muito bem essa imagem de que política séria é política feita de maneira formal. Conseguimos construir isso tanto na campanha para vereadora quanto agora para a Câmara dos Deputados. Chegamos a pensar: será que não vão pensar que uma guria concorrendo à Câmara é algo pejorativo? Mostramos que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Ser sério significa defender os interesses do povo, significa ser sério no trato com a coisa pública, é respeitar e fazer com que as pessoas participem da construção do mandato. Fizemos isso muito aqui em Porto Alegre e acho que esse é um dos motivos do crescimento da minha votação aqui. Podem falar o que quiser, mas Porto Alegre já me elegeria deputada federal. Aqui eu tenho um mandato. Aqui eu não sou bonita, não sou fenômeno, etc. Aqui as pessoas me conhecem. Tenho dois anos de mandato. Se não aprovassem meu mandato não teria feito quase 70 mil votos na cidade.
CM – E como foi essa experiência de dois anos como vereadora?
MD – Procuramos fazer um mandato mais aberto. A nossa política ainda é muito vinculada a um padrão comportamental. É uma coisa engraçada. Quando entrei na Câmara foi um choque. A seriedade e o cinismo nas relações é um imperativo.
CM – Suas duas campanhas tiveram uma preocupação muito grande com a forma, com a linguagem. Elas usaram muito a internet como ferramenta, por exemplo…
MD – Na campanha para vereadora eu até não usei muito a internet, mas usei muito no mandato. No mandato, usamos tudo e mais um pouco. A única coisa que a gente não usou ainda e que é uma briga minha foi o Youtube, que também pode dar um dinamismo muito legal para o mandato. Essa questão da linguagem, que tu fala, para mim é chave. É um conceito político fundamental. Lembro que na universidade eu estava lendo um livro do Levy-Strauss e pensei: esse cara é um gênio, mas não entendo o que ele escreve. Tinha que ler cinqüenta vezes a mesma frase para entender o que ele estava querendo dizer. Parece que ele não quer ser entendido, me dizia. Ele era um gênio, né? Foi o cara que revolucionou a antropologia. Agora, quem entende mesmo o que ele escreveu? Quantas vezes é preciso ler algumas coisas que ele escreveu para entender o que está sendo dito? Acho que tem um conceito importante aí. O que tu diz ou escreve precisa ser entendido. E isso é uma confusão muito grande na esquerda. Muitas vezes se acha que simplificar, do ponto de vista do entendimento, significa rebaixar o discurso. Não é. Tenho convicção que não é. É óbvio que as questões teóricas mais profundas não podem ser transformadas em coisas simplistas. Não é querer explicar O Capital dizendo: “leia O Capital ilustrado”. Não estou falando isso. Mas, do ponto de vista político, o entendimento das coisas, é preciso falar de um modo mais claro. E aí entra a questão da internet, que é um espaço dessa linguagem mais direta e clara. Não estou falando da linguagem abreviada, cheia de erros, mas sim da linguagem direta, do contato permanente.
CM – E como é que seu mandato usou concretamente essa ferramenta?
MD – Vou dar um exemplo. Eu tenho mais e-mail’s do que endereços. Em qualquer gabinete de político isso não existe. Uma coisa que sempre me angustiou é a distância dos mandatos em relação às pessoas. Sempre achei horrível isso. Como ter toda semana um material impresso para se comunicar com elas? É impossível financeiramente. Não tem como. Tu não consegue nem readequar tua mala, com o que volta de correspondência. Aí a internet nos ajudou muito. Boletins eletrônicos semanais, atualização diária do site. Não sei quantas visitas diárias tivemos, mas isso começou a criar uma cultura de proximidade. A única pessoa que responde os e-mail’s que chegam ao mandato sou eu mesma. É loucura, dizem alguns. Loucura? Loucura é ter um cara que senta no computador, pensa, te manda uma mensagem e tu não responde pessoalmente pra ele. Tem muita gente que tem boas idéias na política e não faz política. Tenho um exemplo ótimo. Recebi a seguinte sugestão por e-mail: os estudantes andam todos os dias de ônibus; em horário de pique, tem um monte de gente em pé; podia ter um espaço dentro do ônibus para se colocar a mochila, né? O cara sentou uma noite em casa e teve essa idéia. Acho uma falta de respeito com as pessoas não valorizar isso. A equipe do nosso mandato conseguiu construir essa relação, mesmo sendo uma equipe pequena e composta basicamente por jovens estudantes. Tenho muito orgulho disso. É claro que temos uma vantagem geracional, pois fomos educados já com a existência dessa tecnologia. É óbvio que facilita. Acho que fazer isso é muito mais simples pra mim do que para um político de 50 ou 60 anos, que já tem seus valores fixos e uma linguagem definida. É claro que esse fator influencia. Mas acho que o que estamos fazendo está fazendo bem. Já vi que há outras pessoas fazendo isso. Quando questionei na Câmara como é que eles estavam bloqueando o Orkut no meu computador, que era usado para trabalho, foi um escândalo. Agora, na época de campanha, todo mundo tinha sua comunidade no Orkut. Eu iniciei uma comunidade com cem amigos, espalhados pelas várias cidades onde já vivi. O que era uma comunidade de amigos acabou virando um espaço cem por cento político. Hoje a comunidade tem quatro mil pessoas. Quatro mil pessoas que têm e-mail, que respondem, que conversam, que tem idéias, críticas e sugestões. Acho que tudo o que dinamiza a política faz bem para a política.
CM – Costuma-se dizer hoje que há um distanciamento crescente da juventude em relação à política, não só no Brasil como também em muitos outros países. Qual sua avaliação sobre isso? Concorda que está havendo esse distanciamento?
MD – Sim e Não. Em primeiro lugar, é preciso dizer que existe uma opinião publicada sobre esse afastamento. Acho que quem diz isso compreende a política num universo muito pequeno. Como é que se explica, por exemplo, o enorme envolvimento de jovens de periferia com o movimento hip hop? Esse movimento é extremamente politizado. Como é que se explica também a grande participação da juventude no chamado terceiro setor, sem entrar no mérito desse trabalho? Então, na minha opinião, existe, sim, uma grande participação da juventude em várias ações políticas. Onde está havendo uma participação pequena é no universo da política partidária. Por que isso? Em boa parte, porque os partidos brasileiros são espaços de chefes e caciques. Grande parte da política nacional é dirigida por disputa entre esses caciques. É evidente que a posição dos jovens fica fragilizada neste contexto, a não ser que você seja neto do dono, como é o caso do ACM Neto na Bahia, ou filho do dono, como é caso do Rodrigo Maia, no Rio de Janeiro. Um é neto do dono do PFL na Bahia e o outro é filho do dono do PFL no Rio. Esse tipo de disputa política acaba colocando o jovem em um patamar inferior, principalmente no caso dos partidos conservadores. Já o PT, com a lógica da disputa das correntes, acabou reproduzindo um pouco isso. A disputa é grande e na hora de concentrar, concentra no cara com mais acúmulo, abrindo pouco espaço para o novo surgir. Acho que isso explica um pouco porque a juventude do PC do B é maior do que a juventude do PT. O PC do B é um partido que tem espaço para isso acontecer. Se fôssemos considerar a ordem hierárquica de acúmulo de nossos quadros partidários, eu não seria candidata. Ficaria em 25° lugar, algo assim. Um terceiro aspecto que deve ser levado em conta neste debate é a lógica do individualismo dominante na sociedade brasileira. Quase não existe mais turma de faculdade, por exemplo. Um é adversário do outro. O mercado de trabalho impõe isso. Há vinte anos tínhamos muitos estudantes de classe média nas escolas públicas. Sou filha de servidores públicos. Minhas irmãs mais velhas estudaram em escolas públicas. Eu já estudei em escolas particulares. O neoliberalismo não se manifesta só na política econômica. Ele penetrou profundamente na cultura e no comportamento também. Assim, em um mundo onde o projeto não é coletivo, onde é cada um por si e nenhum por todos, é obvio que o individualismo aumenta e diminui a vontade de participar em espaço coletivos. Se eu pudesse resumir esse debate em uma frase diria: não acredito que a juventude não goste de política; acho que a juventude não gosta desta política que está aí, da forma como ela é feita. Quando se apresenta uma alternativa, o interesse é muito grande. Andei em todas as vilas aqui de Porto Alegre e vi isso na prática. O movimento sindical tem hoje uma estrutura que aproxima os jovens ou permanece com a mesma estrutura da década de 80?
CM – E agora, quais são seus planos para a Câmara dos Deputados? O que está pensando?
MD – Estou pensando na reeleição do Lula e na eleição do Olívio aqui no RS. Precisamos debater o que significa o neoliberalismo para o Brasil. É nisso que estou pensando agora.
Por Marco Aurélio Weissheimer.
ENTREVISTA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.
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Por Mhais• 13 de outubro de 2006• 11:08• Sem categoria
Não acredito que a juventude não goste de política, afirma a deputada federal mais votada no Brasil
‘Não acredito que a juventude não goste de política’
Recordista de votos no Rio Grande do Sul, Manuela D’Ávila, de 25 anos, foi eleita deputada federal pelo Partido Comunista do Brasil. Em entrevista, ela fala sobre sua trajetória política e defende que a esquerda precisa reciclar sua linguagem.
PORTO ALEGRE – Manuela D’Ávila, jornalista de 25 anos, vem sendo apontada como um dos fenômenos da campanha eleitoral deste ano. Mas a palavra “fenômeno” talvez não seja a mais adequada para descrever seu desempenho nas urnas. Ao contrário de alguns candidatos que caem de pára-quedas na política em função de sua visibilidade profissional, Manuela, filha de servidores públicos e comunista, tem muita militância nas costas. Após cerca de cinco anos de militância do movimento estudantil, em 2004, foi eleita vereadora em Porto Alegre, pelo Partido Comunista do Brasil, com 9.498 votos, a mulher mais votada no Estado e a vereadora mais jovem da história da capital gaúcha. Agora, em 2006, foi eleita deputada federal pelo PC do B, com 271.939 votos, a deputada mais votada do Rio Grande do Sul.
Em entrevista à Carta Maior, Manuela conta um pouco de sua história, de sua militância no PC do B e de sua preocupação em renovar a linguagem na política. A esquerda precisa aprender a falar de modo mais simples e claro, defende. Integrante da geração da internet, ela incorporou o instrumento em seu trabalho político. Em seu mandato como vereadora em Porto Alegre, Manuela responde pessoalmente os e-mail’s que recebe. Sua comunidade no Orkut saltou de cem integrantes para mais de quatro mil durante a campanha. O próximo terreno que pretende explorar agora é o uso do Youtube.
A nova deputada federal não acredita que a juventude não goste de política. “Ela não gosta desta política que está aí, baseada na lógica de chefes e caciques”. A esquerda, defende, precisa reciclar sua linguagem, aprender a falar de modo mais claro e não reproduzir dentro dela a lógica dos partidos conservadores. “os partidos brasileiros são espaços de chefes e caciques. Grande parte da política nacional é dirigida por disputa entre esses caciques. É evidente que a posição dos jovens fica fragilizada neste contexto, a não ser que você seja neto do dono, como é o caso do ACM Neto na Bahia, ou filho do dono, como é caso do Rodrigo Maia, no Rio de Janeiro. Um é neto do dono do PFL na Bahia e o outro é filho do dono do PFL no Rio”.
Carta Maior – Vamos começar com uma apresentação básica. Qual a sua história na política? Quando começou a militar?
Manuela D’Ávila – Eu comecei a militar em 1999, quando ingressei no curso de Jornalismo na PUC e no curso de Ciências Sociais na UFRGS. Aquele foi um ano muito significativo para as universidades federais que vinham de uma greve bastante grande, em 1998, contra a tentativa de privatização branca por parte do governo Fernando Henrique. Ao mesmo tempo, as privadas viviam um processo de ampliação desenfreada e de aumento de mensalidades. Lembro que, quando entrei na PUC, minha mensalidade custava 259 reais. Após quatro anos, quando saí, estava custando 1.100 reais. Vivíamos, então, uma política desenfreada de crescimento do ensino privado, sem nenhum controle, e um enfraquecimento gigantesco da universidade pública. Foi neste contexto que comecei a militar no movimento estudantil. Em 1999, ingressei na UJS (União da Juventude Socialista) e, em 2000, me filiei ao PC do B. Fui do Diretório Acadêmico de Ciências Sociais da UFRGS, participei do movimento de oposição à direção do Diretório Central de Estudantes. Em 2003, fiz parte da direção da UNE (vice-diretora da região Sul), função que desempenhei até 2004. Foi um período muito rico pois coincidiu com o início do governo Lula. Foi um momento de muita contradição, da boa contradição, junto aos movimentos sociais. Foi nesta época que criamos a Coordenação dos Movimentos Sociais e tivemos uma relação muito boa com a CUT, com o MST e demais movimentos. Aprendi muito aí. Em 2004, me licenciei da UNE para concorrer a vereadora em Porto Alegre e acabei me elegendo. A partir daí tudo se acelerou um pouco mais
CM – Quantos votos fez nesta primeira eleição?
MD – 9.498 votos. Fui a mulher mais votada do Estado. Lembro de uma cena desta campanha. O governo Lula ainda estava no início, não tinha nada de crise ou escândalos, mas havia um clima de que não estava correspondendo às expectativas. Quando falei do Lula em meu programa de televisão, um dirigente do PT me disse que eu iria me ferrar e não conseguiria me eleger. A minha campanha teve essa marca, de defesa do desenvolvimento e da juventude. Mas talvez a marca principal tenha sido no campo da forma. Buscamos uma renovação. Mas o que é renovação? Não é simplesmente votar em alguém jovem, senão teríamos uma Câmara Federal cheia de pessoas da minha idade. Um dos elementos de renovação muito forte na nossa campanha, que fizemos questão de manter e ampliar na campanha para a Câmara Federal, foi a questão da espontaneidade. Nossa campanha não foi enquadrada nem quadrada. Foi muito espontânea. Eu não fui transformada em nada que eu não seja. Acho que conseguimos desvincular muito bem essa imagem de que política séria é política feita de maneira formal. Conseguimos construir isso tanto na campanha para vereadora quanto agora para a Câmara dos Deputados. Chegamos a pensar: será que não vão pensar que uma guria concorrendo à Câmara é algo pejorativo? Mostramos que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Ser sério significa defender os interesses do povo, significa ser sério no trato com a coisa pública, é respeitar e fazer com que as pessoas participem da construção do mandato. Fizemos isso muito aqui em Porto Alegre e acho que esse é um dos motivos do crescimento da minha votação aqui. Podem falar o que quiser, mas Porto Alegre já me elegeria deputada federal. Aqui eu tenho um mandato. Aqui eu não sou bonita, não sou fenômeno, etc. Aqui as pessoas me conhecem. Tenho dois anos de mandato. Se não aprovassem meu mandato não teria feito quase 70 mil votos na cidade.
CM – E como foi essa experiência de dois anos como vereadora?
MD – Procuramos fazer um mandato mais aberto. A nossa política ainda é muito vinculada a um padrão comportamental. É uma coisa engraçada. Quando entrei na Câmara foi um choque. A seriedade e o cinismo nas relações é um imperativo.
CM – Suas duas campanhas tiveram uma preocupação muito grande com a forma, com a linguagem. Elas usaram muito a internet como ferramenta, por exemplo…
MD – Na campanha para vereadora eu até não usei muito a internet, mas usei muito no mandato. No mandato, usamos tudo e mais um pouco. A única coisa que a gente não usou ainda e que é uma briga minha foi o Youtube, que também pode dar um dinamismo muito legal para o mandato. Essa questão da linguagem, que tu fala, para mim é chave. É um conceito político fundamental. Lembro que na universidade eu estava lendo um livro do Levy-Strauss e pensei: esse cara é um gênio, mas não entendo o que ele escreve. Tinha que ler cinqüenta vezes a mesma frase para entender o que ele estava querendo dizer. Parece que ele não quer ser entendido, me dizia. Ele era um gênio, né? Foi o cara que revolucionou a antropologia. Agora, quem entende mesmo o que ele escreveu? Quantas vezes é preciso ler algumas coisas que ele escreveu para entender o que está sendo dito? Acho que tem um conceito importante aí. O que tu diz ou escreve precisa ser entendido. E isso é uma confusão muito grande na esquerda. Muitas vezes se acha que simplificar, do ponto de vista do entendimento, significa rebaixar o discurso. Não é. Tenho convicção que não é. É óbvio que as questões teóricas mais profundas não podem ser transformadas em coisas simplistas. Não é querer explicar O Capital dizendo: “leia O Capital ilustrado”. Não estou falando isso. Mas, do ponto de vista político, o entendimento das coisas, é preciso falar de um modo mais claro. E aí entra a questão da internet, que é um espaço dessa linguagem mais direta e clara. Não estou falando da linguagem abreviada, cheia de erros, mas sim da linguagem direta, do contato permanente.
CM – E como é que seu mandato usou concretamente essa ferramenta?
MD – Vou dar um exemplo. Eu tenho mais e-mail’s do que endereços. Em qualquer gabinete de político isso não existe. Uma coisa que sempre me angustiou é a distância dos mandatos em relação às pessoas. Sempre achei horrível isso. Como ter toda semana um material impresso para se comunicar com elas? É impossível financeiramente. Não tem como. Tu não consegue nem readequar tua mala, com o que volta de correspondência. Aí a internet nos ajudou muito. Boletins eletrônicos semanais, atualização diária do site. Não sei quantas visitas diárias tivemos, mas isso começou a criar uma cultura de proximidade. A única pessoa que responde os e-mail’s que chegam ao mandato sou eu mesma. É loucura, dizem alguns. Loucura? Loucura é ter um cara que senta no computador, pensa, te manda uma mensagem e tu não responde pessoalmente pra ele. Tem muita gente que tem boas idéias na política e não faz política. Tenho um exemplo ótimo. Recebi a seguinte sugestão por e-mail: os estudantes andam todos os dias de ônibus; em horário de pique, tem um monte de gente em pé; podia ter um espaço dentro do ônibus para se colocar a mochila, né? O cara sentou uma noite em casa e teve essa idéia. Acho uma falta de respeito com as pessoas não valorizar isso. A equipe do nosso mandato conseguiu construir essa relação, mesmo sendo uma equipe pequena e composta basicamente por jovens estudantes. Tenho muito orgulho disso. É claro que temos uma vantagem geracional, pois fomos educados já com a existência dessa tecnologia. É óbvio que facilita. Acho que fazer isso é muito mais simples pra mim do que para um político de 50 ou 60 anos, que já tem seus valores fixos e uma linguagem definida. É claro que esse fator influencia. Mas acho que o que estamos fazendo está fazendo bem. Já vi que há outras pessoas fazendo isso. Quando questionei na Câmara como é que eles estavam bloqueando o Orkut no meu computador, que era usado para trabalho, foi um escândalo. Agora, na época de campanha, todo mundo tinha sua comunidade no Orkut. Eu iniciei uma comunidade com cem amigos, espalhados pelas várias cidades onde já vivi. O que era uma comunidade de amigos acabou virando um espaço cem por cento político. Hoje a comunidade tem quatro mil pessoas. Quatro mil pessoas que têm e-mail, que respondem, que conversam, que tem idéias, críticas e sugestões. Acho que tudo o que dinamiza a política faz bem para a política.
CM – Costuma-se dizer hoje que há um distanciamento crescente da juventude em relação à política, não só no Brasil como também em muitos outros países. Qual sua avaliação sobre isso? Concorda que está havendo esse distanciamento?
MD – Sim e Não. Em primeiro lugar, é preciso dizer que existe uma opinião publicada sobre esse afastamento. Acho que quem diz isso compreende a política num universo muito pequeno. Como é que se explica, por exemplo, o enorme envolvimento de jovens de periferia com o movimento hip hop? Esse movimento é extremamente politizado. Como é que se explica também a grande participação da juventude no chamado terceiro setor, sem entrar no mérito desse trabalho? Então, na minha opinião, existe, sim, uma grande participação da juventude em várias ações políticas. Onde está havendo uma participação pequena é no universo da política partidária. Por que isso? Em boa parte, porque os partidos brasileiros são espaços de chefes e caciques. Grande parte da política nacional é dirigida por disputa entre esses caciques. É evidente que a posição dos jovens fica fragilizada neste contexto, a não ser que você seja neto do dono, como é o caso do ACM Neto na Bahia, ou filho do dono, como é caso do Rodrigo Maia, no Rio de Janeiro. Um é neto do dono do PFL na Bahia e o outro é filho do dono do PFL no Rio. Esse tipo de disputa política acaba colocando o jovem em um patamar inferior, principalmente no caso dos partidos conservadores. Já o PT, com a lógica da disputa das correntes, acabou reproduzindo um pouco isso. A disputa é grande e na hora de concentrar, concentra no cara com mais acúmulo, abrindo pouco espaço para o novo surgir. Acho que isso explica um pouco porque a juventude do PC do B é maior do que a juventude do PT. O PC do B é um partido que tem espaço para isso acontecer. Se fôssemos considerar a ordem hierárquica de acúmulo de nossos quadros partidários, eu não seria candidata. Ficaria em 25° lugar, algo assim. Um terceiro aspecto que deve ser levado em conta neste debate é a lógica do individualismo dominante na sociedade brasileira. Quase não existe mais turma de faculdade, por exemplo. Um é adversário do outro. O mercado de trabalho impõe isso. Há vinte anos tínhamos muitos estudantes de classe média nas escolas públicas. Sou filha de servidores públicos. Minhas irmãs mais velhas estudaram em escolas públicas. Eu já estudei em escolas particulares. O neoliberalismo não se manifesta só na política econômica. Ele penetrou profundamente na cultura e no comportamento também. Assim, em um mundo onde o projeto não é coletivo, onde é cada um por si e nenhum por todos, é obvio que o individualismo aumenta e diminui a vontade de participar em espaço coletivos. Se eu pudesse resumir esse debate em uma frase diria: não acredito que a juventude não goste de política; acho que a juventude não gosta desta política que está aí, da forma como ela é feita. Quando se apresenta uma alternativa, o interesse é muito grande. Andei em todas as vilas aqui de Porto Alegre e vi isso na prática. O movimento sindical tem hoje uma estrutura que aproxima os jovens ou permanece com a mesma estrutura da década de 80?
CM – E agora, quais são seus planos para a Câmara dos Deputados? O que está pensando?
MD – Estou pensando na reeleição do Lula e na eleição do Olívio aqui no RS. Precisamos debater o que significa o neoliberalismo para o Brasil. É nisso que estou pensando agora.
Por Marco Aurélio Weissheimer.
ENTREVISTA COLHIDA NO SÍTIO www.agenciacartamaior.com.br.
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