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Responsável por valorização do real, juros já não são solução, diz economista

“Guerra cambial” exige ação rápida, o que não ocorreria por meio da Selic, que tem o nível definido pelo Banco Central

São Paulo – A taxa de juros brasileira é apontada como principal responsável pela atual sobrevalorização do real, mas sua redução não é vista como saída para o problema. Na visão de economistas ouvidos pela Rede Brasil Atual, em meio à chamada “guerra cambial” instalada a partir de medidas de desvalorização das moedas pelos governos dos Estados Unidos e China, cabe ao Brasil respostas de curto prazo.

A taxa básica de juros da economia, a Selic, está atualmente em 10,75% ao ano. Em termos reais – quer dizer, descontada a inflação –, é a maior taxa do mundo. Isso funciona para atrair investidores estrangeiros, contribuição fundamental para que o dólar esteja cotado na faixa de R$ 1,70.

Os juros básicos são definidos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), que se reúne a cada 45 dias. Entre economistas de bancos e instituições financeiras, a expectativa medida pelo Boletim Focus do Banco Central é de que a taxa permaneça no mesmo patamar até o fim do ano.

“No momento, para baixar a taxa de juros para um patamar razoável, que evite especulação, vai demorar algum tempo”, reconhece Ricardo Carneiro, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp. O mais indicado, por conta da guerra cambial, é buscar saídas mais rápidas de modo a não prejudicar os setores econômicos mais sensíveis ao câmbio baixo.

Entre as medidas está a possibilidade de o governo lançar mão do Fundo Soberano, explica Rogério de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi). Os recursos poderiam ser empregados para comprar dólares e elevar a cotação. Outra medida plausível seria aumentar o tempo mínimo de permanência do capital estrangeiro no país, em uma espécie de quarentena para os recursos.

“Seriam formas de causar riscos maiores para os especuladores”, resume Souza. “As medidas têm de ser transparentes e deixar clara a situação do Brasil, que é de se defender de um contexto externo, e não por um problema que ele está criando”, esclarece.

No mercado financeiro, os altos juros atraem capital de investidores interessados em lucrar com aplicação de curto prazo na bolsa de valores e, principalmente, em títulos da dívida pública, corrigidos pela Selic. Esses investidores trazem um enorme volume de dólares ao Brasil e, na lei de oferta e demanda, a enxurrada da moeda estrangeira faz com que ela perca força, sobrevalorizando o real.

Com o real muito forte, fica mais difícil garantir exportações e, por outro lado, as importações se tornam mais e mais volumosas. Os resultados estão demonstrados pela balança comercial deste ano. Como o país segue em crescimento, as exportações cresceram 29,6% até aqui na comparação com o mesmo período de 2009, somando US$ 166,5 bilhões. Já as importações tiveram expansão de 42,7%, chegando a US$ 151,4 bilhões, diminuindo a margem de superávit em 32,7%.

Além disso, neste momento o país se vê em meio ao que se vem chamando de uma “guerra cambial”, em que a depreciação do dólar é generalizada. Mas a avaliação é de que a situação brasileira poderia ser melhor caso a taxa de juros estivesse em um nível mais próximo do ideal. A postura do Banco Central, no entanto, é tida há anos como muito conservadora no sentido de promover cortes da Selic, o que prejudica os setores produtivos e, por consequência, os trabalhadores.

Na última semana, o Ministério da Fazenda elevou novamente a taxação para investidores estrangeiros. O Imposto sobre Operação Financeira (IOF) passou de 4% para 6%, uma nova tentativa de frear o ímpeto do capital especulativo. Além disso, passou de dois para quatro anos o prazo para que o Tesouro Nacional possa comprar dólares no mercado para pagar a Dívida Pública Federal.

Indústria

Uma das dúvidas é o impacto que a atual cotação tem sobre a indústria brasileira. Ainda que tenha sofrido retração em agosto e setembro, a produção industrial medida pelo IBGE registra alta de 13,1% na comparação com 2009. Além disso, a avaliação do instituto é de que já se encontrou um ponto de equilíbrio e que o período de recuo chegou ao fim.

Incertezas que serão dissipadas pelo tempo, mas que são motivo de preocupação para o Iedi. A entidade, ao fazer a leitura dos dados do IBGE, indicou que a taxa de câmbio tem efeito claro na retração da atividade industrial, com especial preocupação para a indústria de transformação. O Iedi avalia que a balança comercial deste setor tem registrado déficits cada vez maiores, devendo atingir US$ 35 bilhões neste ano.

Carneiro, da Unicamp, entende que mudar a taxa de câmbio, elevando em no mínimo 20% o nível atual, é importante, mas sozinho não resolve o problema. O pesquisador avalia que é necessário aprofundar a política industrial, fortalecendo a cadeia produtiva por meio de financiamento fiscal e tributário. Caso contrário, a tendência será aumentar ainda mais as importações, o que pode afetar, a longo prazo, o dinamismo do emprego industrial.

Esse efeito não é sentido neste momento porque a economia está em crescimento e um setor compensa o outro, ou seja, perde-se apenas a oportunidade de haver uma expansão um pouco maior. “Não tem desindustrialização no sentido de queda absoluta da produção industrial. Isso já existiu no passado, na década de 1990, quando fez abertura muito rápida da economia e com câmbio apreciado. Agora, não.”

Por: João Peres, Rede Brasil Atual. Publicado em 09/11/2010, 15:30.
Última atualização às 17:02.

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G-20 não deve encontrar solução para questão cambial

Analistas e governos entendem que boa vontade de Estados Unidos e China é fundamental, mas pouco provável

São Paulo – Um dos principais temas da reunião dos líderes do G-20, o grupo dos países mais industrializados do mundo inclusive emergentes, é o que economistas vêm tratando como guerra cambial. Em Seul, na Coreia do Sul, a partir desta quinta-feira (11), a expectativa de que os chefes de Estado das principais economias mundiais encontrem uma solução é pequena, dizem economistas.

Na avaliação de Ricardo Carneiro, diretor do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica da Unicamp, o problema deve se agravar mais antes de ser resolvido. Para ele, como China e Estados Unidos mantêm suas moedas desvalorizadas, aos demais países, irrelevantes no processo, cabe apenas se defender.

Durante o encontro do G-20, caberá ao Brasil o esforço de se colocar contra a atual postura de Estados Unidos e China, que prejudica bastante a política industrial dos emergentes. “A desvalorização da moeda chinesa e da moeda americana diante das outras moedas está causando um desequilíbrio no comércio mundial, e nós precisamos voltar a ter um equilíbrio”, indicou na segunda-feira (8) o presidente Lula.

A questão é que Estados Unidos e China, tidos como os principais responsáveis pela crise, andam em caminhos opostos. Como são países de imensa força econômica e não parecem dispostos a ceder, não há muito o que os outros possam fazer a não ser pressionar. Rogério de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), entende que é difícil imaginar que a reunião do G-20 termine com uma solução. “É um fórum importante para que as questões sejam colocadas, e neste sentido o governo brasileiro está fazendo o papel correto de ir e chamar atenção.”

O Federal Reserve, banco central do país do Norte, anunciou na última semana uma injeção de US$ 600 bilhões na economia, o que foi imediatamente criticado pela União Europeia e pelo Brasil, entre outros. Trata-se de mais uma tentativa de fazer o país voltar a crescer, mas a avaliação mundial é de que a medida é incorreta, porque já há crédito farto no mercado dos Estados Unidos e, como a economia local não se recupera, esse dinheiro vai viajar pelo mundo, forçando a valorização de outras moedas.

O Brasil, pelos juros altos, é um dos alvos prediletos dos capitais especulativos, o que deve aumentar ainda mais a sobrevalorização do real. “Todo mundo quer que a economia americana se recupere, mas não adianta ficar jogando dólar de helicóptero na economia, porque isso não fará brotar o crescimento”, acusou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que entende que a Casa Branca deve se preocupar em buscar outras medidas para estimular a retomada do mercado interno.

As cartas na manga ainda disponíveis são um problema. No ápice da crise internacional, os Estados Unidos optaram por pouca regulação, deixando ao mercado a saída da recessão e da falta de crédito. O governo de Barack Obama tentou um pacote fiscal que, no entanto, não parece ter surtido efeito. A saída mais convencional a esta altura seria baixar os juros, medida comum na tentativa de estimular crescimento econômico. Porém, como a taxa básica da economia dos Estados Unidos já é de 0% a 0,25%, menor do que a inflação (negativa em termos reais), não há espaço para mais cortes.

Por isso, a opção por injetar dinheiro foi buscada para tentar acelerar a economia. A medida, anunciada no último dia 3, tem efeitos colaterais para os países que se veem “inundados” por dólares, prejudicando ainda mais as moedas locais e, por consequência, a balança comercial. “A economia dos Estados Unidos está no chão, muito desestimulada. Eles decidiram não seguir na questão do gasto público e só têm esse caminho, que é de tentar ampliar a liquidez com a emissão de moeda”, avalia Ricardo Carneiro.

Com dinheiro sobrando no mercado financeiro, os investidores levam recursos a outras partes do mundo e “desbalanceiam todas as taxas de câmbio”. “A questão cambial é uma espécie de subproduto do que os Estados Unidos estão fazendo. Como os outros países não são agentes relevantes nessa disputa, vão ter de fazer o melhor possível para se defender”, explica Carneiro.

País asiático

O outro agente de peso nessa questão é a China. O país asiático tem enormes reservas cotadas em dólar, as maiores do mundo, e mantém há anos uma desvalorização proposital de sua moeda. A conta é simples: com sua moeda mais baixa, a China breca importações e facilita suas exportações, mantendo seu acelerado ritmo de crescimento econômico graças a um generoso incentivo à indústria local. “Os Estados Unidos têm déficit muito grande com a China e uma medida como a valorização de sua moeda poderia reverter a favor da economia americana, o que é bom para o mundo todo”, acrescenta Souza, do Iedi.

O governo de Hu Jintao já descartou adotar qualquer meta para a limitação dos desequilíbrios mundiais mesmo durante a reunião do G-20. A pressão internacional era para que os chineses aceitassem valorizar o yuan, moderando exportações e acelerando o consumo interno. Após a negativa chinesa, os Estados Unidos também desacreditaram adotar qualquer meta.

Por: João Peres, Rede Brasil Atual. Publicado em 09/11/2010, 09:35. Última atualização às 16:58

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