Estamos vivendo uma nova crise do sistema capitalista. Os debates sobre os limites do liberalismo, a necessidade do Estado Regulador e outras formas de organização da sociedade estão na ordem do dia. De um lado, há um movimento rápido e o esforço do G8 e G20 em salvar o sistema, com vultuosos recursos sendo destinados para socorrer bancos, empresas etc.. De outro, organizações sindicais, movimentos sociais e ONGs investem em atividades de protestos. No Brasil centrais sindicais e movimentos sociais se uniram em campanhas pela redução dos juros, manutenção dos direitos, redução da jornada de trabalho sem redução de salários, entre outras propostas. O mote principal das atividades sindicais é “os trabalhadores e as trabalhadoras não podem pagar pela crise”. O primeiro de maio deste ano foi marcado com atos e protestos no mundo, com participação dos movimentos sociais organizados tendo como tema a crise e seus efeitos.
A conjuntura de crise traz a necessidade de o movimento sindical refletir sobre que proposta tem para resolver o problema, sob quais pressupostos teóricos e de visão de mundo. O que, como e quando, são questões importantes para o momento. Alguns teóricos ao analisarem a conjuntura atual afirmam que há certa perplexidade e ao mesmo tempo uma inatividade da esquerda em proposição (Eric Hobsbawn, James Petras, Chico Oliveira, Robert Kurz entre outros, ver artigo “A ausência da esquerda capitalista”). O que reforça a idéia de que a crise é do capitalismo, assim como outras que já passaram como a de 1929, e não do sistema. Em 1929 havia uma polaridade entre capitalismo e socialismo, o risco da experiência da URSS ganhar o mundo fez com que políticas como o Welfare State fossem implantadas. Estas políticas fizeram com que movimentos como o trabalhismo inglês tomassem uma postura mais cômoda em relação ao sistema, situação também assumida por outros movimentos no mundo. Hoje, o que presenciamos é o socorro aos grandes investidores capitalistas com recursos públicos, ao mesmo tempo, os discursos de gastos nos programas sociais, tão necessários à sobrevivência de milhares de pessoas sofrem cortes. Longe de dar respostas a estas questões nos propomos discutir um pequeno viés do contexto das contradições do sistema, ou seja, as discriminações sexistas.
Nossa análise parte da concepção dialética marxista com um olhar de gênero. Acreditamos que ao discutir as contradições do capitalismo é preciso considerar não apenas as dimensões econômicas, mas também os aspectos subjetivos e culturais produzidos e reproduzidos pelo sistema. A divisão sexual do trabalho é um elemento importante para caracterizar as formas de dominação, na medida em que estabelece o local de homens e mulheres, de brancos e negros no mercado de trabalho, provocando através da discriminação sexista e racial maior acumulação do capital.
Do ponto de vista da formação capitalista, sua consolidação e crise, as mulheres tiveram uma participação fundamental para organização do sistema. O fato das mulheres como diriam os positivistas, responsáveis pela função “afetiva”, ou seja, cuidadoras da casa, alimentação, asseio, limpeza, educação, ao longo de tantos séculos. Conhecido como a dupla jornada por muitas mulheres que também trabalham fora, trabalho fundamental para reprodução social e nunca valorizado, reconhecido e remunerado pelo capital. Se não fosse este trabalho das mulheres, sejam elas donas de casa ou as empregadas domésticas, com certeza a classe trabalhadora e a sociedade em geral passaria grandes apertos. Para estarem em seus postos cumprindo a jornada de trabalho, alimentados ou alimentadas, com roupas limpas e passadas e despreocupados com o ambiente doméstico, limpeza da casa, cuidado com os filhos entre outras tarefas existe o trabalho que em muitos casos é assumido quase que exclusivamente pelas mulheres.
A participação das mulheres no mercado de trabalho fora do ambiente doméstico sempre teve muitas resistências. Nas fábricas de tecelagem e confecção, trabalho rotineiro, insalubre e de baixa remuneração, mulheres e crianças eram mais presentes. Na década de 1900 muitos trabalhadores e sindicatos resistiam em aceitar mulheres no mercado de trabalho. O medo era o de rebaixamento dos salários, já que as mulheres historicamente “aceitavam” um salário menor do que o pago aos homens. Na época da 1º Guerra Mundial, vários governos, como por exemplo, Inglaterra, lançaram selos e campanhas incentivando as mulheres ao trabalho na metalurgia e em outros trabalhos tipicamente considerados masculinos. Nos EUA, durante a 2ª Guerra, ficou famoso o selo e campanha da “Rosie, a Rebitadora” – cuja ilustração mostrava uma trabalhadora com macacão e mangas arregaçadas com os dizeres “nós podemos”.
Interessante ver como em determinadas conjunturas as mulheres são incentivadas a cumprir determinadas tarefas, o que na maior parte e em outros momentos normalmente seriam dispensadas. A luta das mulheres pelo reconhecimento de sujeitas de direitos foi árdua e gradual. O direito à educação, ao voto, ao trabalho são exemplos disso. As mulheres avançaram muito, o feminismo é reconhecido por muitos autores como a grande transformação paradigmática do último período, mas temos muito em que avançar.
Dados do DIEESE mostram que no mercado informal as mulheres e negros estão mais presentes, portanto, estão fora da cobertura social, previdência, licenças médicas e acidentárias, férias etc. No mercado formal as mulheres apesar de terem aumentado sua participação nos últimos anos, e apresentarem maior escolaridade do que os homens, ainda ganham menos que estes. Em média, a diferença salarial chega a 20%. As discriminações sexistas são visíveis: baixa remuneração, segmentação da ocupação em trabalhos repetitivos e mais suscetíveis a doenças ocupacionais, evidenciando a perversidade a que são submetidas as mulheres no mercado de trabalho. Na conjuntura atual, a crise e o desemprego segundo algumas projeções devem atingir mais as mulheres, que, em situações como estas são as primeiras a serem demitidas. Outro fato relevante é que com o aumento do desemprego aumenta também a violência, principalmente a violência doméstica. O agravante é que os cortes no orçamento público, já anunciados, devem atingir diretamente as mulheres, como creche em tempo integral, saúde, educação entre outras políticas.
Neste mês de maio quando resgatamos nossas bandeiras de luta, presentes na simbólica data do 1º de maio em que trabalhadores em Chicago em 1886, foram mortos por lutar pela redução da jornada e melhores condições de trabalho, necessitamos rever nossos projetos de construção da classe trabalhadora. Sem perder de vista que a classe trabalhadora tem dois sexos, é diversa na cor e etnia, na orientação sexual, geração e também temos que considerar as pessoas com deficiência. Não podemos permitir que o capital explore esta diversidade e diferenças, auferindo maior lucro e explorando os trabalhadores e trabalhadoras, através da divisão sexual do trabalho em que sexo e cor têm peso diferenciado.
A classe trabalhadora não vai pagar pela crise! Este mote só não basta, precisamos repensar nosso projeto de sociedade, de Estado, numa perspectiva transformadora, socialista e humana.
Fonte: Escrito por Eliana Maria dos Santos é secretária da Mulher da CUT-PR